terça-feira, 30 de junho de 2015

Dorida crônica para a prima que vai



As lutas são pessoais e intransferíveis.

Assim como dúvidas, certezas, sensações, emoções.

Assim como a própria vida.

A vida é luta. Pessoal e intransferível. 
A história e a memória podem ser compartilhadas; compartilhar a história e a memória é contar um pouco daquilo que se viveu e deixar a interpretação para aquele que lê.

Na minha história, ontem foi marcado pela ida da minha prima Sheila. Na minha memória, minha prima mais velha ganhava, todo Natal, do vovô e da vovó, grandpapa e grandmama, um estojo com lápis coloridos e equipamentos de desenho – que os mais novos invejavam, ainda que senhores de todos os regalos, de todos os brinquedos.

Aquele estojo de couro, aquele estojo anual, aquele estojo de Natal e seus lápis traçaram a arquiteta – ou architeta, como Sheila brincava, anos depois, já formada, grandpapa e grandmama idos.

A Sheila arquiteta com seus lápis traçou caminhos por São Paulo, Curitiba, até voltar a Niterói. Niterói um pouco de Niemeyer arquiteto também. A cada porto sua história. A cada história seus frutos.

Então a Sheila filha, então a Sheila irmã, então a Sheila prima, então a Sheila amiga, então a Sheila mãe, então a Sheila ideias, então a Sheila sonhos, então a Sheila empresária, então a Sheila vovó, grandmama, então a Sheila amor, então a Sheila luta.

Então a Sheila vai para onde os lápis desenham nuvens de verdade e de onde se arquitetam os destinos invisíveis de todos nós. Onde os estojos guardam preciosidades que apenas a memória e a história conhecem. Onde as janelas dão para o eterno e as esquadrias suportam a luta. Onde a verdade é e a saudade espera.

Há que se olhar para o alto e entender que palavras nem sempre são suficientes para definir vida.

Sheila é arquiteta de luta que a vitória eterniza numa construção de sonho. Sheila é história de amor que a memória guarda num estojo chamado vida.

O amor é compartilhado. As lutas são pessoais e intransferíveis.

Da miragem



Terra seca de homens.
Camadas ocas.
Ao olho, horizonte até onde.
À verdade, deserto.
Nem errado. Nem certo.
Até onde...


Cordilheira



Quantas vezes. Tantas sombras.
Projeções vivas no cimento armado.
Cordilheira de corpos.
Procissão amorfa.
Enfileiramento de visões.
Cegueira provisória.
Sem ação.
Sem razão.
Sombra sobre sombra.
Blecaute.

O escuro destila pesadelos.


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Do sono



O mundo é irregular.
Louco como a louca.
Estou lúcido.
Com fantasmas ao meu redor.
Quero escrever.
Não consigo.
Penso poesia que abone a insanidade.
Ela – a poesia – se esvai.
Fantasmagórica.
Quem sabe amena.
Estou só com meu passado.
E com um presente opaco.
Sono.
Onde era sonho.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A feia



A feia é bela.
Tem traços humanos que poucos humanos reúnem.
Traz marcas da verdade e cicatrizes do real.
Vive advérbios de modo. Plenamente. Levemente. 
Descompromissadamente. Avidamente.
Veste mantos de ternura e transparências.
Despe-se no claro.
Ri o riso desbragado. Franco. Exagerado. Ácido.
Não chora em público.
Não usa black-tie nem meia de seda.
Não toma espumante nem se ilude com borbulhas.
Não dá vexame, não fala alto nem esperneia.
Não há nenhuma mulher mais bonita que a feia.
 

terça-feira, 23 de junho de 2015

Hai-kai debutante



Verdadeiro debutante
Meu livro
Dorme na estante



segunda-feira, 22 de junho de 2015

Do acolhimento




na casa do prazer
acolhido
como ser
abrigado
no calor
escolhido
aconchego
chego quieto
calmo e
ledo,
cedo
aos encantos
mortais
enquanto o medo
dos abissais
tece a mortalha
que vestirei
sorrindo e morto
no fim
da batalha.




domingo, 21 de junho de 2015

Entre o mar e o deserto



do mar

o sal
o sol - ou, ao menos, sua lembrança
a água
as ondas, incontáveis
a solidão depois da praia
além da praia a solidão
náufraga
náufrago
a missão de salvar-se
a tarefa de flutuar

ilha
após
ilha

uma forma de vida
ou morte?




do deserto


areia
e sol
a solidão da caravana
a caravana da solidão
silêncio
eterno
busca
oásis
miragem
olhos negros
calor
imagens do sol
deserto

oásis
miragem

quantas vidas precisarei
para te percorrer,
vida ou morte?

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Um verso a procura de um poema



A história se repete
magicamente.

Sou um verso escondido
iluminado pelo luar.

Delatado, aberto, frágil,
verso tímido e nostálgico.

Um verso que escuta do passado
os mesmos sons do presente.

Um verso que procura um poema
e um poeta e um caminho.

Salamandra, lagartixa,
morcego, lobisomem.

Nem o luar afasta os temores
deste verso medroso.

O poeta parece distante,
o poema apático.

Qualquer sinal de empatia
seria, ao menos, um bom sinal.

Espreita, em frestas,
a festa da luz.

Enquadra o céu nas paredes
imaginárias da cela real.

A liberdade vive o tempo gasto
pela lua, para desaparecer na sombra.

Os olhos, a mente míope,
sequer imaginam o tempo livre.

Apenas um sonho,
e entro pela história pela porta da frente.

Apenas uma fresta,
e a história se repete magicamente.

Como se bastasse, ao poema,
um poeta imaginário.

Como se bastasse, ao poeta,
um verso imaginário.

Apenas uma fresta
e a festa de luz brilha livre.

Apenas a liberdade,
apenas a liberdade e o sonho.

Apenas liberdade.
Apenas sonho.

Flutuar



Flutuar.
Aventura de ser, entre os azuis do oceano e do firmamento.
Flutuar.
A nuvem branca brinca com a espuma das ondas.
Flutuar.
A descoberta, a surpresa. Surpresas, descobertas.
Flutuar.
O movimento involuntário entre a partida e o destino.
Flutuar.
Na precisão do imprevisto, balbuciar:
“Navegar é preciso”.
Flutuar.

zoom


de um lado da lente
o olho mágico
latente, viajante,
a me trazer pela retina
a me trazer inteiro
a me trazer pelo roteiro
inexato da história sem fadas,
pelos caminhos escuros
da tua câmara de sonhos.

noite infinita,
astros, estrelas, pontos celestes
e brancos e azuis e vermelhos,
argonautas, noturnos e maravilhosos,
infinitos, rútilos, idílicos,
proparoxítonos e, às vezes, poéticos
quixotes na ausência da gravidade,
flutuando na direção do teu olho guloso,
cíclope, artista.

teu zoom é paixão.


quarta-feira, 17 de junho de 2015

Crônica rápida para um amigo do lado esquerdo do peito



Dunga espera mais do Brasil do que contra o Peru.
Ouvi isto depois que cheguei em casa.
Este país é uma abstração.
Por isso vou de trás pra frente.
O meu cabrito, faz coisa diferente. 
Ele anda de trás pra frente.
Pra frente Brasil.
Antes de abrir a porta o chaveiro caiu no chão no elevador.
Antes de as chaves caírem eu bati no peito e disse convicto: "tem que ser macho pra tudo isso".
Não necessariamente. E ainda penso assim.
Antes do elevador, a garagem, as vias, a manobra.
Antes de entrar no carro o som digital estéreo e surround me dizia
"Amigo é coisa pra se guardar, debaixo de sete chaves".
Fernando Brandt morreu faz três dias.
Estamos em Brasília. Na Asa Norte. No Beirute.
Urbi et orbi.
Na despedida do garçom personagem companheiro amigo Cícero.
Quantas noites ele juntou mesas para nossos risos e prosas.
Quantas idas e vindas.
Quanta vida.
A pergunta que não cala: "Você está bem? Você está feliz?"
Cícero concorda. Cícero assente. Ciceramente.
Cícero de smoking branco de bordas rubras.
A vida é um tanto assim. 
Branca de rubras bordas.
Não prosperam muitas palavras além destas.
Cícero está feliz.
Eu estou feliz.
Por sintonia o mundo está feliz.
Nossa felicidade muitas vezes é contada de trás pra frente.
Atrás vem gente.
Sincera e ciceramente.


segunda-feira, 15 de junho de 2015

hai-kai p&b



é preto&branco o silêncio das gavetas 
cinzas esparsas
jogadas no oceano de borboletas

Crochê


Palavra fio.
Mulher agulha.
Vem vai vem vai vem.
Vai vai vem, vem vai vai.
Torce.
Enrosca.
Volta.
Desenrola.
Envolve.
Gira.
Vem vai vem vai vem.
Vai vem vem, vem vai vai.
Cisca.
Roda.
Troca.
Vai. 
Vem.
Mulher palavra.
Agulha fio.
Vai vai vai.
Teia.


A cor da asa da borboleta


A cor da asa da borboleta

Não há cor mais cor
Não há mel mais mel

A abelha adoçou
Mas foi a borboleta,
Com sua asa cor de mel,
Que desenhou num voo.
Um risco doce no céu.





A tua palavra





A tua palavra traduz o que a minha cala.

Desafio o universo.

Sem verso nem poesia.

Por pura teimosia

Mentiras: o que escrevo vira minha própria história.

Sou cacos, parágrafos, símbolos, sou cartas espalhadas pela mesa.

Nenhum presságio.

Sem ágio, a bola de cristal embaça como a vidraça dos meus óculos.

Nenhum vestígio.

Nem me vejo, nem te vejo.

A tua palavra traduz o que a minha cala.

Fala.

Tua fala é teu teatro.

Meu palco é tua ribalta.

A falta que faz a falta que faz a falta.

No espaço vítreo da tua ausência presente meu corpo te sente.

Meu desejo estala.

Minha mão te resvala.

Meu delírio te escala.

Insistente, a tua palavra traduz o que a minha cala.

A poesia (Deus sabe)



a poesia
não tem hora
não tem dia
não tem fim
não tem rima
nem termina
não tem culpa
nem desculpa
não agita 
não cogita
nem palpita

a poesia 
é certeza
é beleza
é pureza

a poesia
é a arte
de desmedir palavras
como a perder o medo
do falar

a poesia
é força
e farsa

a poesia
é incerta
e exata

a poesia
libertária
é a liberdde
até a última lera

a poesia
é a marca registrada
da ousadia oral

a poesia
sem hora
nem dia
é agora
o para sempre
da criação

a poesia, 
Deus sabe, 
a poesia...  

A paisagem das tuas curvas



A paisagem das tuas curvas
aluga meus olhos e alarga meus sonhos.

As retinas brincam, viajantes
em um espaço prazeroso.

Formas arredondadas
polissilábicas
a pedir advérbios de modo
convidativamente
aconchegantemente
deliciosamente
arredondadamente.

Ah, o prazer da transgressão.

A quente volúpia
transbordante
que aos meus olhos encanta,
à minha boca saliva.

E, solene, proclamo:
as tuas curvas são de primeira.

Como? Me odeia?


É tão difícil ser poeta...


Da magia do hai-kai




A magia do hai-kai:


Em três versos,

Vai, não vai, vai.


Da emoção


A emoção é uma gota amassada 
entre a lente de contato e a íris dos olhos.
Para uns, lágrima furtiva.
Para outros, soro fisiológico.
Para poucos, o brilho que toma a frente da alma.



A alma do tempo




O tempo tem alma

e por mais que eu me engane

e por mas que eu resista

e por mais que eu, a mim mesmo, minta

apenas repito:

o tempo tem alma.



Acredito.




sábado, 13 de junho de 2015

Belém-Brasília



Nascer com a aurora em Belém
Mirar Brasília ao poente
Ponte da poesia que vem
Porto de batismo ardente




sexta-feira, 12 de junho de 2015

Permuta




Então o leite da noite alimenta
sonhos desejos descansos e poemas.
Então o vinho matinal embriaga
escolhas deveres desenhos e letras de câmbio.
Troca-se um relógio biológico
por uma ampulheta -- ainda que quebrada.


Dos cisnes



Lânguidos e aos pares.
Negros e brancos.
Desenham-se deuses nos lagos
cheios por lágrimas alheias.
Os cisnes desfilam indiferenças
enquanto os homens os invejam.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Poema longe



Longe é vago.
Longe é triste.
Longe é rio.
Longe é seco.
Na imprecisão dos nossos amores,
longe é tudo.
Não há caminho que alcance,
nem erro que absolva.
Quantas noites, tantas vias.
Longe é escuro e frio e áspero.
Densidades ósseas, longe.
Gavetas e cabideiros, longe.
A tela da janela fechada, longe.
Manhãs de sábado e manhas dominicais: longe.
Longe inflexível.
Longe sólido.
Líquido e gasoso, longe.
Longe dos olhos.
Longe no horizonte.
Na linha do tempo, longe.
Longe nas palavras e e nos ecos.
Ecos de longe, longe, longe.
Refrões, longe.
Barba malfeita, longe.
Mãos, unhas, cabelos: longe.
Longe, o vestíbulo e o vestibular da não vida.
Longe, o último dos dias e o depois.
Longe, a certeza do vazio.
Longe longe.


Da gravidez



Minh'alma assim.
De apóstrofe e prenha.
Grávida de um poema inseguro.
Preparada para parir um universo --
ou apenas um grão.
Entranhas em desalinho, 
cabelos de medusa,
olhos cegos pelo interior do vasto.
Grávida de um poema
sem pai nem mãe.
Grávida de um poema,
bastardo poema.
Feto multiplicado ampliado em células e dimensões.
De romper aurora, de dormir poente.
Efêmero e louco cometa de um céu de dores.
E assim, e ainda assim.
Minh'alma grávida de um poema
orgulha-se do avesso.


Das cinco fases da lua


Lua  cheia.
Quarto minguante.
Quarto crescente.
Lua nova.
Você, de lua.


Cantiga para as meninas



Cantam meninas no palco na praça
Cantam cirandas, cantam com graça
Cantam tais notas, tantas que notas
As tais meninas que cantam com raça

Cantam meninas no circo nas ruas
Cantam suas rotas, tantas que nuas
Cantam com força, cantam tão puras
As tais meninas que cantam a lua

Cantam meninas no coro na lida
Cantam suas poses, tantas que lindas
Cantam com sonho, cantam tão alto
As tais meninas que cantam a vida



17


Onde ficaram as noites sem fim?
Onde ficaram as ousadias e a timidez?
Onde ficaram os guardanapos rascunhados?
Onde ficaram o eterno e o efêmero?
Onde ficaram as gotas que a terra sorveu?
Onde ficaram as palavras e o louvor?
Onde ficaram os nossos mais sinceros votos de amor, até que a morte nos separe?



Cinquenta tons de homens



A rua é úmida e cinza.
A casa cinza.
A porta é guardada por uma grade cinza.
Pela janela uma visão cinza.
Entre as cortinas um homem cinza.



segunda-feira, 8 de junho de 2015

Do perdão imperdoável



Tatuagens e grafites.
Meu coração foi desenhado. Por dentro.
Coronárias e um quarto a meia luz.
Aquarela em tons pastéis.
No quadro mágico dançam fotografias.
Magnéticas. Coloridas.
Aos pares.
Pedaços do tempo.
Rascunhos de poemas.
Retalhos guardados na sala cofre.
Nunca é tão amanhã.  Sempre foi ontem.
Talvez na novela.
A promessa?
Nem lembrança.
O perdão?

Continua no próximo capítulo.