segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Meu tempo




Meus castelos de areia têm torres de palavras e portas gramaticais.
Meu sofá é minha praia, minha Tambaba virtual. 
Meus referenciais são humildes e sem contra-indicações.
Meu currículo não passa de uma folha.
Meu ideário não toma partido, toma cangibrina.
Meus mais sinceros votos de felicidades são reais.
Meu calor provoca suores, meus suores provocam.
Meu presente ri do passado e do futuro.
Meus pendores pendem da infinito.
Meus labores são insuficientes para a aposentadoria.
Meu humor, meu amor.
Meus humores, minhas dores.
Meus cantos não se ouvem impunemente.
Meu lamento é mudo e imutável.
Meus desejos são melhores à noite.
Meu abraço pode causar arrepios.
Meus arrepios, nem todos são controláveis.
Meu controle é difícil, remoto.
Meu samba não se aprendeu na escola.
Meu futebol é muito, muito ruim de bola.
Meu epitáfio jamais será autoral.
Meus vivos e meus mortos me amam infinitamente.
Meus dias têm a minha marca.
Meu resumo é impossível; minha síntese, interminável.
Meu poema é minha Ítaca, meu Portugal, meu torrão.
Meu tempo é inoxidável. 

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