sábado, 30 de abril de 2016

Geografias manuais



Geografias manuais.
A linha do destino escorrega.
A latitude do planeta em gomos.
A longitude das esquinas.
O caminho sem meios-fios.
A unha que rasga o mapa das costas.
As costas da capitania.
A baía aberta às naus.
Geografias manuais.
O guia das mal traçadas linhas.



Fala comigo




Fala comigo.
Traduz seus risos.
Professa as palavras.
Disseca expressões.
Ensina, que aprendo.
Mostra as ilustrações.
Desfila argumentos.
Diálogos abertos.
Fala comigo.
Demonstra a verdade.
Conta a história.
Descreve o sentido.
Explica, que entendo.
Declara intenções.
Explora a gramática.
Abre o verbo.
Fala comigo.



O susto e a surpresa



O susto e a surpresa.
As chaves não trancam verdades.
Quem chamava amor ganhou adjetivo.
Nem toda paixão é irracional.
Nem todo dia é santo.
A surpresa rasga o verbo.
A surpresa arranha a linha imaginária.
A surpresa atravessa o Atlântico.
O susto depõe a sutileza.
O susto faz das tripas, coração.
O susto concorda em gênero, número e grau.
 Enquanto os olhos pesam, as mãos tecem palavras.
Entre o susto e a surpresa, o poeta apaga a luz e sonha...



quinta-feira, 28 de abril de 2016

Do amor interativo




Porque o amor é um talho na memória.
Porque o amor é uma folha de outono.
Porque o amor é uma fatia de nós.
Porque o amor é um ralo de prontidão.
Porque o amor é uma unha cortada.
Porque o amor é um batom no espelho.
Porque o amor é uma ilustre presença.
Porque o amor é uma onda sonora.
Porque o amor é um retrato 3x4.
Porque o amor é um rito de sangue.
Porque o amor é um ponto de encontro.
Porque o amor é uma lenda heróica.
Porque o amor é uma promessa cumprida.
Porque o amor é um lembrar de esquecer.
Porque o amor é uma carta de copas.
Porque o amor é uma respiração ofegante.
Porque o amor é uma música na mente.
Porque o amor é um monte de coisas.
Porque o amor é um poema sem fim.
Porque o amor é aquilo que você fizer...



terça-feira, 26 de abril de 2016

Da mudez da manhã




Recados presos na porta da geladeira.
Contas a pagar. O silêncio branco.
Uma xícara de café fervente.
Um par de chinelos jaz no tapete.
Uma folha a menos no calendário.
Trinta de abril, primeiro de maio.
O futuro que não veio.
O passado que não foi.
As chaves pendem na porta.
A fechadura. Duas voltas.
A maçaneta. O elevador.
No espelho as olheiras denunciam.
No olhar, as renúncias.
O sol escondido em sombras.
Nem rotina. 
Nem retina.
Nem bom dia...



segunda-feira, 25 de abril de 2016

Da noite



Feito amor, a noite aproxima-se quente.
Acarinha, afaga, mima, alenta.
Faz esquecer o passado friento.
Faz-se presente e se faz para sempre.
Desfila estrelas, alumia lua.
Desdobra-se em amores, desmembra-se em versos.
Destina à madrugada a esperança do dia.
Mentiras doces, verdadeiras mentiras. 
Feito amor, a noite esfria.

domingo, 24 de abril de 2016

Talvez




Talvez o silêncio te corrompa
tanto ou mais que seus gritos.
Talvez a ausência te magoe
tanto ou mais que seu presente.
Talvez o vazio te emocione
tanto ou mais que a atitude.
Talvez a saudade te acorde
tanto ou mais que o próprio sonho.
Talvez a verdade te destrua
tanto ou mais que suas versões.
Talvez nada disso tenha razão.
Talvez, talvez...


Tijolos




Dos tijolos da alma,
soltaram-se alguns.
Pedaços de pisos,
paredes, pilares.
Argamassas e rejuntes,
juntos foram.
E nem assim o muro ruiu.
Alma teimosa e urdida.
Horizonte riscado entre o pranto e o riso.
Morte. Vida. Amálgamas
de felizes e de infelizes.
Perdoem-se os deslizes.
Remontem-se os tijolos.
Absolvam-se penitências.
Que a poesia há de ser o cimento
da resistência.

Teu cheiro



Teu cheiro tem cor.
Teu cheiro é branco leite.
Teu cheiro é vermelho batom.
Teu cheiro é rosa perfume.
Teu cheiro é amarelo licor.
Teu cheiro é azul anis.
Teu cheiro é arcoíris.
Teu cheiro é furtacor.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Balas de hortelã




Inocentes gotas de açúcar
e sabor de ontem.
O celofane verde e amarelo
como bandeira.
Que saudades das balas de hortelã
e dos tempos da pureza.
Era poesia, apenas poesia.



Do aprendizado




Eu aprendo de mim comigo.
E quantas lições me ensino.
E quantas falhas corrijo.
E quantas provas estimo.
E quantos pontos encerro.
Eu aprendo de mim comigo.
Com você, me erro.


sábado, 16 de abril de 2016

Do homem



O tamanho do homem é sua atitude.
Pouco importa o seu diploma.
A estatura do homem é sua honra.
Pouco importa a sua cultura.
A altura do homem é a sua verdade.
Pouco importa o seu poder.
A dimensão do homem é a sua humildade.
Pouco importa a sua herança.
O porte do homem é a integridade.
Pouco importa o seu discurso.
A amplidão do homem é a sua essência.
Pouco importa a prepotência.
O universo do homem é a humanidade.


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Das escolhas




De fatos e de certezas
fazem-se escolhas.
De vidas e de verdades
fazem-se escolhas.
De horas e de história
fazem-se escolhas.
De votos e personagens
fazem-se escolhas.
De honra e de altivez
fazem-se escolhas.
De homens e de mulheres
fazem-se escolhas.
De luta e liberdade
fazem-se escolhas.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Qual calendário




Qual calendário, marcamos datas
encontros, lembranças, eventos,
compromissos, lembretes, prazos,
aniversários, missas, santos,
palavras, créditos, contas a pagar,
férias, festas, felicidades,
luas, estações, modas,
viagens, voltas, idas e vindas,
partidas, metas, feiras,
sábados, domingos, feriados,
dias e dias e suas agonias.
Qual calendário, marcamos nossas lutas.
Sem faltas.




Palavras cruzadas



Quando as palavras -- cruzadas -- 
em tantas estradas -- bifurcadas -- 
navegam verdades -- abençoadas --
as mazelas se vão -- levadas --
por coragem e luta -- lutadas --
entre as mentiras -- passadas --
e as tais esperanças -- renovadas -- 

Luto



Luto.
Um luto absoluto.
Bruto.
Impoluto e luto.
Luto.
Por um tributo.
Por um estatuto.
Por um fruto.
Luto.
Pelo verbo lutar.
Luto pelo verbo.
Luto pelo verso.
Luto pela luta.
Luto.


domingo, 10 de abril de 2016

Outonos verbais




Outonos verbais.
Memórias enlatadas.
Películas, diapositivos, cromos.
As imagens ganham palavras.
Cenários e gramáticas.
Polissílabas escusas.
Do outro lado da câmera
um olho uma vértebra um verbo
um filtro a escolher o roteiro da vida.
Como são longas as histórias mal contadas.
Como são reais as nossas ficções.



O sol nasceu para todos




Metáforas e planetas em sistemas estelares
O sol nasceu para todos
E as meninas pulam corda no quintal
As janelas guardam segredos e cortinas
O sol nasceu para todos
E as flores balançam ao vento
Em uma gaveta jaz a humildade
O sol nasceu para todos
E as verdades desfilam sombrias



quinta-feira, 7 de abril de 2016

Heróis morrem todos os dias




Heróis morrem todos os dias.
Morrem nascituros.
Morrem matusaléns.
Morrem famélicos.
Morrem de desgosto.
Morrem do coração.
Morrem desanimados.
Morrem desgovernados.
Morrem de tiro, de faca, de facão.
Morrem de todos os gêneros.
Morrem de todas as raças.
Morrem de todos os males.
Morrem de todas as coisas.
Morrer por todas as causas.
Heróis morrem todos os dias.
De atos de palavras de fatos de omissões.
Heróis morrem à míngua.
Heróis morrem à toa.
Heróis morrem fuzilados.
Heróis morrem enforcados.
Heróis morrem em explosões.
Heróis morrem nas prisões.
Heróis morrem tão fácil quanto vasos se quebram.
Heróis morrem falidos.
Heróis morrem perdidos.
Heróis morrem de verdade.
E ainda que sobreviva o covarde,
heróis morrem todos os dias,
heróis morrem todas as vidas.


segunda-feira, 4 de abril de 2016

A febre da poesia




A poesia anda febril.
Agasalhada em adjetivos para sobreviver.
A poesia anda febril.
Fervilha suores e tremores os respondem.
A poesia anda febril.
Transpõe represas e transmuda horizontes.
A poesia anda febril.
Com seus espasmos e isquemias e ardores.
A poesia anda febril.
Arregaça as intenções e esgarça perdões.
A poesia anda febril.
E toma todos os cuidados para assim resistir.