quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Artesanias



As mãos que tecem.
As mãos que tocam.
As mãos de agulhas.
As mãos de tintas.
As mãos que pintam.
As mãos que armam.
As mãos de barro.
As mãos de linhas.
As mãos desenham.
As mãos que bordam.
As mãos de aparas.
As mãos de vidro.
As mãos que limam.
As mãos encaixam.
As mãos grafites.
As mãos de contas.
As mãos que colam.
As mãos que cosem.
As mãos de fibras.
As mãos de palha.
As mãos que plantam.
As mãos que formam.
As mãos de lata.
As mãos de prata.
As mãos que criam.
Artesanias.



Quadrinha


Aprendi com as jumentas
que associar o cio ao ócio
é o caminho mais curto
para o burro ter sócio.


debaixo do tapete


E quando puxou o tapete
para varrer indiscreta poeira 
descobriu uma cárie no dente do chão, 
cratera sem caráter nem pudor.
Então saiu porta afora,
para rolar a ladeira da vergonha
e cair no mundo cão
-- mas foi de mocassim e desceu de elevador.

De improviso


Levanta e anda.
Nem tão urgente o rumo,
nem imponente roteiro.

Levanta e anda.
Vai de improviso.
Encontra o não-se-sabe-o-quê.

Levanta e anda.
O berço esplêndido, 
nem um nem outro.

Levanta e anda.
Como um bom substantivo.
Que de adjetivos o inferno está cheio.

Do esmalte e da sociedade


Lascado.
Aparado.
Limado.
Lixado.
Polido.
Esmaltado.
Envernizado.
No fundo é boa gente.
E agora sequer o verniz lhe faz falta... 


Ali, na esquina



Estava ali.
Na esquina.
Sutil e discreto.
Perto demais para não se encontrar.
Ao mesmo tempo, de parecência distante.
Ilusões da nossa ótica tão linear.
Miopia, astigmatismo, hipermetropia os males da visão.
A paralaxe do pensamento:
parece, não é, parece.
Ali, na esquina.
Silente. Paciente. Resistente.
Mais observador a observado.
De luz tênue e de cor incerta.
Na certeza incontida.
Contingência da espera.
A Ciência. A Fé. A História.
Tanto conhecimento...
E o infinito brinca de não ser.
Ali, na esquina.
Como epitáfio coberto de limo.
Atento passante o percebe vivo.
Teimoso. Tinhoso. Tempestivo.
E com um sorriso ele o desmancha.
Um ano nos espera. Novo.
Ali, na esquina.



segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Gênesis



No princípio era o verso
puro e simples como areia
matéria prima do vidro e da transparência
contido na ampulheta de todos os tempos
perspetiva da praia de quem olha do mar.
No princípio era o verso
vivo e forte como plasma
ânimo dos corpos e das atitudes
massa tomada em empréstimo da palavra
palestra de vozes e ecos insistentes.
No princípio era o verso
profeta e personagem como sina
de olhos mortos e morta língua
molde das mais adstringentes verdades
lima que desbasta a mentira e afoga a espera.
No princípio era o verso.

sábado, 26 de dezembro de 2015

O Circo Bibi



O Circo Bibi.
Era de lona escura e pouca história.
Arquibancadas de longas e flexíveis tábuas.
Cadeiras em camarotes num chão de serragem. 
O luxo.
Domadores e animais cúmplices -- por sorte.
O globo da Morte.
Havia palhaços malabaristas,
atores e atrizes eram os outros artistas.
De tudo faziam um tanto.
Do riso ao pranto.
Comédia, drama, tragédia.
Pipoca e amendoim.
Salgadinho e doce.
Tudo cabia no Circo Bibi.
Até a minha infância.


Tu mentiras



Tão mentiras.
Tantas fraudes.
Manipulações
-- no mau sentido.
Destemperos
-- no exato sentido.
Tão mentiras.
Tantos traumas.
Roubam-se palavras.
Deturpam-se almas.
Centrífugas pulsam cegas.
Expulsam vômitos.
Diarréias.
Gonorréias mal curadas.
Sífilis de versões.
Verões passados.
Tão mentiras.
Tantas películas.
O inesquecível filme
-- nunca visto.
Celulóide vencida.
Produção de segunda.
Falso enredo.
Tão mentiras.
Tantas mentiras.
Que o verbo é sujeito.
Que o sujeito é verbo.
Imaginária conjugação.
Ela mentiras.
Eles mentiras.
Tu mentiras.
Tão mentiras.


terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Depois da chuva



Depois da chuva
as gotas colam nas pétalas
como lágrimas na memória.

Depois da chuva
os espinhos brilham contra a luz
como lâminas na garganta.

Depois da chuva
um cheiro de terra paira
como aviso no ar.

Depois da chuva
somos o rescaldo da verdade
e o barco no meio-fio.

Depois da chuva
os heróis mais humildes
nos emprestam seus mantos.

Depois da chuva
ainda há fôlego para um poema
e um café quente, forte e amigo.


segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Mil caquinhos



Quebrou-se o vaso
em mil caquinhos.

V
E
R
D E T E N Ç Ã O
A
D E L A Ç Ã O
E
DES C O N F I A N Ç A
COM
PRO
MIS
SO
T I
É TICA
P O L I
P U T A
L U T A
P O L U T A
P Ar tI DO
DE FE NES TRAR
Rr Ee Tt Aa Ll Hh Oo
Bb Oo
im paciência
EX
P
M
A
T
R
I X
A
DO
p p p
o o o
r l
c v v
o o o
s s
P P P P P P P P P P P P P P P P P P P P P P P
P P P P Q P P P P P
P P P P P P P P P
P P P P P P P P

Quebrou-se o vaso
em mil caquinhos.
E ninguém sabe colar...

Donos da verdade



Quantos donos da verdade
que de verdade nenhum.
Quantos guerreiros de instantes
que de distantes nenhum.
Quantos heróis de plantão
e de heroísmo nenhum.
Quantos desembargadores
e desembargo nenhum.
Quantos oradores ilustres
que de palavra nenhum.
Pouco nos resta.
Tão rasos os nossos ídolos
que líder nenhum para idolatrar.



Do desterro



Nossa Senhora, valei-me.
Que o solo se perde a meus pés.
Que as nuvens se soltam dos céus.
Que os homens se perdem.
Outras terras não conheço.
Outras marcas não ganhei.
Outros dias, outros dias.
De desterro e de vazio.
Valei-me, Nossa Senhora.


domingo, 20 de dezembro de 2015

Das janelas abertas



Cada janela guarda sua verdade.
Sua história e seus segredos.
Cada janela mostra esconde o desejo.
Por cortinas e meias-luzes.
Cada janela tem seus medos.
E defesas e tramelas e venezianas.
Cada janela mira cúmplice.
Com olhos que só as janelas podem abrir. 



Do tecer


O fio que trança e corre e corta
O fio vivo que vai e volta
O fio cerzido o fio unido o fio tecido
O fio passado no olho da agulha
O fio fiado doutros fios
O fio do passado alinhava o presente
O fio de cores imagem borda poema feito
O fio da vida
O fio da história
O fio de esperança pregado na alma
O fio da arte
O fio do artista.


Da janela do casarão



Promíscuas oferecidas
Adúlteras acotoveladas
Petúnias empedernidas
Apetitosas aglutinadas
Alterosas erguidas
Efemérides descortinadas
Todas flores em vasos de louça
A enfeitar a janela aberta do casarão.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Da revolução que não é



Não faça tua a minha revolução.
Não faça, não.
O que você chama história é farsa.
O que você canta hino é apenas refrão.
O que você clama palavra é plágio.
Não faça tua a revolução de ninguém.
Pode ser que outro alguém te desminta.



Dos falsos ídolos



Quantos donos da verdade
que de verdade nenhum.
Quantos guerreiros de instantes
que de distantes nenhum.
Quantos heróis de plantão
e de heroísmo nenhum.
Quantos desembargadores
e desembargo nenhum.
Quantos oradores ilustres
que de palavra nenhum.
Pouco nos resta.
Tão rasos os nossos ídolos
que líder nenhum para idolatrar.