quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Haikai



Quando os grandes se encontram
Palavras ocas
Vestem-se de palavras loucas


domingo, 27 de setembro de 2015

Sem limites



O aprendizado é inequívoco.
A história ensina.
O firmamento observa.
A escuridão silencia.
Não há limites para a insignificância.
O homem engole o homem.
O desvio de caráter.
O poder pelo poder.
Abjetos argumentos.
Falácias dermatológicas.
O arrepio do medo.
A fria imagem da mentira.
O escultor inculto molda deuses de lata.
A arte de representar apresenta a farsa.
Enganaram-te turba.
Fizeram de ti objeto.
Calaram-te entre hinos.
Moeram tua vida.
Regatearam-te a honra.
Castraram-te a justiça.
Dissecaram-te a atitude.
Sem limites.
Pensam.
Sem limites.

sábado, 26 de setembro de 2015

Em caso de incêndio quebre as regras



Em caso de incêndio quebre as regras.
Em caso de amor também.
Posto que amar é queimar desregradamente.
É correr riscos e ainda sorrir.
É deixar-se levar pela combustão instantânea.
Exagerar nos adjetivos, advérbios, carregar nas tintas.
Fazer-se um entre todos e nem por isso.
Deixar a gramática e a estética em paz.
Passar da hora, abrir mão, conceder.
E nesse vem e vai de tortas ruas,
trilhas ferventes nada retilíneas 
e retas sem fim de estradas nuas,
intensa e suavemente percorrer.
Que a nudez e o fogo são essências.
E que a letra traz o alerta do querer.
Em caso de incêndio quebre  regras.


A última gota.



Um pedaço de audácia e um nada a declarar.
Como são frágeis os espelhos.
O tempo da ficção não passa.
É como se a vida fosse uma tatuagem.
Indelével.
É quando o elevador jamais chega.
Eternidade.
É portanto fazer rimas para cantar dimensões.
Desafino.
É onde o amor é provisório e risível.
A última gota.


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Pergunte a ela



A primavera chegou.
Andorinhas voam sobre mim.
Há formigas sobre a pia.
O dia parece infindável.
Florido.
E as mangueiras estão carregadas.
O calor é humano.
O sol e a lua se enfrentam ao entardecer.
Quer saber por onde ando?
Pergunte a ela.



Éramos assim, assim somos



Éramos verdes e sangue vermelho.
Éramos seivas e plasma.
Éramos líquidos risonhos.
Suávamos suores medonhos
Éramos a bílis engarrafada,
mensagem jogada ao oceano de nós mesmos.
Éramos fundos e profundos.
Éramos mergulho e prancha.
Saliva dos beijos melados.
Éramos felátio e rios de fertilidade.
Escorridos pela Terra mãe, 
éramos vasos comunicantes,
lagos abissais, 
freáticos lençóis, 
criaturas dos sete mares.
Fomos assim, assim somos.
Liquefeitos sonhares.

A história da história



Quem me ensinou foi você.
Eram histórias e mais histórias.
Da cidade e do mundo.
Do meu próprio mundo.
Virei criança em suas mãos.
Um menino a escutar.
Acreditei, acreditava, acreditar 
era verbo sinônimo de amar.
Até o dia que entendi,
não havia verdade nas suas histórias.
Não chorei.
Não desaprendi.
Não sei nem bem o que fiz.
Cresci.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Risque e rabisque.



A memória se escreve
de rascunhos e de rabiscos
de riscos sem censura
de uma coragem instantânea
de corações estressados
e de surpresas provisórias.
De carvão, de grafite e diamante
se escreve a memória.





Sempre às quartas-feiras



Era a noite que ela não vinha.
Era a noite só.
Era a noite sem poesia.
Era a silenciosa noite.
Era só a noite de quarta-feira.
As outras não.
As outras eram iguais.
As noites de quarta-feira
eram as noites de nunca mais.


anotações aleatórias



Sempre às quartas-feiras.
Risque e rabisque.
A história da história.
Éramos assim, assim somos.
Pergunte a ela.
A última gota.
Em caso de incêndio quebre as regras.
Sem limites.
Quando os grandes se encontram.
A faca e o fio.
Por favor, a próxima.
Morte no feriado nacional.
Coragem, valentia, cautela, covardia.
O dia de ontem.
Quem?
Um haikai e outro soneto.
Às armas.
Era apenas uma lua.
Razões e desejos.
Apague a luz ao sair.


Antes da primavera chegar



Era inverno.
Havia um massacre no oriente.
Em São Paulo, chacinas.
No Rio, arrastões.
No rio Amazonas não há mais.
Um político mentia.
As instituições eram só versões.
Um doido foi à terapia.
Dois loucos inventaram um novo robô.
Três amigos faziam um longa-metragem.
Um calor contrariava a previsão.
Não havia heróis.
Alguns ipês floriram.
O asfalto, irregular.
Uma amante regular.
A sarjeta clama.
A tosse corta o verbo.
A febre volta.
O planeta revolta.
A terra treme, o vento destrói, o mar invade.
O fogo arde.
É tarde.
Tudo antes da primavera chegar.


terça-feira, 22 de setembro de 2015

Pequena tragédia urbana



A vida toma um ônibus
que é assaltado em pleno itinerário
-- não vai mais a Pasárgada,
nem a lugar algum --
vai até o distrito policial
onde o escrivão faz piada:
ônibus errado, dona vida,
ônibus errado.

domingo, 20 de setembro de 2015

Poeminha de domingo



Louvar a manhã.
Caminhar um pouco, tomar sol.
Comprar pão fresco.
Tomar café sentado à mesa.
Almoçar com tempo e com macarrão.
Picolé de chocolate de sobremesa.
Enxergar a lua no céu da tarde.
Falar do calor, comentar o futebol, 
reclamar do juiz.
Olhar as flores.
Dizer que a primavera está para chegar.
Deitar na rede, balançar feito domingo
e lembrar, lembrar, lembrar...


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Provisórios



No teu lugar não dilatava a pupila.
Deixava a janela aberta para o sol.
Corria riscos, pulava o muro, procurava o longe.
No teu lugar não dormia tanto.
Fazia da manhã um dia inteiro
e depois chamava de noite todas as horas.
No teu lugar não passava o texto a limpo.
Partia pela porta da frente.
Rasgava o mapa, seguia o instinto.
No teu lugar não iria a Paris.
Arrumava a mala e partia para qualquer lugar
onde morassem amores provisórios. 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Do ato final



Desvairar, desvirar, revirar, reviver.
Ação é desejar o próprio desejo.
Há dias que não te vejo.
E assim a noite abriga palavras.
No princípio era o verbo.
E no verbete do meu dicionário
falta a página que define distância.
E na gramática da minha lição
um poema desafia a concordância.
A farsa, a comédia, a ironia e o improviso
fazem teatro da tábua da salvação.
Encenações retóricas.
O palco, a ribalta, o aplauso em cena aberta.
No praticável do triste cenário, nem moinho, nem gigante.
São Jorge. 
Dragão, calango e cavaleiro andante.



segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Corações



Corações têm dois lados.
Cada lado tem duas câmaras.
Aurículos e ventrículos, esquerdos e direitos.
Os dois lados do meu coração sofrem.
Sofrem pelos direitos esquerdos.
Sofrem pelos esquerdos direitos.
Sofrem pelas câmaras superiores e pelas inferiores.
Os dois lados do meu coração choram.
Choram como choram as mães.
Choram como choram os filhos.
Choram em silêncio e ainda assim copiosamente.
Os dois lados do meu coração copioso choram silentes.
Corações têm dois lados.
O lado de dentro e o lado de fora.
O lado de dentro do meu coração ora.
Por mães, filhos e pela hora da nossa morte.


domingo, 13 de setembro de 2015

Paralaxe



Aparentemente uma estrela brilha.
O olho engana, a palavra mente.
Nem estrela é, aparentemente.


Pequenos delírios



É dia ou noite?
Tanto faz...
O Bem, o Mal?
Sentencia o poeta: "tudo igual".
A penumbra e a luz.
As duas.
Anjos ou demônios? 
Estava escrito.
No fundo ou no raso:
pequenos delírios, grandes delitos.


Freud-me



Explica minhas estranhezas.
Transforma as estreitas mágoas.
Comunga meus delírios.
Expande meus advérbios.
Brinca com meus dedos e me aponta.
Desponta minhas estrelas.
Faz de novo o novo.
Renova-me.
Defende-me.
Destina-me ao destino.
Toca meu sino.
Canta meu hino.
Transforma-me de mim em si.


sábado, 12 de setembro de 2015

Noturnos



A noite escolhe
A noite esconde
A noite espelha
A noite acode
A noite acolhe
A noite aonde
A noite encolhe
A noite espalha
A noite entorna
A noite entende
A noite esmera
A noite estrela
A noite abre
A noite dorme
A noite some.


Sinfonia


A música cortou minha alma
em finas finas finas fatias feitas
de notas e de claves
então se fez pauta plena de poesia
e levou-me à dança
fina fina fina fértil e fácil
sinfonia de falenas.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Haikai


...

Tantas perguntas no ar.
Por onde andaste? Por que vieste? Por quem procuras?
E apenas respondes: nada a declarar.


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Clandestinos



Clandestinos são amores embarcados
pelo acaso.
Clandestinos são humores vitais 
e plasmas tangíveis.
Clandestinas são profecias poéticas
em forma de pílulas.
Clandestinas são esperanças de plantão
no balcão da farmácia.
Clandestinos são suores sensuais
e um pouco mais.
Clandestinos são temores que o espelho
acentua.
Clandestinas são mentiras contadas
à atmosfera.
Clandestinas são verdades que sequer o ar
dilui.
Um bom exemplo, eu sou clandestino 
na tua clandestinidade.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Livre pensar ou nem



Você que invade sonhos alheios
Você que entra sem pedir licença
Você que nem se importa se é bonito ou feio
Você nem é o que você pensa
Se é que você pensa...




Haikai cinza

Pessoas cinzentas
As próprias cinzas
Que tu inventas


Irmãos do Brasil



Meu avô era de Buda.
Minha avó era de Pest.
Minha tia era húngara.
Meu pai nasceu no Brasil.
Minha bisavó era de Napoli.
Seus irmãos eram de Napoli.
Suas irmãs eram de Napoli.
Seu irmão caçula foi batizado Brasil.
Filhos do Brasil.
Irmãos do Brasil.
Da Síria, da Tunísia, do Haiti...


terça-feira, 8 de setembro de 2015

Do caminho escuro




Qual proscrito caminho por veias e artérias outras.
Avenidas não me suportam.
Alamedas não me escondem.
Reviso o trajeto como reparo ideias.
Atravesso a escuridão como se luzes houvesse.
Trevas me guardam, trevas me guiam.
As palavras mais claras são farois sem vida.
As palavras mais claras são sinais perdidos.
Fosse poeta, certamente não seria.
O que resta é parecer.


sábado, 5 de setembro de 2015

Da morte do sonho



Nem flores, nem festa.
As cores de luto.
Morreram sonhos.
O rumo sem rumo.
O passado que não volta
e o futuro que não vem.
Afogaram os ideais
entre patentes desbastadas
e mentiras deslavadas.
Enquanto isso, 
do outro lado do muro,
dois infantes brincam de guerra.
Se tanto.


Atrás



Atrás da história tem a verdade.
Atrás da verdade, a vergonha.
Atrás da vergonha, desigualdade.
Atrás da desigualdade, a história
que se repete, repete, repete...

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Éramos



Éramos belos.
Éramos puros.
Éramos mágicos.
Éramos lúdicos.
Éramos jovens.
Éramos poucos.
Éramos tanto.
Éramos vívidos.
Fomos felizes.



Jabuticabas




Trazem passado as palavras.
Uma espécie de riso ao contrário.
A ordem em desatino.
Tremem as mãos.
Esmiúçam o horizonte os olhos.
O todo e a parte.
A parte.
Não mais que espólio.
Nem infância.
Nem vida.
Jabuticabas me entristecem.



terça-feira, 1 de setembro de 2015

Gostosa é a noite



Gostosa é a noite que vira poesia
sem insônia nem burocracia.
Gostosa é a noite que vira poesia
com lua cheia e estrela guia.
Gostosa é a noite que vira poesia
da poeira do passado até o raiar do dia...



Vergonha na cara



Vergonha na cara é artigo de luxo.
Não se encontra na feira das almas
nem no mercado dos poderosos.
Não dá em árvores nem é rasteira.
Vale de sábado a sexta-feira.
Não corre na chuva pelo bueiro.
Encontra em si seu próprio meio.
É cara, é rara, é vergonha na cara.
Não é enlatada nem embutido.
É lisa e fina, é sina.
É diamante lapidado.
Não faz concessão nem anda de lado.
Vergonha na cara é artigo em falta.
Vergonha na cara é artigo de luxo.