quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Puteiro




Ecologicamente,
a casa da luz vermelha
pôs uma luz verde na frente



Haikai da rima pobre




Piada de mau gosto:
assim, com desgosto,
acabou-se agosto...



Inútil




De que adianta ser honesto,
ir para a rua,
gritar protesto,
cantar os hinos, 
pintar o sete...
se a tragédia bisa farsa
e a história se repete?



Das medidas



Tão pouco sei. 
Tão pouco aprendi. 
Tão pouco conheço.
E quanto tento entender, 
acho tudo tão fútil, 
esqueço...



Ipê branco




Floriu sem avisar, o ipê branco.
Surpresa e ternura.
Em brandura e silêncio.
Pediu-me uma foto.
Uma fotografia,
clique de um milésimo de segundo.
Qual o que.
Minha vida louca.
Hora de ir.
Tempo de voltar.
Nova ida, outra volta.
Numa brisa fraca e franca,
o ipê chorou suas flores brancas.
Perdi a beleza da imagem, 
condenada à minha memória volátil.
A lição troquei por um poema, 
este, 
fraco e franco,
nem de perto à altura
do ipê branco.



terça-feira, 30 de agosto de 2016

Haikai do encontro




Diz a arrogância: tudo sei. 
Diz a vaidade: tudo sou. 
Diz a sabedoria: tudo sois.


Geometria




Cones agudos e linhas tênues.
Escolhas e escalas.
Qual a régua da verdade?
Qual o prumo da certeza?
Formas perfeitas me assustam.
Ajustam-se perfeitamente demasiado.
Não deixam espaços.
Não respiram.
Não existem.
Formas perfeitas e geométricas.
Enquanto isso, um poema torto se arrisca.
Oblíquo e espontâneo.


domingo, 28 de agosto de 2016

Das sombras do dia




Bate o sol da manhã.
É cedo.
Minha sombra me persegue rápida.
Hermes.
Meio dia.
Ao sol.
Minha sombra oprimida.
Prometeu.
Vai a tarde.
Cai o sol.
Minha sombra se desfaz  lânguida.
Quixote.
Vem a noite.
Luminárias brilham céus, multiplicam luzes.
Minhas sombras dançam.
Fantoches.



quinta-feira, 25 de agosto de 2016

É



e quando o fogo queima mesmo sem queimar
é quando o fogo queima mesmo sem
é quando o fogo queima mesmo
é quando o fogo queima
é quando o fogo
é quando o
é quando
é

Haikai imóvel





De tão poucas palavras que te movem
que te penso estátua
dessas que nem aos pombos comovem



Cortes e recortes





Recorto a revista
e corto o dedo.
O sangue jorra.
Recorto a nota
e noto o corte.
O dedo sangra.
Recordo o corte
e o sangue borra.
A nota jorra.
Recorto o dedo
e noto o sangue.
Anoto a morte.



sábado, 20 de agosto de 2016

Dias de luta




Nalguns dias sou cores e teimo em colorir o mundo.
Noutros sou palavras e cismo em poetar.
Há dias de silêncio quando a meditação tenta.
E dias musicais como se os acordes me acordassem.
Para os dias teimosos eu vivo em teimosia.
Os dias calmos não me acalmam, ao contrário.
Nem os dias de lamentos, lamento muito mas não sou.
Pelos dias de aprendizado eu agradeço.
Pelos dias modorrentos eu passo rápido.
Pelos dias de paixão sou apaixonado.
E há os dias de luta, esses são todos, 
um calendário pleno, total,
uma agenda incansável a me ocupar da maldade humana.



quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A cara do amor



O amor tem muitas caras.
A paixão tem apenas duas.
O amor tem muitas palas.
A paixão nem tantas.
O amor tem muitas alas.
A paixão é falha.
O amor tem muitas falas.
A paixão, monólogo.
O amor tem muitas salas.
A paixão no vestíbulo.
O amor tem pétalas.
A paisão tem máscara.
O amor tem seara.
A paixão, escara.
O amor tem todo amor
que a paixão acalentara. 


Remédio amargo




Na bula da droga mora o alívio das dores.
Parece poema; carece entender.
São os males momentos prontos.
Prontos tal unguentos e mezinhas.
Na falta de fé vale a faca.
Também o vinho e o alho.
De médico, de poeta e de louco.
Cada um tem seu pouco.
E entre tantos entretantos, 
mora a certeza.
E entre tantos remédios, 
vive o frágil.
É tão fácil ser difícil.
É tão difícil ser fácil.



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Dos santos últimos dias





Ao último momento da minha vida
terei sonhos, terei desejos, terei vida.
Aos meus santos últimos dias
terei amor, terei poesias, terei noites.
Não se iluda a certeira morte
que a revelia me ataque
ou que eu me borre.
Mais fácil tomar um porre
e outro começar.
Sonhos, vidas, poesia e planos,
eu os tenho e os terei.
Pois eles sou.
Pois são.
Lúcido ou não,
sonharei às últimas instâncias.
Levantarei e andarei por stratus cumulus.
Voarei entre nimbus e gotículas.
Gritarei liberdades e bordões.
Darei risadas trovejantes.
Cantarei desafinado.
Encenarei o primeiro ato.
Até esculpir ou pintar serei capaz.
E farei sempre um poema a mais.
A alegria viverei a cada momento.
O riso há de ser eterno parceiro.
O escárnio pelos covardes.
O desprezo pelos omissos.
O deboche pelos medíocres.
Que delícia ser o que sou.
Na medida ou desmedidamente.
Um ego a conferir.
Um agricultor da luz.
Um haikai, fugaz o tempo.
No máximo, darei trabalho ao seguro.
E viverei de velho.
Mendigo disfarce da criança que não cresci.



terça-feira, 16 de agosto de 2016

Maravilha




As sete maravilhas do mundo antigo,
As sete maravilhas da modernidade.
Mirabilis, as maravilhas de Mendel,
Puras e misturadas maravilhas da ciência.
As mais densas maravilhas do existir,
As maravilhas que nos habitam.
As maravilhas alícias do País das Maravilhas.
Maravilhas da natureza.
Maravilhas artificiais.
As maravilhas analógicas.
As maravilhas digitais.
São tantas e são muitas maravilhas.
Maravilhas plurais.
Singular, só Elke. 
Maravilha, para sempre.



segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Incançável



Quando alcançar o inalcançável,
entenderá.
Vai tentar tocar o intangível,
tentará.
Com os olhos ver o invisível,
sentirá.
Pelo sonho ir ao improvável,
buscará.
Pela doce boca o indizível,
contará.
E uma canção inesquecível,
cantará.
Deste mundo novo admirável,
partirá.
Para uma história infindável,
voará.



Do avesso




Eis o avesso.
O outro lado.
O lado de lá.
O que não é por si.
O que transgride.
O que transmuta.
O translúcido, diáfano, oculto disfarce.
A outra face.
O sem sentido.
O contrário.
O ímpar.
O ocaso.
O acaso.
O que não é certo.
O que não é reto.
O que não é perto.
Eis o avesso.
Que o espelho esconde e a vergonha permeia.
Eis o avesso.
Que sou.



domingo, 14 de agosto de 2016

Sem sombras




Por onde anda a luz, surgem sombras.
Sombras quase humanas projetadas nos muros 
Miragens. Borrões. Rascunhos. Espectros. 
Linhas e formas lembram alguma dor.
O passado desconhece remédio.
Apago a luz. As sombras somem.
Nem tudo é triste.
Os pesadelos podem ser divertidos.

sábado, 13 de agosto de 2016

Do farol




De que são feitos os arrependimentos?
Onde se forja o inevitável?
Quando é o tempo do imprevisível?
Em qual oceano mergulha o infinito?
Onde a lanterna apaga o escuro?
Por que o frio queima a cicatriz?
Procuro um farol.
O mar agita-se.
Sou incerteza e rumo.
Navego a vida.
Flutuo dores.


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Sem notícias




Quisera ter notícias a dar.
Em prosa ou verso, notícias.
Algo novo sobre o planeta.
Alguma coisa diferente do comum.
Minha caixa de ferramentas anda vazia.
Troncha. Melancólica. Retada.
Minha caixa de palavras tem saudade.
Como um olhar ao horizonte em cinza.
Ausente. Macambúzio. Distante.
Nenhuma música, nenhum cenário, nenhum querer.
Quisera ter notícias.
O dia é mais longo que a vida.



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Palavras cheirosas




O meu nariz extremo
em proporção e atenção,
lembra sim, lembra não,
relembra então 
o perfume do seu talco,
os odores do seu palco,
os amores cheirosos
e peidos gentis.
Tão cavalheiro o meu nariz...

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Bolero




Tu sabes muito bem
o que fizestes
e o que deixastes de fazer.
Tuas palavras, 
tua ação,
teu pecado e omissão.
Teu ruído pela soleira,
teu rastro de perfume,
tua fuga sorrateira.
Tu sabes muito bem
o que fizestes
e o que deixastes de fazer.
Tuas mentiras,
tua armação,
tua dissimulação.
Tua maldade,
teu vazio,
tua imensa falsidade.
Tu sabes muito bem
o que fizestes
e o que deixastes de fazer.



Poeticamente




A poesia se aproxima.
Silenciosa.
Sopra palavras.
Sussurra ideia.
Intui um todo.
Um inteiro poema.
Faz cócegas.
Provoca.
Atiça.
Excita.
Dita um verso.
Recita-se.
Pede um sentido.
Confere.
Audita.
Cita o poeta, irmana.
Reduz a universo a infinita poética.
Com alfinetes, 
prega num quadro imaginário 
sua reveladora fotografia.
O coração do poeta vibra.
É a cara da sua poesia. 



De homens de pedra




Pedras choram.
Pedras, sim.
Pedras choras como homens.
Homens choram.
Homens, sim.
Pedras choram perdas.
Homens choram perdas.
Homens de pedra.
Choram, sim.

sábado, 6 de agosto de 2016

Palavras queridas



Quisera palavras puras.
Palavras pacíficas.
Palavras luminosas.
Palavras bentas.
Quisera palavras fortes.
Palavras enérgicas.
Palavras solares.
Palavras ferventes.
Quisera palavras justas.
Palavras divinas.
Palavras ímpares.
Palavras limpas.
Quisera palavras boas.
Palavras fraternas.
Palavras singelas.
Palavras humildes.
Quisera palavras eternas.
Palavras vivas.
Palavras claras.
Palavras tuas.


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Velhas palavras



Encontro o que não procuro
nas melhores casas do ramo.
Não ofereço vagas 
para moças de fino trato.
Trato de esquecer o consumo
na maior liquidação do ano.
Deixo o pão nosso de cada dia
na padaria que serve bem para servir sempre.
Tão longe de mim, velhas palavras
acenam um último adeus.


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A corda e o laço




Qual a corda que te amarra?
Qual o laço que sufoca?
Tua pele enrugada de água,
teu calor em desperdício.
Tua mágoa sem beijo,
tem abraço vazio.
A porta do teu apartamento,
o corredor escuro.
Tua tristeza vai de escada.
Teu desespero, de elevador.
Não são muitos os remédios da tua ira.
Tão menos são os ódios da tua dor.

Coragem e paixão




Um tanto é preciso coragem.
Um tanto é desejável paixão.
Uma hora é a faca a cortar.
Uma hora é a lâmina no ar.
Um lugar é o aconchego.
Um lugar é a casa do escuro.
Uma  flor entra na história.
Uma história por uma flor.
Um desejo aquece o dia.
Um pesadelo gela a noite.
Uma dor é residente.
Uma ausência dói.


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Da pressa



Há uma pressa substantiva.
Uma pressa sem precedente.
Uma pressa desmedida e grave.
Há uma pressa sem revisão.
Uma pressa imperfeita 
e perfeitamente compreensível.
Há uma pressa invisível.
Uma pressa contida e continente.
Uma pressa que escapa às mãos.
Há uma pressa que prende e liberta.
Uma pressa presa e prisão.
Uma pressa em forma de pressão.
Há uma pressa urgente.
Uma pressa a apressar a alma.
Uma pressa a ultrapassar a gente.
Há uma pressa infalível.
Uma pressa competente e eficaz.
Uma pressa com o ontem que não volta mais.

Meu universo




Meu universo é canhoto e limitado.
Escreve torto por linhas certas.
É um pequeno universo e tão grande,
que infinito não lhe cabe em humildade.
Meu universo tem emoção e regra.
Bilateralidades e monoteísmos.
É um universo onde cabem dois
e onde o todo e a parte se entendem.
Meu universo ama e sabe amar.
Guarda segredos e lembranças, 
acorda cedo e dorme tarde.
É um universo notívago.
É um universo proparoxítono.
Meu universo tem vácuos e preenche a vida.
Quisera guardá-lo numa caderneta e levar comigo.
Em forma de poesia, num longo poema.
É quando ele, gentil, aconselha: sou rascunho.
Meu universo parece um mata-borrão.
E me abraça e me consome e me engole como tinta.



Do verbo ser




Ser moinho, ser monjolo
Ser farinha, ser paçoca
Ser um corpo que flutua
Ser a pluma que provoca
Ser a forma, o conteúdo
Ser o outro lado do mundo
Ser o verso, ser a prosa
Ser as cores da aquarela
Ser a cria, ser criador
Ser o artífice, o artesão
Ser o gesto e o respirar
Ser a essência e a displicência
Ser inteiro, ser completo
Ser o orgulho humilde do fazer
Ser o que se é e ser o que se foi
Ser o ser, ser o não ser.
E se for, ser o que se quer ser.


Um homem




Barcos de papel 
na corredeira de sonhos.
Leite de ideias
em constelações.
A simplicidade da areia
e a poeira da luz.
Arquiteto na lembrança,
escultor de toque sutil.
Se caminho, estrada.
Se revolta, estopim.


terça-feira, 2 de agosto de 2016

Outros dias




Dias de lutar
Dias de resistir
Dias a favor
Dias contra
Dias de umas
Dias de outras
Dias de plantio
Dias de colher
Dias de desejo
Dias apaixonados
Dias úteis
Dias nem tanto
Dias de calor
Dias gelados
Dias inteiros
Meios dias
Dias futuros
Dias no presente
Dias do passado
Dias assim
Dias assados...


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Romance




Floras e flores, florestas
e aquelas marquises cobertas
repletas de ramas e sonhos
além das cortinas, janelas
e eles cantavam cantigas
de amigos e amores
e modas modernas, eternas
tão ternas que a própria ternura
debruça na fresta do céu...