domingo, 31 de janeiro de 2016

Das lágrimas




Algumas correm.
Algumas secam nos olhos.
Outras morrem antes de nascer.
Algumas molham a alma.
Algumas queimam fogo.
Outras formam rios.
Algumas cantam.
Algumas cortam.
Outras simplesmente choram.

Sensivelmente



Sensações óbvias.
A rotina repetida. 
O tédio,
o mistério, 
e a mistura 
em atrito geram calor.
Corpos queimam.
Sensivelmente,
inventam o novo.
Quantas vezes forem necessárias.


Fim de festa



A festa acabou.
A noite se arrasta.
O silêncio reprime.
Um sol de vinagre anuncia
Aurora tardia.
Um homem deprime.
Uma mulher se comprime
a outro homem, anônimos.
Uma cirurgia de prazer
e dor sem anestesia.
Parece tarde.
É cedo.
Nenhum medo foi dormir.
Nenhuma certeza despertou.


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Lusco-fusco



Não saiba a tua sombra 
o que a minha presença provoca.
Nem saiba a tua luz
o que a minha proximidade pretende.
A sutil delícia da invasão de corpos.
Bocas que se mordem.
Mordidas que se mesclam.
Para uns, beijos.
Para tantos, brumas.
E no lusco-fusco das extremidades
o que é horizonte abriga o sol
com a sensualidade de uma tarde
que engole o outro
até a noite se impor...


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

São Paulo (haikai)



Há um senso maior que te emoldura
São Paulo,
terra de todos e da minha poesia


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Rococó



Não vivo só
Não vivo só
Não vivo só
Nem viro estátua de sal
É melhor ser rococó



Da florista italiana



nua na revista
italiana, 
a bela florista
foi meu primeiro amor 
-- e que buquê ela trazia...


Das ondas e da nuvem




eram espumas, era bruma.
vinham em ondas, subia vaporosamente.
apressadas umas, etérea a outra.
algumas irresponsáveis feito a vida; algo véu, penumbra, névoa.
eram espumas que me envolviam.
era a bruma que me levava.


Pátria. Mãe. Gentil



Saravá
Axé
Motumbá
Pelé
Didi
Vavá
Acarajé
Pirão
Poró
Bem-te-vi
Carcará
Curió
Caju
Araçá
Sapoti
Gibão
Sagui
Muriqui
Tietê
Mucuri
Paraná
Pataxó
Guarani
Tapajós
Ceará
Piauí
Amapá
Lambari
Cação 
Acará
Saci
Boitatá
Muiraquitã
Tambaú
Jurerê
Itapuã
Jabuti
Teiú
Jacaré
Ogum
Xangô
Omulu
Ceci
Peri
Caubi
Jacarandá
Ipê
Manacá
Naná
Elis
Araci
Sucuri
Cascavel
Urutu
Fubá
Biju
Açaí
Tim 
Lalá
Jobim
Fuzuê
Banzé
Febeapá

No cinema



No meio da sessão da tarde
o que era romance virou terror
o que era suspense fez-se tragédia
o que era drama morreu comédia



De monstros e de reis




Quantos olhos distribuídos pelo corpo.
Dois. Quatro. Oito. Treze.
A trípode pronta para prever o imprevisível.
Dar-se-á a coroa à rainha louca.
O rei de doze patas perdeu a cabeça.
E o primeiro ministro será o último.
Polvos tocam harpa no grande salão submerso.
Cavalieri não morreu.
E nem o sonho é um pesadelo.
É tudo real e cheira mal.
Ventosas em vez de mãos.
Gosmas em vez de suores.
Escorrem tristezas pelo grotesco.
A virgem grávida que se mutila e masturba.
O cavalo alado asado sem voo nem crina.
A vergonha escondida no intestino exposto.
Uma aranha de pelos vermelhos.
Um tronco nu e a carne crua cobre o rosto.
A criatura abissal ao sol sem sombras.
A fratura exposta coberta de sal e alho.
Durante a guerra vomitamos homens.
Mandamos os mendigos à morte.
Violentamos as filhas dos conventos.
Até que a paz se fez tumular e defecou regras heroicas.
Sobre as nossas cabeças disformes morremos monstros e reis.
Nenhum inocente.


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Do enforcado (haikai)



Os galhos te sustentam com galhardia 
morto como convém
aos heróis mansos da covardia



segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

De algum amor




Amores incubados.
Amores incrustados.
Amores inconstantes.
Amores incontestes.
Amores incorretos.
Amores incolores.
Amores incompletos.
Amores incoerentes.
Amores incautos.
Amores incondicionais.
Amores inconsequentes.
Amores incansáveis.
Amores incompetentes.


domingo, 17 de janeiro de 2016

Do mel e da maçã



A boca que te tomará o mel
sugar teu leite
beber o vinho branco e ácido da tua força,
é a mesma boca que te morderá o sonho
e te fará maçã de todos os pecados
-- menos o da indiferença.



Registro Geral



Nem de perto a sua atitude lembra
um registro geral.
Sete ervas. 
Bem-me-quer. 
Espadas de São Jorge.
Você não é flor que se cheire.
Rodin.
Michelângelo.
Brecheret.
Suas três dimensões sem alto relevo.
Drummond.
Bandeira.
Vinicius.
Você sequer seria rima pobre.
Roteiros.
Mapas.
Trilhas.
Sua ilha sem água em volta.
Livros.
Discos.
Retratos.
Você sem herança nem espólio.
A propaganda é a alma do negócio.
Quando a alma é pequena.
Quem tem medo da verdade.
Não há documento que me conte
da sua identidade.



Linha de produção



Parafernália
Para-brisas
Paralelas
Parafusos
Para-raios
Paranoia
Para-sol
Para tudo
Menos a linha de produção.




Pequeno delírio




O bico dos meus lábios
tenta beijar
o bico das tetas da rocha
-- insonhada façanha,
dura realidade:
o leite empedrado da decepção.



quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Do perigo dos olhos fechados



O perigo dos olhos fechados
não é o escuro
não é a cegueira
não é a insegurança
O perigo dos olhos fechados
são as lembranças



quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Das incógnitas verdades



Eram sinais. Havia um código.
As extremidades encontravam-se.
Era circular. Tinha arestas.
As formas intercalavam-se.
Era palpável. Projetadas.
As peles entretecidas.
Eram sonoras. Silábicas.
As palavras arranjavam-se.
Eram fórmulas. Com precisão.
As incógnitas reveladas.
Eram felizes. Como casais.
As verdades esfoladas.
Eram mortais. Não são mais.



Prantos



Se a tua certeza chora,
que dizer de tuas dores?
A tua certeza mora no espelho.
A tua dor vive no espelho.
São tuas dúvidas que te resgatam.
São tuas dúvidas que te empurram.
Tua certeza chora, tens certeza.
Tuas dores, nem tanto
-- a cada uma, seu pranto.


Passo a passo



Cada passo, sua pegada.
Seu rastro.
Sua sombra.
Seu sentido.
Cada passo, seu rumo.
Além da tentação de olhar para trás,
a certeza da estrada.
Olhar para a frente e seguir.
Sorrir. Rir. Sorrir de novo.
Cada passo, seu passo. 
Cada passo, seu riso. 


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

tiro rápido



venceu a morte e o sono
nasceu verão
e transformou-se outono


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Profundezas



Quando as certezas mergulham
afundam nas profundezas
bolhas de leveza borbulham
até a água da correnteza
e com pureza rolam
a alcançar com delicadeza 
a natureza, em si mesma
dona da própria frieza


domingo, 10 de janeiro de 2016

Haikai das sutis palavras



Sutis palavras, tão sutis
que sussurram.
Palavras gentis.



Onde canta o sabiá



Minha terra tem palmeiras,
verdadeiras mentiras
e mentiras verdadeiras.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Calores



Agora que o tempo esquentou,
a temperatura subiu,
a palavra ferveu,
o estado febril
tomou conta da pele
da derme da epiderme
das profundezas da hipoderme
e um desejo cortante queimou
uma camada de sonho, outra de desejo.
A noite suou todos os tons do prazer.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Do roteiro das suas lendas



As suas lendas estampadas na pele.
Uma harpia esculpida no seu dorso
voa em sonho com seus sonhos
e crava suas garras na realidade.
A cruz cravada no seu braço
não pesa nas suas lembranças
nem tropeça no seu futuro.
Uma, duas, tantas estrelas
sobem pelo seu ventre
em plêiade de seus desejos.
A serpente envolve sua perna
e esgueira pelas coxas
desafiando seu pecado até a maçã.
Enquanto isso, as borboletas invadem
o roteiro das suas lendas
com o seu delicioso prazer de voar...


Na árvore



As folhas acenam apelos
e sombreiam defesas.
Os ramos desenham caminhos
e suplicam atenções.
Os galhos transcendem.
O tronco caminha para o alto
enquanto envelhece.
As raízes, as raízes sustentam
a história, irradiam o alimento
e abraçam a Terra com amor.
O amor de todas as mães.



terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Instantâneos



Deixa eu tirar sua fotografia.
Fazer um instantâneo.
Prender sua alma no negativo
e revelar a imagem em mil tons.
Deixa eu registrar sua beleza.
Fazer outro instantâneo.
Explorar os contrastes da hora
e iluminar o retrato emoldurado.
Deixa eu ampliar sua história.
Fazer mais um instantâneo.
Equilibrar brilhos e matizes
a espelhar o avesso do que não é.

O paraíso de plantão



Todos os anjos e nenhum.
Quisera assim fosse a regra.
Flashes da humanidade.
Flechas erráticas.
Um chão de cristal para seus pés nus.
Quantos passos incertos.
Quantos cortes indecisos.
Era esmalte?
Era sangue?
Era seiva?
Todos os anjos e nenhum.
Condenados a viver unidos
à sorte do cordão umbilical
da morte.

Vasos comunicantes


Memória em gotas.
Sumo de recordações.
Pingam lendas. 
Suam histórias.
Esgotam palavras.
Vazam dias.
Fluem noites.
Boias e reguladores.
Registros e válvulas.
Veias e artérias.
O sangue jorra.
A lágrima corre.
O mar, o mar...


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

verdeamarelo



Comove o verdeamarelo
que persiste e rompe o céu azul,
polvilhado de manchas brancas
a colorir o dia com as cores do meu país.
Terra onde o arco-íris colore de múltiplos brasis
vilas aldeias freguesias cidades,
sem negar, renegar e nem abrir mão
das marcas e tons da identidade.