quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Do espaço da memória



Meu voo solo faz uma escala no vazio.
É o espaço da memória que não tortura.
Nossa inocência fatiada a lâmina fria.
Foi um sujeito oculto de predicados nulos.
Não é exatamente o culpado pela situação.
Mas a explicação é bastante aceitável.
Estamos a um palmo dos nossos limites.
A tolerância que não é.
O altruísmo que não veio.
O feio que é bonito, o bonito que é feio.
Ser contemporâneo é inevitável. E óbvio.
O óbvio distante da nossa felicidade.
Não fomos, não somos, nem seremos.
Poetas deitam profecias.
Profetas preferem poesias.
O lado humano não está ao seu lado.
O lado humano cedeu à barbárie.
Nunca fomos tantos nem tão sozinhos.
Quem guardou os comprovantes do malfeito?
As gavetas estão abarrotadas de limo.
O bolor acumula no pão nosso de cada dia.
A violência não rima com as nossas filhas.
E violentadas são as nossas meninas.
Sem paralelos, nem meridianos.
A coordenada do nosso medo é polar.
Temos medo do frio.
Temos medo da fome.
Temos medo da morte.
Temos medo da solidão.
Deixamos a esperança na caixa da realidade.
Fugimos feito pássaros da floresta.
Descobrimos o concreto da cidade.
E nos deixamos levar por promessas.
Liberdade, liberdade.
Livrai-nos das ilusões, da falta de razão.
Livrai-nos da execução sumária, da pena máxima.
Livrai-nos da pequenez, da conivência.
Livrai-nos do esmagamento da consciência.
Aterrizo minha nave-mãe no vazio da alma.
O espaço da memória que não machuca.

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