quarta-feira, 30 de março de 2016

Das pegadas



Deixaste pegadas de lama.
Fáceis de seguir.
Difíceis de limpar.
Deixaste pistas delituosas.
Indícios de caráter.
Vestígios de pesar.
Deixaste ecos de lamentos.
Sinfonias por completar.
Daltônicos poetares.
Deixaste incestos e despudores.
Herança a esquecer.
Lembrança a dispensar.



Da colher de café




Era uma insônia ardida.
Olhos apimentados.
Humor ácido.
Suores impertinentes.
Era uma insônia urdida.
Horas duvidosas.
Eras duvidosa.
Foras duvidosas.
Era uma insônia ermida.
Solidão em sol maior.
Cânticos silentes.
Definitivamente teatral.
Era uma insônia hermética.
Toda minha.
Toda pura.
Toda insônia.



Dos dedos encolhidos




Meus dedos encolhidos.
Com timidez e sem perspectiva.
Se apontam o horizonte,
desapontam, desistem.
Se dedilham o piano,
desafinam, destoam.
Se indicam o alto,
desencantam, deliram.
Se tricotam o enredo,
desfiam, desmontam.
Meus dedos encolhidos.
Unhas roídas e sem esmalte.



segunda-feira, 28 de março de 2016

Quase meia noite



Quase meia noite
e o dia foi embora
com seus ruídos
suas sandices
suas ilusões
seus credos
seus medos
as decepções
e mais alguns motivos
para começar um poema novo...



Da situação



Diante do quadro
negro
nenhum giz arriscou



Perdas e ganhos




O peso da mão sobre as letras.
As teclas apagadas.
A força das atitudes sobre o dia.
Um farol aceso.
O correr do tempo sobre a linha imaginária.
Amarelas imagens.
A nudez e a mudez sobre a conduta ilibada.
Esperança ida.
Os ganhos registrados sobre a massa falida.
As perdas da vida.


Da seleção natural



A natureza dispõe seus escudos.
A mãe de todos bem conhece os filhos.
A justiça é natural. 
A justiça é mãe.
Separa o bem e o mal.
Suas sentenças implacáveis
são escritas em amor.
Suas mágicas enternecem
os puros de coração.
Suas cantigas entoam
verdades.
Suas verdades encantam
crianças e inocentes.
Os insensíveis, nem são.
Nem surdos, nem mudos.
A natureza dispõe seus escudos.



Da fé



Deitam palavras escorridas lágrimas.
Silenciosas sílabas.
Olhos de pedra.
Nenhum sangue.
Nenhuma súmula.

A fé é um planeta errante.



terça-feira, 22 de março de 2016

Da cruz



Dores.
Chagas.
Marcas.
Feridas.
Pústulas.
Mágoas.
Úlceras.
Fístulas.
Máculas.
Que a cruz suporta.




Hipnose



Sou olhos vitrificados.
Lentes partidas da realidade.
Sou outro.
Obediente e altivo.
Morro vivo.
Perco limites.
Esqueço exemplos.
Explosão nuclear.
Retração do plausível.
Sou morno.
Alcanço o leste e abraço o oeste.
Meus pontos cardeais não são.
Linhas imaginárias regem os movimentos.
Marionete wireless.
Enquanto isso, 
na torre de comando, 
um homem brinca de deus,
transforma o rescaldo em inventário
e borra o dia com velhas tintas.
Palmas para ele.
Acordo vivo.
Acordo livre.
Ainda que tardia.



Haikai vazio




Quando o papel olha para o poeta,
feito espelho,
e nada fala. Nada conta. Nada reflete.



domingo, 6 de março de 2016

Da palavra que falta



De tanto jogar conversa fora,
acabei perdendo palavras.
Há aquelas que se espalharam pelo chão.
Umas foram para debaixo de tapete.
Outras voaram com o vento pela janela,
pela sacada, além das cortinas.
Houve palavras escorridas pelo ralo.
Palavras coerentes, onde foram parar?
Palavras de coragem, cadê vocês?
Palavras humildes, a falta que fazem...
E deste vocabulário capenga,
falhado, incompleto e lacunoso,
dele falta a palavra verdade, 
palavra perdida em discursos vazios.


Moleque




Moleque, moleque
que história é essa de crescer?
Moleque de rua,
de todas as ruas.
Moleque da pipa
e da linha cortante.
Moleque de pular muro
e do outro lado.
Moleque de colar
na matemática.
Moleque de desafiar
a gramática.
Moleque de lutas e de vitórias.
Moleque de contar vantagem.
Moleque de molecagem infinda
e do jeito eterno de ser.
Que história é essa de crescer?



Estamos ilhados



Onde a sensatez fez parada?
Onde a dignidade se guardou?
Estamos ilhados.
Tantas pedras, tantas perdas...
Tantas palavras desperdiçadas.
Estamos ilhados.
As lições, as origens, a evolução.
A revolução silente.
Estamos ilhados.
O ser criativo, o hiperativo.
Todo pensamento juntado na caixa.
Estamos ilhados.
Pela esquerda, pela direita.
Pelos flancos, pela frente.
Estamos ilhados. 
E do inventário de todas mortes
à invenção da opressão,
estamos ilhados.
Dai-nos a sabedoria de volta.



Do alto



Do alto da arrogância,
do salto alto sem elegância,
da falsa polidez dos ternos bem cortados,
dos gestos cínicos e bem ensaiados,
da mentira bem contada, da falsidade ideológica,
das melhores práticas mercadológicas,
da mesura feita no espaço vazio,
do beija-mão tradicional,
das histórias da família real,
do cetro no solo pátrio batido,
do sorriso monolítico de um invasor estabelecido.


Do desapego



Eu não tenho novidades.
Eu não tenho novidades, nem do Bem, nem do Mal.
Eu não tenho notícias.
Eu não tenho notícias, nem poesia é jornal.
Eu não tenho verdades.
Eu não tenho verdades, nem falsidades,
Eu não tenho ilusões.
Eu não tenho ilusões, nem mantenho a esperança.
Eu não tenho horizonte.
Eu não tenho horizonte, nem linhas imaginárias.
Eu não tenho certezas.
Eu não tenho certezas, nem você. Certamente.




quarta-feira, 2 de março de 2016

Do trono e do tempo




Delitos, delitos
Desditos, delações
Que tempo escuro o tempo lembra
Que treva tanto o tempo entreva
Analógicas escusas
Antológicas mentiras
Que tempo escroto o tempo impera
Que impasse tanto o império pasma
Dores, dados
Deuses, demônios
Que tempo estranho o tempo traz
Que trago tosco o trono entorna


terça-feira, 1 de março de 2016

Da poesia moça




A poesia essa moça feita
que pela fresta a festa espreita
com toda vontade de entrar...

A poesia é prima dona
que valsa a valsa e emociona
como quem dança ao luar...

A poesia é rapariga
que dá até frio na barriga
quando se põe a versejar...

A poesia é bela amante
que de tão perto, distante
fica apenas por ficar...

A poesia é musa eterna
levanta a saia, mostra a perna
e ri descarada a atiçar...

A poesia é amiga certa
e a esperança sabe, que esperta
sabe tão ir quanto voltar...

A poesia é então parceira
que dia a dia a vida inteira
marca o dia de marcar...