sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Seca



A garganta seca.
Faltam palavras.
Sobram causas.
A represa seca.
Faltam águas.
Sobram sedes.
A vida seca.
Faltam relvas.
Sobram velas.


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O último trem



Meu corpo é um escravo
pronto a se tornar caminho para a maria fumaça.
Meus membros são trilhos
a desenhar a rota única da estrada de ferro.
Minha vida é uma reta
sem direito a desvios atalhos paradas ou sinais.
Os dormentes que me sustentam
crucificam minhas costas e meu destino.
A brita rasga meu tronco,
abre as veias, filtra o sangue e tinge o rumo.
O solo a que chamam pátria é dor
desolação incredulidade desesperança fel.
Sou o último trem.
Sou o último homem.



terça-feira, 27 de setembro de 2016

Jornada




Quando a noite vai e o dia vem,
vem com o dia sua aflição.
Pela manhã desfiam lembranças de sonhos
-- bons, ruins.
Pela manhã o sabor de café e de pasta de dentes
se misturam.
Pela manhã o cheiro de terra molhada traz orvalhos.
Sobe o sol pelo ralo da tarde.
O sangue jorra pelo horizonte.
Pela peneira celeste vêm estrelas.
Quando o dia vai e a noite vem, 
vem com a noite a consolação.
Pela noite agulhas tecem o escuro manto
de concessões.
Pela noite jorram angústias e limites.
Pela noite tudo o que era real volta a ser sonho.
Uma nova jornada começa.


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Outra noite




As previsões são bélicas.
A estratégia dói no gesto.
A bofetada, no passado.
A válvula aórtica, no presente.
Quem disse que o coração não grita?
Quem pensa no coração não vive.
Uns sussurros contam histórias de amor.
Umas cantigas me convencem.
Faz tempo que o tempo é outro.
Outro dia, outra era.
Outra noite.



domingo, 25 de setembro de 2016

Ramelas




Olhos ramelentos.
A luz que dói.
O mosaico de lágrimas.
Não há um novo enredo.
Não é um grande roteiro.
Não crava o belo cenário.
Pode ser dor, poder ser sono.
Embalamos as ramelas 
como quem embala o próprio filho.
Ninar, ninar...



Sem rumo




Por vezes esqueço onde estou.
Perco-me na geografia.
Entre um pesadelo bom e a realidade,
é difícil a poesia.
Sem bússola e sem caminho.
Palavras não pavimentam estradas.
A coragem calada.
A cilada. 
A cidade.
A cidadela.
Meus cabelos azuis brigam com o céu.
Na melhor das hipóteses, estou perdido.
Consolo e verdade daqueles que não estão sós.

sábado, 24 de setembro de 2016

Experimente a solidão




Experimente a solidão.
Com música.
A meia luz.
Tenha um livro por perto.
Beba água.
Respire para você.
Inspire por você.
Toque-se em lembranças.
Tente ouvir o coração.
Sinta o sangue correr.
Pense em tudo.
Tente pensar em nada.
Disfarce reações.
Dispense futilidades.
Coce a cabeça.
Olhe em volta.
Olhe para dentro.
Olhe para o alto.
Ria.
Ria dos outros.
Ria de tudo.
Ria de você.
Deliciosamente: experimente a solidão.


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

No planalto central




No planalto central,
bebi o lago Paranoá
numa ressaca federal


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Do tempo da primavera




Chegue ao seu tempo, primavera
Não se perca sob a hera que cobre o muro das vergonhas.
Nem se deixa levar pelo ufanismo herege.
Chegue ao seu tempo, primavera.
Que a esta era não pertence adiar as flores.
Nem virar a ampulheta das areias herméticas.
Chegue ao seu tempo, primavera.
Como era do seu feitio antes dos dias rotos.
Nem que a isto dê sentido a hipocrisia.
Chegue ao seu tempo, primavera...  



quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Meus olhos tantos




Eu tenho dois olhos loucos
que me encaram no espelho
e me perguntam: por que?

Eu tenho dois olhos míopes
que se aproximam dos meus
e me enfrentam sem pudor.

Eu tenho dois olhos fracos
que me repelem e me condenam
nas mais distantes causas.

Eu tenho dois olhos secos
que se alimentam de dor
e me ensinam a ver melhor.



terça-feira, 20 de setembro de 2016

Damas e heróis

Damas e nem tanto.
Heróis e muito menos.
Personagens tão reais, ficção.
O que é provável na vida.
Uns fantasmas de fraque,
outros tão casuais.
Não por acaso, todos atrás
de uma assombrosa realidade.
Vestes rituais e fantasias.
Preces mal feitas e pragas rogadas.
São atalhos da nossa existência.
São retalhos das nossas idéias.
Nem todos os vivos estão mortos.
Há um cheiro de gente no ar
e uma esperança de voltar.


domingo, 18 de setembro de 2016

Antologia




Antologia.
Guardados e guardanapos.
Cadernetas e calendários.
Perdidos e achados.
O poema não cabe na memória.
O verso extraviado pela vida.
Roupas velhas, velhas respostas.
Para que colecionar dores?
Ou livros? Ou discos?
As fotografias perderam as cores.
A minha música não toca mais.
Nem mesmo há música.
O cinema, fechou.
Virou um templo.
Depois, mercado.
Hoje é academia.
Também fecharam a biblioteca.
O teatro, a livraria.
Guardei num bolso toda poesia.
Antologia.



Por enquanto



Faz do tempo o tempo teu.
Faz do espaço o horizonte.
Faz das horas o prazer.
Faz da sala o teu quarto.
Faz do instante o perene.
Faz do talco o teu perfume.
Faz das manhãs a preguiça.
Faz do teatro o outro palco.
Faz do sol o teu relógio.
Faz da chuva um falso pranto.
Faz da cena a tua vida.
Por enquanto. Por enquanto...



Imperfeito



Pouco importa o como foi feito.
Nem se faz conta de tanto tempo.
O que eterno seria, foi imperfeito.



Toda a força



Toda a força dos desejos.
Toda a força das concessões.
Toda a força da esperança.
Toda a força dos encontrões.
Toda a força das enxurradas.
Toda a força das decisões.
Toda a força das palavras.
Toda a força das emoções.
Toda a força do hábito.
Toda a força do hábito.
Toda a força do hábito.



Sábado



Dia de fazer bolhas de sabão.
Dia de jogar milho aos pássaros.
Dia de beber água de coco.
Dia de comer pipoca doce.
Dia de brincar de chapéu.
Dia de fazer careta pra câmera.
Dia de viver as sete maravilhas da simplicidade.



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Oceanos



Por todas as dores que cabem nas mãos,
navego mares turvos e mergulho abissal.
Para não ter lágrimas nem lamentos.

Meus rumos são correntes frias,
a tristeza que é minha é profunda.
Para um naufrágio anunciado.

Por tanto amor tamanha mágoa,
em palavras esculpidas nas falésias.
Para contar o passado das águas.   



quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Era vidro




Veias sem sangue.
Olhos vazios.
A secura do caráter.
A verdade provisória.
Um velório sem cadáver.
A negação da memória.
Cordas e nós.
Fios desencapados.
A dor do parto.
Uma cólica renal.
Cada palavra é uma morte.
Não há ressurreição.
Esperança é um espelho embaçado.
O vidro da janela trincou.
Nem é mais o anel que tu me deste...



Traquitana




Ando de poucas palavras e de poucos amigos.
Palavras antigas sussurram ao meu ouvido.
Formam cenas. Desfilam sabores. Trazem cheiros.
A quitanda com suas frutas maduras e coloridas.
A lojinha e o seu balcão de vidro e escura madeira.
A doceira com gosto de chantilly azedo e falsa cereja.
Na esquina a traquitana solta fumaça sobre a memória.
Ando de poucos amigos e de escassas palavras.



Um setembro




Objetos e cotidianos falam de coisas que eu nem lembro.
Uma caneta, uma quinta-feira, um caderno.
Na última prateleira da estante vive um setembro.



Colares de contas


Colares de contas
Contas contadas
O que a vida espera?
O que se espera de mim?
Dou o que tenho.
Dou poesia.
Com todas as letras.
Com palavras e atos.
Pensamentos e emoções.
Meus colares de contas.
Contadas.



domingo, 11 de setembro de 2016

Definitivamente



Então, entre a rua e a lua, 
onde qualquer buraco me engula
a rever a dor que a vida esconde.


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Inconcebível



Não, eu não concebo a vida sem Humildade.
Como se a flor houvesse sem pétala, oceano sem água.
Se o Bem preterisse a Bondade e o bom, a Verdade.


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Devaneio




Se eu escrever um poema de amor você surta?
E se meu filme de eterno amor for um curta?
Pouco me resta do amor, apenas o que se furta.



segunda-feira, 5 de setembro de 2016

De Nova York a Hollywood




Não contem para ninguém
Que ao lado do meu bem
Disfarçadamente chorei como ninguém
No filme do Woody Allen
"Sonhos são sonhos", dizem
Uma além, outro aquém...



domingo, 4 de setembro de 2016

Santa Teresa de Calcutá


No meu coração Teresa é santa.
Não conheço Calcutá.
Nunca viu um milagre.
Nem bem caridoso sou.
No meu coração Teresa é santa.
Em Teresas.
Em Marias.
Em Joanas.
No meu coração Teresa é santa.
Entre tantas.
Entre todas.
Entre nós.
No meu coração Teresa é santa.



Setembro negro




Que tempo triste.
Que tempo roto.
Intolerância.
Ignomínia. 
Que tempo perdido.
Que tempo troncho.
Violência.
Destruição.
Que tempo duro.
Que tempo torto.
Desesperança.
Contrição.
Que tempo triste.
Que tempo roto.
Que tempo escroto.


sábado, 3 de setembro de 2016

Da sinceridade




A sinceridade é uma arte, marcial,
vai muito bem com açúcar,
é intragável com sal