quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Crônica de um poeta anunciado

Rabisco letras e junto fios e linhas em barbantes. Desenho palavras como quem tece histórias. Escolho imagens, fotografo com a córnea, resgato sonhos e me refastelo em pesadelos. De tanto fazer poemas saudades tenho do cronista. Aquele dos olhos fixos nos bondes que não mais existem. Nos trens idos. Em estradas que levam ao horizonte. Aquele cronista encantado pela música. Por canções esquecidas. Esquisitas algumas. Por acórdãos solitários e acordeons afinados. Letra e música, imagem e ação. O cinema toma as mãos do cantador de histórias e o leva à fantasia. Se a crônica é um instantâneo em forma de prosa, o cinema é o movimento inevitável do escritor envolvido por sua história. E o cronista escreve o roteiro do seu dia. Recorta um fato do jornal. Comenta com o balconista da padaria entre o pão na chapa e um pingado.Confere a tabela do campeonato. Olha a moça que passa. Reclama da carestia. Denuncia a corrupção. Brada pelos direitos sociais. Debate o desemprego. Derruba o governo e compra um maço de cigarros no caixa. É hora de trabalhar. A noite mal dormida, dividida entre folhas rabiscadas, poemas corrigidos, insônia movida a café amargo. O cartão de ponto. O dia dividido em horas, as horas em quartos, os quartos em terços.  Outros papéis. Outro cenário. A vaidosa burocracia recheada do medíocre. Cinco para meio-dia. Eu nunca fui um bom empregado. Bandeijão (assim, com i, arroz e feijão), café, cigarro, baralho, os quatro naipes dançarinos. Bati com a mesa. Bati o cartão. Mais quartos de horas a vencer. Imagino poesias onde não cabe o carimbo. Seria tudo imaginação se fosse eu um criativo. A realidade é uma dissertação. Passaram quartos, horas, dias, anos e décadas. Passaram bondes.Passaram papéis em branco. Fumei, parei. Bebi, parei.Escrevi, parei. Amei, parei. Brequei e não parei. Bati o carro. Bati com as dez. Bati na porta e o eu presente veio abrir. _Prazer, poeta. -- _Prazer, cronista. Se a cobra engole o seu próprio rabo, Deus me livre de serpente. É muito humano peidar. Desumano é cacarejar e botar ovo em pé. Amanhã de manhã, na padaria, o balconista vai dizer que o sonho acabou.Tudo bem. Um pingado e um pão na chapa. Na graxa, por favor. 






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