domingo, 29 de novembro de 2015

Pelas ruas



Pode ser caminho.
Pode ser rotina.
Pode ser morada.
Pode ser destino.
Pelas ruas vejo vidas.
Pelas ruas, criaturas.
Desencontros.
Perdições.
Estimativas.
Um relógio atrasado.
Um sinal de trânsito.
Uma jornada de atalhos.










Presença



Pouco importa onde você passou o dia
ou o espaço que a tua alma ocupou.
Se o teu pensamento voa,
o meu o encontra em algum sonho.
Pouco importa a hora que você vem
ou o atraso que a rota causou.
Se a tua palavra me encanta,
onde ela soa, a vida ecoa.
Pouco importa qual o cenário,
o palco, a ribalta, a personagem.
Se a tua presença é marcante,
em mim é tatuagem.




sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O lado de lá



O lado de lá anda alerta.
Deixa uma luz sempre acesa.
Não dorme de janela aberta.
Desimpede a passagem.
A mala pronta no canto do quarto.
A sala arrumada.
O gás fechado.
O lado de lá anda atento.
Guarda com os olhos
o mais imperceptível movimento.
Tem um colírio de plantão.
E uma desculpa esfarrapada.
Convincente, o lado de lá
mantém uma pedra no coração.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Da cachaça do dia



A minha palavra é cachaça.
Arde na garganta e não para.
Desgraça quem não tem graça.
Escorre veneno aos ouvidos moucos.
Vomita pragas e impropérios.
Desnuda o soberano.
Destrona o império.
Mistura gengibre e mel.
É fel para ímpios e imbecis.
Sem rótulos nem fórmulas.
A minha cachaça é palavra
de honra.
Beba-me ou me devore.


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Queda livre



Não há tempo para piedade.
Nem para ilusões.
A ampulheta escorreita.
Precisa. Implacável.
A emergência nuclear.
A força da gravidade.
Grave como a queda.
Livre como a morte.


Do riso covarde



Pode o riso ser forte, legítimo, 
firme como um homem reto,
doce como a verdade.
Pode o riso ser lúdico, desbragado,
valente como um marujo,
leve como a brisa.
Pode o riso ser deboche, até tolo,
ritmo tal qual sinfonia,
rimado feito poesia.
Nunca o riso covarde, escárnio do povo,
escuso no direito, escudo do poder.

Das cores tristes



Tristes os verdes da floresta morta.
Tristes os azuis do mar que foi embora.
Tristes os cinzas do céu encravado em perdas.
Tristes os vermelhos dos olhos sufocados.
Tristes amarelos da serpente rastejante.
Tristes os pretos das jabuticabas podres.
Tristes os brancos das palavras não ditas...


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Do norte



O norte do norte
do lado que a sorte esqueceu
da face que a morte beijou
do sangue que o corte escorreu.
É o mesmo norte do norte
da palavra que o porte ergueu
do braço que o suporte amparou
da batalha que o forte venceu.



Da anemia da poesia


A minha poesia 
está com anemia.
Está cansada
e falta-lhe energia.
Falta-lhe ar e sobra
taquicardia.
O peito arde
e prenuncia.
A pele empalidece
ante a hemorragia.
Contraem-se músculos
em agonia.
E nem assim descansa
um dia.
A minha poesia
padece da anemia.
Mas nunca, jamais,
da covardia.


sábado, 14 de novembro de 2015

A mudança começa




A vazão do reservatório.
Uma cova rasa.
Limites mal traçados.
Invadir a história pela mão da morte.
Latifúndio de almas.
Um velho relógio de parede parou no tempo.
Não temos mais tempo.
Nem motivo para aceitar.
Resta lutar.
Sobra viver.
Quem sabe, mudar...


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Haikai parisiense



Meus olhos não veem. 
Meus olhos tristes como meu coração.
Meu coração sente.

Das pegadas



Pois quando piso na areia deixo marcas
Pois quando piso na grama levo frescor
Pois quando piso no cimento deixo sangue
Pois quando piso nas nuvens levo sonhos

E sonhos são pegadas indeléveis.


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Meias palavras



Para que meias palavras,
se a partida é inteira
se a soleira é inteira
se a escada é inteira
se a ladeira é inteira
se a estrada é inteira
se a vida inteira fostes meia?
Um quarto bastaria.


Premeditâncias



Com pincel grosso aplico palavras
em muros de papel.
Há coisas que eu vejo que eu não vejo.
Paisagens e pessoas silábicas.
É fácil pintar poemas.
Premeditar destinos não.
Personagens me frequentam sem pudor.
Pudera, pudor...
Quisera derreter hipóteses e resolver o mundo.
Ou assumir a santa ignorância
e me perder em premeditâncias.

Haikai poente




As folhas e os raios de sol
nem o dia foi nem veio noite
e eles se entrelaçam


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Dos pesares


O peso da verdade assenta-me funesto.
Minha impotência diz que somos todos cúmplices.  
Não basta o pesar. 
Não satisfaz a vergonha. 
O que sou que apenas me indigno? 
Que mudez é a minha que me dói de silêncios? 
Qual o tamanho da mentira? 
Qual a dimensão do vazio? 
Alagamos o presente em lama. 
Nunca aprenderemos a nadar.
Nunca aprenderemos.


Haikai cotidiano



As palavras tão tristes, tão perdidas 
feito balas de verdade
feito bulas de mentiras

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Sem notícias



Dediquei um poema sem notícias
a um dia igual a todos.
As mesmas injúrias.
Os mesmos descasos.
Incidentes, acidentes, 
cansativas repetições.
A velha morte de sempre.
Os cortes e o merthiolate.
Cães que latem e não mordem.
E as caravanas passam.
Fotografias três por quatro, às dúzias.
As bulas dos remédios.
O tédio. Os tédios.
A fumaça. A cachaça. A praça
tomada pelo mato crescente.
O decente e o indecente.
Os chatos. Os chatos. Os chatos.
A impiedade e a hipocrisia.
Tende piedade de nós.
E de vós. E dos outros.
Tão iguais.
Maquiados. 
Embalados em papel filme.
Plastificados.
Como dias sem paixão e poema sem notícias.

sábado, 7 de novembro de 2015

Aquário



Num aquário de luz
guardei contas coloridas,
caleidoscópio de amores
feito pequenos peixes
a nadar soltos nos céus


Do espelho



Que estranho espelho
que olha para mim
com um reflexo de sol
e me transforma em lua
de São Jorge com dragão
e um gosto novo na boca
de lágrima com gengibre
e tristeza com pó de canela.
Estranho espelho
esse que me revela.


Haikai dos anjos



Meus anjos não têm idade
nem tempo
são feitos de saudades


Retrovisor



Quem me dera ter sabido
que a perda maior não fora a agenda
levada entre jornais velhos e velhas revistas

Quem me dera ter sabido
que não seria um poema perdido
a matar a poesia

Quem me dera encontrar
no baú dos antigos
a lembrança sem falta
a presença sem saudade
o beijo sem vergonha
o amor sem fim


Haikai do vento



Então o vento virou a folha
e o outro lado do papel
percebeu o poema aéreo, definitivo


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Maus costumes



Todos estão mal acostumados
com meus bons costumes.
Quero meus defeitos primeiros.
Perfeitos na imperfeição.
Quero meus protestos por inteiro.
A luta do poema que grita.
Quero minhas garras afiadas.
Unhas prontas para encarar.
Quero placas de cuidado.
E cercas eletrificadas.
Quero distância das qualidades.
E uma hipocrisia toda minha.
Quero o risco que sangra a face.
E assina uma declaração de guerra.
E no fim da linha, quero o sonho
e todas as consequências da noite fria.


Pela porta



Entrou pela porta
-- e poderia ter entrado pela janela.
Era o espaço ocupado.
Sambou com bossa
-- como sambaria um tango.
Era a música do ar.
Contou-me histórias
-- e teria mentido verdades.
Era o último capítulo.
Foi embora
-- fosse verbo o eterno.
Era todo ternura e pela porta nunca mais.


Dor



Quando até a lua dói.
A dor na entranha.
Estranha dor tão amiga.
Tão ausente de tão dor.
Dói por fora. Dói por dentro.
Por todos os lados da dor.
Diferente e íntima dor.
Rima de si própria, a dor própria.
E imprópria. Dói.
Demais e tamanha
que a dor é minha 
e de mais ninguém.