terça-feira, 28 de abril de 2015

Quem somos nós


quem somos nós
que persistimos nos velhos erros?
quem somos nós,
náufragos dos mesmos mares?
quem somos nós,
personas de poucos papéis?
quem somos nós
que insistimos na teoria?
quem somos nós
que proclamamos independência?
quem somos nós,
sujeitos, predicados, complementos?
quem somos nós
que apagamos as luzes e os faróis?
quem somos nós
que quebramos os mesmos vidros?
quem somos nós,
metades de nós mesmos?
quem somos nós,
réus das nossas prisões?
quem somos nós
que assistimos pela janela?
quem somos nós,
mentiras mal contadas?
quem somos nós,
verdades descontadas em promissórias?
quem somos nós,
que deitamos eternamente em nosso berço
e esperamos a vida passar...?

Na veia


nas veias correm palavras
nas veias correm poesias
nas veias correm histórias
nas veias corre a memória
nas veias correm poeiras e hemácias
universos vão pelas veias
pequenos globos planetas
nas veias correm, nas veias vivem
nas veias somam sementes
de sonhos
de semelhanças
e de sagas sem fim
daí vem os pulsos
e o sangue que corre nas veias
pulsar feito um tiro certeiro
na veia


nem assim


das esquinas da vida 
às quebradas do mundaréu
naveguei vias tortas
e retas infindas
me perdi e encontrei mil vezes
desencontrei outras mil idas e voltas
vindas sem direção nem sentido
e nem assim arreguei
e nem assim desisti
e nem assim pulei do carro em movimento
nem assim

sexta-feira, 24 de abril de 2015

8.925.507



A minha identidade está vencida.
O meu RG não é espaço.
Nem espacial, nem satélite.
A minha identidade adormecida.
Cores pálidas e sem brilho.
Nem glacial, nem trópica.
A minha identidade amarelecida.
Sou eu na imagem? Sou eu na vida?
Nem na frente, nem no verso...


Angélica de mussarela




A melhor pizza do mundo é a do Brasil.
A melhor pizza do Brasil é de São Paulo.
A melhor pizza de São Paulo é da Moóca.
A melhor pizza da Moóca é do Ângelo.
Logo, a pizza do Ângelo é a melhor pizza do mundo.
Angélica que é pizza de verdade.
Lua de mussarela, lua cheia de mussarela.


Brasis



Krenaks
Terenas
Utikuns
Kaingangues
Tupis
Guaranis
Quem pensou que era um Brasil,
eram Brasis.






Quem nasce na Capadócia



Capadócia
Terra dos belos cavalos
Capadócio Jorge
Bravo guerreiro que de tanto
lustro é feito santo
pois quem nasce na Capadócia
é forte.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Minha pátria


minha pátria tão triste
da minha pátria
minha pátria tão longe
da minha pátria
minha pátria tão pouco
da minha pátria
minha pátria tão verde
da minha pátria
minha pátria tão amarela
do sol que não nasce na minha pátria...


Bombons


para cada poema escrito
nas noites de desvario
eu mesmo me premio
com um novo bombom
e assim, somando calorias
e aproximando a morte
-- a gelosia da porta avisa,
o diabete e os diabretes
chegaram -- 
docemente transformo as palavras
em gorduranaturalhidrogenada
sem nem bem saber o que é isso.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Tanto faz


eu não sei se o que deixo são pistas
vestígios pegadas indícios impressões
ou exemplos -- bons, maus,
tanto faz...
eu não sei se o que fica de mim são heranças
livros canetas cadernos relógios
ou bens -- móveis, imóveis,
tanto faz...
eu não sei se tudo o que de mim resta são lembranças
palavras rascunhos ensaios poesias poemas
ou contos -- rápidos ou longos,
tanto faz...

tão pouco sei, tão pouco,
que das ilusões deixo pencas
que dos amores deixo frestas
e das verdades deixo dúvidas
e, ainda assim,
tanto faz...
como tanto fez,
como tanto fiz.

Matinal


A manhã é densa.
Café, notícias, expectativa.
Da noite, um descanso
que não descansa.
Da madrugada fria,
a lâmina é faca
e seu corte abre fio da manhã.
Cicatriz matinal.
A manhã é intensa.

domingo, 12 de abril de 2015

Perfeita



Nem bem se sabe
onde acaba a mulher
e onde começa a tatuagem
pois a tua imagem
de tão bem feita
rasga a pele e cola a alma
como mulher perfeita

Tua boca



Tua boca tem carne mordida.
Mordida tem tua boca.
Não passa no confessionário.
Nem deixa dúvida dos pecados.
Tua boca morde e grita
com a mesma competência
que faz juras de amor...


À sua disposição


Eu continuo aqui.
Disponível para você.
Disponível para ser.
O que é ou o que não seria.
Eu continuo aqui.
Na sua ausência.
Na saudade.
Na solidão.
Disponível para você.
Disponível para ser seu.

Meus suores


A noite me gasta.
A noite me gosta.
A noite me gesta.
Os meus suores estocam o prazer.
Os meus suores esgotam as possibilidades.

Pequenos prazeres



A surpresa é um prazer tão próximo.
Surpreende aos incautos.
Surpreende aos ingratos.
Surpreende aos incrédulos.
Surpreende aos indecisos.
O melhor da surpresa mora em você.
Faz de mim o incauto que se aproxima.
Faz de mim o ingrato que nem imagina.
Faz de mim o incrédulo que se converte.
Faz de mim o indeciso que se resolve.
A surpresa é o pequeno prazer que me comove.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Do dia



Quando a fome batia 
e a inspiração chegava
era a poesia
o prato do dia.

Quando a sede apertava
e a cerveja se ia
era a poesia
a cachaça do dia.

Quando o tom era outro
e a mudez se entendia
era a poesia
a cantiga do dia.

Quando o jornal despertava
e o censor dormia
era a poesia
a nota do dia.

Quando a fé cega estava
e amolada a faca afia
era a poesia
a arma do dia.

Quando o gato distraía
e o rato roía
era a poesia
ratoeira do dia. 

Quando a corneta mandava
e a tropa corria
era a poesia
a ordem do dia.

Quando o sol descansava
e a lua surgia
era a poesia
a poesia do dia...






Anatomia do silêncio



O silêncio anatômico
e a anatomia do silêncio.
Viver é um esporte radical.
Tua voz fraca nem se escuta.
Teus silêncios não se propagam no vácuo.
Tua sinfonia não se executa.
Se no silêncio teus ouvidos ardem
é que o vazio anatômico 
não passa de um companheiro de jornada.
Um fantasma ao ar livre.


Outros


Outros motivos são dispensáveis.
Outros remorsos também.
Outros alívios são previsíveis.
Outros, não.
Outros poentes são esperados.
Outros dias, muito mais.
Outros instintos são proféticos.
Uns tantos são animais...


O mergulho



Tem histórias que transcendem as histórias.
Feitiços do tempo. Lendas do sempre.
O ar que não se respira.
A água que embriaga.
O tambor do revólver.
Roleta calibre 38.
A vida em probabilidades.
O fogo da imperfeição.
A perfeita fogueira.
O quadro-negro da sorte.
A imensidão do mergulho.
O mergulho na história.

Do traço



A arte arde pontiaguda.
Feito fino grafite.
Diamante em essência.
Desenho de olhares.
Visão de amores.
Traço de amantes.


Das bóias



Entre um e outro azuis
Espumante
Flutuante
Excitante
Bóias
De todas as cores.
Dos mares.
Dos lagos. 
Das fontes.
Dos córregos.
Da salvação.
Espumantes bóias.


sexta-feira, 3 de abril de 2015

A via crucis


A treva contra a luz
A paixão das paixões
O atalho da cruz

Da celebração de ser



A ditadura analógica ensinou o medo.
A didática do medo descriou a verdade.
A verdade demolida inventou falsos ídolos.
A invenção da mentira invadiu as cercas.
A cerceação de tudo estabeleceu a censura.
A condescendência da censura falsificou a cena.
A cena abortada deu espaço ao teatro vazio.
A plateia acéfala ausente aterrorizada ria de tudo.
A risada era o eco do nada e o grito do mudo.
A mudez estabeleceu o vácuo da palavra.
A palavra reinventou-se virtual e música.
A música virou hino, o hino virou verdade.
A verdade é barulhenta. Só não ouve quem não quer.
Quem não quer, não é.


Turbilhão


De onde vem o turbilhão
que invade o sono
extravasa as barragens
devasta o próprio pesadelo?
De onde vem a força
que busca no amor
ou em algo parecido
a compensação das nossas penas?
De onde vem as escolhas
os motivos, as razões,
as opções e alternativas
das noites perdidas?
Foices das nossas mortes,
grelhas dos desesperos,
vazantes de tantos descuidos,
quais os aços que conterão os delírios
para nos libertar dos faróis apagados?


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Inoxidável


Quero perder a noção do tempo
Quero deixar a mágoa desafogar
Quero olhar para a frente com gosto
Quero viver a felicidade do dia
Quero sorver o leite mais puro
Quero o ouro do sol que vinga
Quero a simplicidade do sorrir
Quero o repouso da justiça feita
Quero ser o homem que eu quero ser
Inoxidável, pela forja do meu próprio Deus

Piolin



Cara de palhaço
Boca de palhaço
Pinta de palhaço
Olhos de ternura
Para uma infância inteira


Esta é a postagem número 1000 -  poesias, algumas crônicas, fotografias, uma ou outra reclamação ou desabafo. Miltextos de mim para vocês.

Se alguém souber a quem creditar esta imagem, peço o favor de avisar.