quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A vista da janela





A vista da janela é o passado próximo.
Dou as costas.
O espelho me afasta.
Um sapato parece apertar mais que o outro. 
O corredor é longo e cheio de portas. 
O elevador me leva às profundezas 
onde um carro desgovernado por mim
vai de zero a cem em poucos segundos
 -- para as autoridades competentes sou infrator. 
Para o amor sou notícia velha.
O destino é pilhéria.
Faz de mim o outro de mim mesmo.
A rotina se reproduz.
Necessidades básicas.
Desprendimento.
O trabalho enobrece.
Alimento.
A tarde não vem. É tarde.
O espelho do elevador me leva e traz.
Venho. Vou. Volto. Velho.
Um ser analógico cercado de pixels por todos os quadros.
Um caderno de telefones desmonta na mesa.
A capa amarela.
A luz amarela.
A dentadura amarela.
A vida amarela.
A cortina amarela.
A janela.
A vista da janela é o próximo passado.


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