quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O meu drama


O meu drama anda de ônibus
e nem tão drama assim é,
pois se fosse não seria.
O meu drama come bife à milanesa 
e se farta de banana coberta 
com canela e açúcar de sobremesa.
O meu drama quase comédia
casou-se com uma trama bem urdida,
ardida feito pimenta malagueta.
O meu drama tem noites vazias,
irreparáveis insônias 
e ainda toma café ao deitar.
O meu drama tem caráter
mesmo sem saber a medida certa
e certamente é dramático.
O meu drama tem intolerância à lactose,
é principiante em diabetes
e odeia mentiras.
O meu drama brinca com fogo
se queima em ciúmes
e passa unguento de butresin para curar.
O meu drama é um tanto profissional,
exige cenários estruturantes
e sólidos praticáveis.
O meu drama, feito moeda,
tem duas faces,
cara e coroa.
O meu drama guloso
tem medo de fome e de hipocrisia,
que com fome ainda é mais.
O meu drama incauto
tem sede de justiça 
e se farta de expectativas.
O meu drama apertado
igual sapato novo
forma calos no caráter.
O meu drama é folgado,
espaçoso, tem orgulho de autor
e argumentos de crítico.
O meu drama desmedido
é rimado parnasiano
e independe de realismo.
O meu drama pavimenta
a tragédia risível
da mediocridade espelhada.
O meu drama condena
e liberta, encena e
se alastra incendiário.
O meu drama ultrapassa o calendário
e todos os dias
e todas as horas.
O meu drama me abraça
e eu abraço o meu drama
antes do pano cair.
O meu drama é a última manifestação poética 
na insistência fanática 
e tanto gélida de morrer.


Nenhum comentário: