quarta-feira, 29 de junho de 2016

Tantas histórias



Quantas histórias são iguais à tua. 
Muito título, pouco enredo.
Personagens irreais de tão réles.
O parco vocabulário das mentiras.
A previsibilidade da infâmia.
Capítulos desalinhados.
Começo, meio e fim antes mesmo de acabar.
Nem a água do batismo.
Nem o fogo da paixão.
Nem a mágoa que se preza.
Quantas histórias são iguais à tua. 
Tantas histórias...


Improvisos




Unhas compridas não são canetas.
E riscam poemas nas costas nuas.

Línguas afiadas não são espadas.
E cravam cortes em famas alheias.

Mentes criativas não são escadas.
E alçam improvisos em vias tortas. 


Supermercado






Não, eu não vendo sabonetes.
Parir um poema é dolorido.
Feito prisão de ventre.






Escravo



Das palavras sou escravo
-- escrevo para seus egos --
e de suas vozes sou arauto.
Um tanto de verdade em forma de poesia.
Outro de ficção feito verdade.
Não professo mentiras
nem profetizo cizânias:
tais horrores proliferam-se.
De amores desdenho.
As pausas dramáticas me encantam.
O estilo me falta, o humor me pauta.
Por palavras percorro dias e desesperos.
Com palavras resisto.
Insisto e faço-me forte.
Sou escravo das palavras,
escravo de vida e morte.



Haikai simples



de tão simples era reto
de tão reto era ponto
de tão ponto era imenso


Oratório



Orai por nós, orai por vós
Orai pelos espaços em branco
Orai pelas delicadezas
Orai pelos infiéis e pelos fiéis
Orai pelos lírios vazios de vida
Orai pelas vidas vazias de lírios
Orai pelos cautos e pelos incautos
Orai pelos santos e pelos incertos
Orai pelas criaturas da noite e do dia
Orai pelos quatro cantos da sala
Orai pelos quatro cavaleiros do fim
Orai pelos quatro pontos cardeais
Orai, orai, orai
Orai pelos cegos, pelos coxos, pelos surdos,
pelos que não têm voz, orai pelos mudos
Orai por mim, orai por nós, orai por vós.



terça-feira, 28 de junho de 2016

Das palavras



As palavras são tão rápidas.
As palavras, tão certeiras.
As palavras, tão sementes.
As palavras tão fáceis.
As palavras ferramentas.
As palavras no plural,
mesmo palavras singulares.
As palavras pelos ares.
As palavras pelos mares.
As palavras são tão raras.
As palavras, tão caras.
Queridas as tuas palavras.
Mesmo quando mentias...



Da revisão



O olhar além da porta.
A solidão dos batentes.
Quando calor e frio.
O cenário é líquido,
como um aquário.
A luz ofusca os dias.
A noite tece círculos na superfície.
O cio, a pele, o arrepio.
A valsa que o vento assobia.
O bailar das moças ilusões.
As palavras e o rascunho.
Viramos as páginas.
Depois da revisão.



segunda-feira, 27 de junho de 2016

Com nexo



com nexo
eu conecto palavras
sem nexo
e ainda chamo de poesia...



sábado, 25 de junho de 2016

Relógios




A verdade é ampulheta.
Você pêndulo oscila.
O meu pulso pulsa.
Suas horas após o sol.
O meu tempo é digital.
Um relógio de água descarta lágrimas.
Acertamos os ponteiros.
Despertei.



Do adeus




Falta uma pedra no tabuleiro.
Há homens sem alma.
Nem todo dia é santo.
Tem um pecado no prelo.
Vendem-se pães e peixes.
A caneta desidratada.
O caderno espiral.
Pela janela as cortinas acenam.
Os cães ladram.
Há ratos pela casa.
O pranto é provisório.
Uma chave pende na porta.
Fui embora quarta-feira. 



sexta-feira, 24 de junho de 2016

Nem pensar



Ao contrário do que o avesso contava,
estou claramente no breu da contradição
e a todos que pensam que sabem
e geometricamente não sabem que não sabem
ergo a taça tucuna de curare para curar e
ignorar a santa ignorância do ignóbil sábio.
Ao contrário do que pensam, nem penso.



segunda-feira, 20 de junho de 2016

A poesia de ontem



A poesia de ontem não vingou.
Adormeceu numa vaga, no vai e vem da vida.
Olhos mal abertos, mal fechados, vencidos.
No não da existência, insistiu em vão.
Na vazão dos rios vazios de verdades, vazou.
Vibrou no vácuo das roucas vozes.
A poesia de ontem não vingou.
No lugar dela, uma vela versejou.



quarta-feira, 15 de junho de 2016

Advérbio de amar




Todos os meus gestos são de amor.
Independentemente de.
Todos os meus fatos são de amor.
Simplesmente e profundamente.
Todos os meus gritos são de amor.
Exageradamente são.
Todos os meus medos são de amor.
Experientemente.
Todos os meus credos são de amor.
Obstinadamente ou em vão.
Todos os meus rumos são de amor.
Perdidamente.
O que dizer dos meus advérbios de modo?
Todos os meus modos são de amar...



terça-feira, 14 de junho de 2016

Esfinge




Mitos e mistérios vivem em nós.
Frases feitas e lugares comuns.
Decifrar, devorar: 
somos a carne,
somos o osso, 
somos a carne de pescoço.
Convivem em nós as contradições de sempre.
Os opostos atraentes.
As incoerências.
As discordâncias verbais.
Os talhos das nossas verdades
vertem sangue novo.
O plasma das nossas visões
vaza antigos jargões.
Somos pouco originais.


domingo, 12 de junho de 2016

Baú de felicidades



estrelas de glitter
lua de neon
mar de rosas
bolas de cristal
alma gêmea
amor incondicional
liberdade vigiada
lições de moral
vida eterna
ponto final 
Nem tudo é o que parece.



De um possível mergulho




Eram deuses desses que se estabelecem
silenciosamente
Eram feitos de sonhos e ossos
humanamente
Eram olhos incansáveis no horizonte
fixadamente
Eram mãos arrabatadoras e entrelaçadas
de uma pureza irrepreensível
Eram surpresa e cotidiano e curva e reta
sem qualquer retoque
Definitivamente
eram mergulhadores na vida e no eterno




quarta-feira, 8 de junho de 2016

Das inconsistências




Há vítimas das nossas inconsistências.
Luzes coloridas a imitar estrelas.
Prateleiras cheias de livros e pratos.
Cidades mortas de Lobato.
A fome matada a cachaça.
O doce amargo da trapaça.
O charuto apagado no lombo.
Da madrugada.
As costas cansadas de cruzes.
Encruzilhadas e tijolos a vista.
Dentes cerrados e o cerrado que resta
dentre tantas matas extirpadas da terra.
Há vítimas espalhadas pelo chão.
Sem identidade nem selo de garantia.
Sem carpideiras nem almas penadas.
As nossas inconsistências são além de tudo teimosas.


De pó compacto e de batom



Quem pintou um amor no espelho
e deixou borrões de felicidade na pia?
Pode não ser promessa nem segredo...


De onde eu vim



Fumaça é ar de onde eu vim.
Botina é moda.
As aparências enganam de onde eu vim.
Rock é galeira. Pop é porão.
Tribos andam de metrô de onde eu vim.
Bicicletas vão no último vagão.
Cinturão verde não é de super herói de onde eu vim.
Meio mussarela meio aliche.
Tem um monte de santos de onde eu vim.
São Bento. São Jorge. São Vito. Santanna.
Na zona azul se estaciona de onde eu vim.
Sinal é verde amarelo vermelho.
Sussurros sussurram a noite de onde eu vim.
Grafites grafitam morros e muros.
Todos os sons tocam de onde eu vim.
Fato ou fita. Fita ou fato. 
O fato é a foto de onde eu vim.
E a notícia do rádio dá bom dia a cavalo.
Ainda canta o galo de onde eu vim.



segunda-feira, 6 de junho de 2016

Raiz-forte



Raiz forte é dor arrancada da alma
Raiz forte é sabor de corte e de talho
Raiz forte é flor morta de fome
Raiz forte é tumor arado na terra
Corta o passado, rala o tempo
Faz tristeza arder de morte
Raspa a esperança, tritura a paz
Faz a receita acre a raiz forte



Sortilégio



O chá feito de ervas
Desenha na fina porcelana 
A forte imagem da serva



sábado, 4 de junho de 2016

Dos pesadelos



Eu poderia oferecer minha cabeça numa bandeja.
Ou deixar a porta entreaberta para você me encontrar mutilado numa poça vermelha.
Também poderia incluir você ao meu lado no carro desgovernado que sai da estrada.
Ou marcar as pegadas de sangue até a janela quebrada do sétimo andar.
Quem sabe a sombra do corpo pendente no lustre da sala projetado na parede.
A banheira de água fria poderia envolver o que restou de mim para você.
São quatro horas da manhã.
Meu espírito vaga.
Na porta da geladeira há um recado.
O pão acabou.



sexta-feira, 3 de junho de 2016

Das ervas daninhas




Dispenso ervas daninhas.
Igualmente lembranças espezinhadas.
Como descalço sandália velha.
Vai-se embora e leva o pó.
Fico com a estrada.
Melhor os caminhos aos recaldos.
Corto o caule seco e desfolho o ramo.
Livro a vida das inutilidades.
Inclusive as domésticas.
Não me comovem dramas ensaiados.
Nem o preço alto da gasolina.
Meu voo é cego e aterriso por aparelhos.
Não caio. Não cedo. Não corro.
No ritmo de um samba-canção,
prolongo o prazer e quero mais.
O dia surge com luz e calor.
Do lado de cá, saneio a vida
e escrevo um poema libertador.
Assumo, não me comovem as simplicidades.



Algemas




Com a linha do horizonte teci amarras.
Algemas imaginárias.
Prendi os sentimentos pelos pulsos.
Talvez mais forte do que devia.
Arranhei peles sensíveis.
Rasguei cicatrizes invisíveis.
Transformei irreal amor em ódio verdadeiro.
Quis colher estrelas. 
Quis mudar o mundo.
Quis riscar o fósforo.
Tanto, que tanto perdi.
Restou a linha do horizonte.


Do silêncio




O silêncio é cantiga antiga.
A memória que cala o eco.
Nem as pedras são tão duras.
Nem as pedras.
O silêncio é a corda no pescoço.
O silêncio é consolo e tortura.
O silêncio é o grito intestino.
Nem as pedras.
Nem o perdão.
Nem o destino. 



quinta-feira, 2 de junho de 2016

Capitu revisitada



Ela inteira. Ela íntegra. Ela imensa.
Ela a um passo da pureza.
Ela a um toque da malícia.
Ela flutua sobre certezas.
Ela mergulha em prazeres.
Ela sempre. Ela nunca. Ela talvez.
Era Capitu. 
É mulher.