segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Da vaidade



O contorno dos lábios desenha anéis em Saturno.
Fazem viagens celestiais os seios astronautas.
Um big bang de glúteos invade o infinito.
Com esmaltes vermelhos arranha um sol marciano.
Cintilantes estrelas alinham dentes dentro da boca arreganhada.
Um espelho duplicou a imagem por um mapa astral.
O céu era a parte mais visível de toda essa vaidade.
Todo o mais era verdade.


Da caderneta de viagem 8



Outras cinzas 
Outros corpos
Na base do vulcão um cantor lamenta
Na casa queimada as verdades ardem
Na vila tomada os mortos se abraçam
Na Terra insepulta o pranto ecoa
Do alto pouco se vê
Outras cinzas
Outros corpos


domingo, 28 de fevereiro de 2016

Da caderneta de viagem 7



A avenida em diagramas.
Eixos de realidade.
Graníticos caminhos de homens.
Homens granulados.
Homens diagramados.
Homens descaminhados.

Da caderneta de viagem 6



Que a cidade seja amor
aos que chamam pecado
Que as janelas sejam olhos
aos que chamam cegueira
Que a verdade seja líquida
aos que chamam veneno
Que a passagem seja destino
aos que chamam derrota


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Haikai das suas luas



Tantas as fases da lua
quantas as faces
das fases tuas

Da caderneta de viagem 5



O ano do macaco chegou.
Veio para ser e fazer.
Veio para realizar o irreal.
Veio para desafiar o provável.
O ano do macaco chegou.
Veio para surpresas.
Veio para rir de si mesmo.
Veio para resgatar a esperança.
O ano do macaco chegou.
Veio para o dragão derrubar o concreto.
Veio para o povo resgatar a rua.
Veio para o progresso retomar a ordem.
O ano do macaco chegou.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Todo cuidado é pouco



Todo cuidado é pouco.
Afinal temos todos um algo de louco.
Todo cuidado é pouco.
Pois de tanto pedir levamos toco.
Todo cuidado é pouco.
É que o refrão tornou nosso canto rouco.
Todo cuidado é pouco.
Que a sede não passa e a fome é troco.
Todo cuidado é pouco.
A verdade não preenche o vazio do oco.
Todo cuidado é pouco.
Então dá-se à face o carinho dum soco.
Todo cuidado é pouco.
E no fim da história morrer de pipoco.
Todo cuidado é pouco.



terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

De ácidos e de bases



A química dos nossos medos
acordou tarde 
e dormiu cedo.

Das falanges



Quisera a arte na ponta dos dedos
-- canetas e falanges --
a eternizar mantras de lucidez,
enquanto a massa disforme
deforma em forma de bis
os cânticos mais absurdos
de absurdos imbecis.



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A noite



Eu não tenho medo da noite
A noite é minha  companheira
A noite é minha companhia
A noite é minha amante e cúmplice
Eu não tenho medo da noite
A noite traz-me lembranças
A noite traz-me amigos distantes
A noite traz-me amores e presentes
Eu não tenho medo da noite
A noite é minha água transformada em vinho
A noite é minha casa
A noite é meu ninho
Eu não tenho medo da noite
A noite faz-me o afago que falta
A noite ensina a lição que não aprendi
A noite alimenta corpo e alma
Eu não tenho medo da noite
A noite que silencia as cidades
A noite que ecoa a música dos mágicos
A noite que grita a ausência dos heróis
Eu não tenho medo da noite
A noite que me trouxe histórias
A noite que me guarda em paz
A noite que me leva para nunca mais
E ainda assim
Eu não tenho medo da noite
A noite sou eu em forma de eterno



Da caderneta de viagem 4



Meia noite.
Abro a caderneta de viagem.
Folheio lugares.
Releio personagens.
Faço do encontro das peças
um novo quebra-cabeças.
Quase completo.
Daqui a horas, 
um sol deve acompanhar minhas sombras.
Deve.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Caminhos de vapor



Haverá o dia em que,
 em vez de bala, 
atingidos seremos
por tinta de caneta perdida.



Da caderneta de viagem 3




O passado colorido em preto e branco.
Os tons cinzentos da história. 
Sépia talvez.
Fotografias da memória viva.
Álbum desbotado.
Narrativa intestina.
Quando a rua acaba, 
um céu se abre para o viaduto cortar o vazio.
Caminhos etéreos.


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Da caderneta de viagem 2



A parede com figuras tatuadas.
Tu. Ele. Eu. Ela.
A paisagem tatuada no muro.
Singular e plurais.
A veia, a artéria, o coração em tatuagem.
O sangue em spray.
A viagem arranhada no asfalto.
A sombra de salto alto.

Da caderneta de viagem



Desci a ladeira da Constituição
e me perdi pois procurava
a rua da Abolição


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Dos retalhos



Os fios que não fiam.
As linhas sem horizonte.
Os pedaços de pano rotos.
As mulheres nuas.
Os reis nus.
Os colchetes abertos.
As palavras soltas.
Retalhos, retalhos, retalhos.



Da saída sem saída



Nossa dignidade furtada.
Nossa esperança mentida.
Nossa resistência quebrada.
Nossa inteligência perdida.
Nossa fé desvirtuada.
Nossa virtude ferida.
Nossa voz desprezada.
Nossa felicidade vendida.
Nossa conta fechada.
Nossa vida, nossa ida...


Dos rascunhos




Há criaturas incompletas.
Completamente vazias.
De nada cheias.
Sempre prontas ao nunca.
Com mãos algemadas pelo ar
e almas desmedidas ao breu.
Trazem os braços cruzados em nãos
e a boca repleta de vácuo.
São rascunhos.
Apenas rascunhos.
Nada mais que rascunhos.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Retalhos e rascunhos



Pedaços de sedas,
fiapos de jutas,
um crochê de fuxicos,
tiras de algodão,
lascas de cetim,
rebotalhos crus
em retalhos.

Sinônimos,
antônimos,
homônimos e
heterônimos:
magnânimos
distantes dos originais,
rascunhos.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Do tempo perdido



Tenho um relógio que só marca os minutos.
É um bom relógio. 
Quantos dias inúteis tem uma semana?
São tão poucos os úteis.
O calendário sobre a mesa não tem todos os meses.
Nem precisa.
No oriente é tarde, no ocidente é cedo.
O tempo perdeu suas medidas.
É o primeiro sintoma do medo.



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Do carnaval VIII



De quantas quartas-feiras
minha história foi feita...
Foram dias de cinzas.
Tiveram sabores e sabores.
Cores diferentes, sépia algumas.
Lembram perfumes.
Lembram cenários.
Lembram pessoas.
Insistiam carnavais.
Eram quartas-feiras.
Eram finais.



Do carnaval VII




No vermelho do fogo
No vermelho da boca
No vermelho do jogo
No vermelho do entardecer
No vermelho da face
No vermelho do prazer
No vermelho da carne
No vermelho do farol
Um carnaval monocor
Um carnaval rubro
Um carnaval atiçador



sábado, 6 de fevereiro de 2016

Do carnaval VI





memória de confete
pequenas histórias
voláteis efêmeras
micropontos, microcontos
contados em festa

saudade de serpentina
linhas de vidas
fitas que envolvem
enrolam, entrosam 
personagens ao enredo

Do carnaval V



A ilusão e o real se encantam.
O samba atravessa a rua.
Um bêbado balança,
o bêbado dança.
Uma mulher brilha,
a mulher maravilha.
Uma noite vira dia.
E o sol de neon ganha tons de aurora.



Do carnaval IV



O carinho e seu caminho
num trilho de cores
arco-íris de prazer
em forma de luzes
o inteiro se faz parte
a parte vira inteiro
e entre desejos e sabores
passa um carro alegórico
do tamanho do desejo


Do carnaval III



Escravos e senhores
Senhores e senhoras
Senhoras e escravo
A longa procissão faz do rei,
servo
E servil o rei se faz o aventureiro
do inédito
A tua surpresa é a fantasia
A tua fantasia é a surpresa
O mais, carnaval é...

Do carnaval II



Não é a máscara o teu carnaval
Não é a fantasia o teu carnaval
Os olhos vazam as voltas da serpentina
Os perfumes respiram gotas feito confete
Um algo quente toma conta do ar
E os suores sambam em silêncio
pela passarela aérea do teu sonhar


Do carnaval



Qual a sua fantasia?
Qual o seu encantamento?
Quando a noite envolve o dia 
feito amantes
O canto de todos os povos
evoca o encontro dos mascarados
e torna a vida mais cantiga,
mais amiga, quase infinita.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Do imponderável



A surpresa assim o é.
Traz o tempero e a dúvida.
Faz o delírio ser real.
Transforma e transporta
por mares nunca dantes.
Eram oceanos.
Eram ares.
Eram estradas e atalhos.
Túneis e luzes estroboscópicas.
A jornada pertence ao viajante.
A jornada é o próprio viajante.
Mistério ou encontro, tanto faz.
A surpresa assim o é.
O resto, o tempo traz.


Quadrilha



Dançam os pares no salão a meia luz
Nenhum culpado, todos santos
Alguns ainda evocam o homem na cruz


Estatísticas



Eu vou virar estatística.
A gripe vai-me alcançar.
A gripe vai-me abater.
A bala perdida vai-me encontrar.
A bala perdida vai-me deter.
O automóvel vai-me quebrar.
O automóvel vai-me vencer.
O ladrão vai-me assaltar.
O ladrão vai-me surpreender.
A justiça vai-me intimar.
A justiça vai-me absolver.
A fome vai-me atacar.
A fome vai-me doer.
O imposto vai-me taxar.
O imposto vai-me reter.
O trânsito vai-me atrasar.
O trânsito vai-me prender.
A vida vai-me passar.
A vida vai-me perder.
Até eu virar estatística.