sábado, 30 de julho de 2016

A noite dos sete poemas





Sete luas de Xidon.
Sete dias da semana.
Sete cores.
Sete de copas.
Sete vezes sete.
Sete ao quadrado.
Sete ao cubo.
Sete ao zero.
Sete a um.
Setenta e sete.
Sete poemas tem a noite.
A noite tem sete poemas.
Uns, de verdade.
Outros, apenas.


Do concreto




Cadernos, canetas, anotações.
Palavras e grafismos.
Letras sílabas encontros plurais.
Monto um poema com pedra e areia.
Cimento significados.
Rejunto significantes.
A argamassa do amor desandou.
Na pedra com giz escrevi seu nome.
O apagador apagou.

Do abstrato




O visível e o invisível.
O mundo entre dois mundos.
Fossem risos.
Fossem ralos.
Os ecos e o diagrama.
Somos atores, somos farsantes.
Dos males da intenção
às mazelas da consciência,
a ciência do sim e do não.
O invisível e o visível.
A cegueira entre dois pontos de vista.


sexta-feira, 29 de julho de 2016

Da parte que me cabe




Que primeira pessoa do singular é essa teimosia,
pretenso poeta, 
pretensa poesia?
Qual a razão para tamanha vaidade,
pretenso poema,
pretensa verdade?
Quantos versos precisos para uma só estética,
pretenso artista,
pretensa poética?
E na fila de tanta dúvida o que é afinal  a arte,
pretenso todo,
pretensa parte?


Desatinos




Não são tempos outonais.
Nem eram deuses meus ídolos.
De ausências inventou-se a verdade.
Visto ao longe era estrela.
Cegou-me, tão perto.
Palavras tridimensionais.
A lógica cartesiana.
A ferrugem e o inoxidável.
Não é provável que eu esteja certo.
Muito ao contrário.
O que me resta é um poema e alguns desatinos.
No mais, 
eram palavras tridimensionais.


Do pranto provisório




E então somos pranto.
E então choramos.
E então as lágrimas escorrem
-- antes corredeiras, então oceano.
E então a dor classifica a alma em láureas.
E então somos frágeis, piegas e sinceros.
E então somos o retrato três-por-quatro da verdade.
Provisórios como o pranto.


Como se fosse música




como se fosse música
eram pedaços de dor
como se fosse música
cerimônia de adeus
como se fosse música
elegia do ausente
como se fosse música
amor que não se sente
como se fosse música
ritos de passagem
como se fosse música
eram rasgadas claves
como se fosse música
eram notas celestes 
como se fosse música
o silêncio, o silêncio
como se fosse música


A última noite





Na última noite houve estrelas,
não muitas,
houve estrelas.
Na última noite houve palavras
e silêncios,
na última noite.
Na última noite, o onde
e o quando
comungavam.
Na última noite o lugar era sempre.
Na última noite a hora era ali.
Eram deuses os ponteiros do relógio
na última noite.
Eram homens em movimento.
Eram mulheres em harmonia.
Eram criaturas tomadas de paz
os habitantes da última noite.
Na última noite houve certezas.



sábado, 16 de julho de 2016

Palavras bonitas






Cefaléia é uma palavra bonita.
Mas dá uma enorme dor de cabeça.

Gonorréia era o maior temor na adolescência.
Hoje nem mais leva acento agudo.

A reforma da gramática deixou as palavras mais feias.
Até as mais bonitas.

Pompeia. Minha Pompéia. Raul Pompéia.
Avenida Pompéia. Via Pompéia.

Geleia. Geléia de morango. Geléia de framboesa.
Geléia de uva. Geléia de mocotó. Colombo.

Paranoia. Paranóias plurais e multilatitudinais.
Paranóias por todos os lados. Paranóia para todos.

Lambisgoia. Não passou de uma lambisgóia.
Foi-se embora além-Pasárgada. Morreu de sífilis.

O meu maior medo é morrer de qualquer coisa aguda.
E sem acento.



Cárdio




Meu coração nervoso.
Minhas veias entupidas.
Meu sangue alterado.
Minha vida, minha vida.
Tomo café e analgésicos.
A estética arde meus olhos.
A pimenta fere a língua.
As concessões, a alma.
O que é de mim senão poesia?
Os joelhos se dobram.
Os sinos dobram.
Dobram as folhas de rascunho.
A primeira vez foi esquecida.
A dilatação natural.
O feto.
Nasci de um rito.
Um azul irritante pinta o céu.
Um planeta azul em órbita.
As órbitas da miopia.
Sequer o espelho enxergo...


Recordar



Recordar é dar corda ao de novo.
Tomo banho de vinil dos anos 60
Tomo banho de poesia dos anos 70
Tomo banho de cinema dos anos 80
Saio com a alma lavada e uma baita duma saudade...

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Da vitória que virá




Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá 

Guilherme de Almeida


A covardia
A ignorância
A ignomínia
A intolerância
A histeria
A arrogância
Não vencerão 
A Liberdade
A Igualdade
A Fraternidade




segunda-feira, 11 de julho de 2016

Explosões 5



O fogo da vela reclama o breu.
Em si nasceste em si morreste.
São brechas de luz e sombra.
A pintura que brota do quadro.
A cruz e o crucificado.
As formas, as cores, os símbolos profanos e sagrados.
Explode uma veia.
E uma âncora surge tatuada no coração.


Explosões 4



Palavras explodem vida.
Dentro de mim há um deus feito de palavras.
Não sei o nome desse deus.
Deus é o verbo.
O verbo é a palavra da ação.
As palavras vivem.
Dentro de mim, a explosão.

domingo, 10 de julho de 2016

Explosões 3



Universo em universo
Explode um sol a cada gesto
Teu brilho de amor
Teu raio de caráter
Teu reflexo humilde
Teu lampejo de carinho
Teu fogo de nascer
Explode um sol a cada gesto
Universo a universo


Explosões 2



Sementes, sementes
Sementes que rasgam a terra
Florescência
Sangue nas unhas
Tinta cravada no papel
Poema nascente
Nascido poente
Um sol para cada dia
Explosão de silêncios em flor
Sementes, sementes


Explosões 1



Aspirinas, aspirinas
Tão luas quanto
Café, café
Tão quente quanto
Alvorada, alvorada
Tão sol quanto
Explosão de rotinas
Aspirinas, aspirinas


sábado, 9 de julho de 2016

Portantos




Portanto fomos queridos
Portanto fomos amados
Portanto fomos amantes
Portanto fomos inteiros
Portanto fomos perdidos
Por tão pouco...


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Passo




Tantas esquinas quanto encantos.
Tantos cantos de sereias.
Pode ser cidade.
Pode ser o fundo do mar.
Ou lugar nenhum.
Talvez um estado de espírito.
Talvez um número a mais no extrato de dores.
Créditos e débitos.
Na bolsa de valores da ausência.
Queria um tango, dancei um bolero.
E na gafieira da consciência um surdo marca o compasso.
Passo.




De amor, perdão e de ódio




O amor é fardo.
O perdão é farto.
O ódio é furto.

O amor é farto.
O perdão é fardo.
O ódio é fruto.

O amor é fruto.
O perdão é fato.
O ódio é fardo.

O amor é fato.
O perdão é furto.
O ódio é farto.

E todas as demais combinações são possíveis.



Julho frio




Julho frio.
Poemas de inverno.
Curtos. Encolhidos. Tímidos. Retraídos.
O sol da tarde consola. E parte, cedo.
A noite traz estrelas geladas.
A lua se agasalha em nossos olhos.
A via láctea posa para o pintor celeste.
A moldura infinita.
Onde a lágrima congela e a alma se espelha.
A imagem triste de um rio.
Julho frio.



Nenhum Tietê



eu me guardo em suas imagens
eu me perpetuo em preto e branco
eu me entrego a memórias amarelas
eu me trago na fumaça dos pensares
eu me mostro em suas lembranças
eu me faço de desentendido por você
eu me vou no leito do rio, nenhum Tietê...



domingo, 3 de julho de 2016

Pretensão



Pretensiosa, quis a memória 
ser maior
que a história