sexta-feira, 31 de julho de 2015

Outro julho



Julho frio
Julho falta
Julho flore
Julho mata
Julho fora
Que não seja agosto,
desgosto.


segunda-feira, 27 de julho de 2015

Brincar




apenas fecho os olhos e sonho:
a cegueira súbita leva-me além
percorro um espaço incontável
toco os corpos celestes com meu corpo etéreo
faço sexo com o infinito
sugo em explosão e explosivamente sou sugado
vertido boom
transformo o caos
me assusto
me perco
grito!
acendo a luz
e nunca, nunca mais
brinco de deus


A visita da poesia


visitas-me noturna
inesperada, às vezes inconveniente
nada frequente

visitas-me pálida
iluminada pelo luar provocante
da lua crescente

visitas-me alegre
atarantada, malemolente
e até mesmo sensual

visitas-me lúdica
camuflada em si mesma
inconsequente

visitas-me eterna
alucinada possivelmente
eternamente


último ato



cenário
mentiras de madeira
e, por trás dele,
toda a verdade da ilusão




sábado, 25 de julho de 2015

A Árvore do Era uma Vez: Mico Pai e Mico Filho





ERA UMA VEZ UM MICO. Pra dizer a verdade, era uma vez dois micos!

Isso mesmo! Os micos são macacos pequenos e serelepes. Passam os dias subindo e descendo da Árvore do fundo do quintal, que é onde os nossos micos moravam.

Um deles, o mais velho, era o Mico Pai. E o menorzinho... o seu filho Mico Filho.

Mico Pai e Mico Filho são muito amigos. Companheiros. Gostam tanto um do outro, que seria difícil contar a história de um deles sem falar do outro.

Eles gostavam muito de brincar de Fico-Não-Fico. Uma brincadeira que inventaram para passar o tempo: o Mico Pai esperava o Mico Filho parar um instante, em cima de um galho, e ordenava:

_ Parado esta, parado fica!

E o Mico Filho respondia:

_ Não fico! – e saia pulando para outro galho, o Mico Pai atrás, até alcançar o filhote...

E assim eles eram felizes.

Um dia, entretanto, Mico Pai voltou da colheita de frutas um tanto preocupado. Olhou para o Mico Filho e ordenou:

_Parado está, parado fica! E eu estou falando sério. Não quero ver você pulando de galho em galho. Quero você quietinho e comportado, aqui, dentro de casa.


O Mico Filho não entendeu muito, mas arriscou dizer "não fico".

Ah... pra que! 0 Mico Pai apanhou o filho e deu-lhe doloridas palmadas no bumbum.

Com um pouco de raiva e dor, o Mico Filho resolveu fugir de casa.

Esperou anoitecer, arrumou uma trouxinha e lá foi ele, pela floresta, sem saber ao certo que caminho seguir. 

Foi quando ouviu uns sussurros e percebeu que a coruja conversava com um gato-do-mato. Os bichos que ficam acordados pela noite gostam muito de conversar para passar o tempo! E não é que eles estavam falando dele, do Mico Filho?

A coruja dizia que o Mico Pai ia ser obrigado a colocar o Mico Filho num internato, caso não conseguisse ensinar ao filhote as leis da selva. Isso porque o conselho dos animais achava que o Mico Filho andava muito malcriado.

Ou o pai o ensinava, ou... escola interna.

Então era isso! 0 Mico Filho entendeu porque o Mico Pai o tratara daquela maneira: ele não queria ver o filho longe dele. Afinal, eles eram tão amigos e companheiros...

Por isso, o Mico Filho voltou imediatamente para a toca, onde encontrou o Mico Pai preocupado com seu sumiço. Colocou a trouxinha no chão, correu, abrigou o pai e, com carinho, falou:

_ Fico!

E então se abraçaram e assim ficaram, Mico Pai e Mico Filho, juntos e felizes. Amigões.




(Entre 1985 e 1990, a Rádio USP FM transmitiu o programa Quintal Encantado, iniciativa inédita dirigida ao público infantil. Seus produtores mais teimosos eram José Damião, Marcelo Caldeira Baptista, Sandra Branco, e Jorge Stark, Entre os quadros fixos do programa havia poesias, rádio-novelas, esquetes e as fábulas da Árvore do Era uma Vez -- criada e escrita por mim e narrada principalmente por Virgínia de Moraes e, eventualmente, por Moisés da Rocha e William Bonner, entre outros. Mico Pai e Mico Filho é uma dessas fábulas.)






Haikai



o vidro embaça
a vela vive
a vida passa



#haikai


25 de julho, Dia do Escritor

Hemingway


imagem secreta:
perdeu-se o poema
ou perdeu-se o poeta?


#haikai


Denúncia vazia



Haikai


ordem de despejo:
um abraço 
e um beijo.



quinta-feira, 23 de julho de 2015

Condomínio


fui poema
fui pedido
fui ponto final
fui poeta
fui perdido
fui pecado original
fui poesia
fui perigo
fui pego, afinal
hoje moro numa gaiola
de três quartos, duas salas,
uma cozinha
e nenhum quintal.




Rainha



Abelha, teu vôo é vasto.
Passeio pela selva gigante que aos homens é mato.
Teu zunido é música.
Grito que aos homens é psiu.
Tua vida é imensa.
Tempo que aos homens é instante.
Abelha, os homens sequer te imaginam.
Rainha, tua vida é mel.




Hipnótica




hipnotizar
pelo olhar

estalar
os dedos

acordar
os medos

pelo olhar
hipnotizar

hipnotizar
com os olhos

estalar
os dedos

afastar
os medos

viver.





Sétimo dia




literalmente
eu sento na sarjeta

em mim a tua mente
literária

e mentalmente
enrosco palavras

enquanto o coração sente
... literalmente.



Passatempo




eu apenas imagino
que o sol a pino
é desculpa
para o meu lacrimejar

vem a tarde e o poente
que invade a pupila,
só confirma:
não vi o dia passar.



Haikai na Paulicéia



Sorriso e morte:
não foi azar,
foi sorte.



Haikai




El-Rey armou o bote!
Nosso povo,
Quixote.





terça-feira, 21 de julho de 2015

Relógio de pulso



O meu relógio não serve para você.
O meu tempo é qualquer.
Sou um pirata das horas.
Um ladrão de minutos e segundos.
Valiosos tesouros escondidos no fundo do meu oceano.
O armazém da existência.
Reservo perigosos sonhos na algibeira.
Para as horas de risco.
Risco fósforos para acender a gasolina.
Minutos incendiários.
Alimento a memória com perigos existenciais.
Segundos tentadores.
E viro a ampulheta pelo simples prazer de ver o tempo cair.
O meu relógio não serve para você.
Nem você, para mim.




Dois haikais paulistanos


1
tão bonitas
na Paulista
as paulistas


2
tão bairristas
na Paulista
os paulistas


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Passei a noite comigo



Passei a noite comigo.
Rolei na cama.
Mil posições.
De bruços. 
Decúbito dorsal 
(bonito pra cacete, mas, afinal...)
Passei a noite comigo.
Tentei ouvir o coração.
Ouvi rumores acerca do umbigo.
Tossi. Funguei. 
Peidei feito motocicleta sob o lençol colorido.
Passei a noite comigo.
Em dado momento,
uma esperança e uma ereção vieram de mãos dadas.
Tudo acabou numa longa mijada,
quase quase ao raiar do dia.
Passei a noite em boa companhia.
Passei a noite comigo.

A ladeira da memória




Perco-me na tentação da história.
Vasculho reminiscências.
Rasgo envelopes lacrados pelo tempo
em busca do que conheço.
Ou conheci. 
Uma sensação de déjà vu.
Arranho a pele na esperança de sangrar
momentos.
Impiedosamente.
Sugo venenos expressos.
A abolição do presente.
Sem ele não há futuro.
Sem rótulos quebro perfumes.
Um cheiro de naftalina no ar.
Foram-se os dedos os anéis e os dias
de glória.
Desci a ladeira da memória.


domingo, 12 de julho de 2015

Lago



O poema é um lago.
Nele mergulho sem a exata noção de onde está o chão.
A ele me entrego até ser por ele envolvido.
Circundam o poema alguma natureza
e uns poucos homens de boa natureza.
Nem por isso deixo de lhe dar palavras.
As minhas que sequer minhas palavras são.
O poema é um lago extenso que não mostra a outra margem.
Pode ser o mar.
Pode ser o rio.
Pode ser o próprio lago.
Pode ser poema.