segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Da ressaca



Querem as marés revoltas
encantar nossos olhos
e destruir os sonhos


Da liberdade



Entro em casa.
Fundo respiro. Expiro.
Livre da poluição.
Tiro o relógio.
Livre das horas.
Tiro o paletó.
Livre do peso.
Tiro a gravata.
Livre da forca.
Tiro a camisa.
O sapato, as meias.
A calça, a cueca.
Livre da armadura.
Tiro a alma.
Livre da poesia. 


sábado, 29 de outubro de 2016

Tão simples




Parecem anjos os amigos.
Lágrimas de vitória são doces.
Palavras podem ferir.
Temperatura é somatória de calores.
Custam pouco os carinhos.
Amor é causa e consequência.
Um bom livro vale ouro.
Nem tanto sal, nem tanto açúcar.
O sol alimenta e a alma esquenta.
Lugares-comuns assim o são.
Tão simples quanto sorrir.


Recados na geladeira




Pegar ingressos no teatro
Eu te amo
Comprar leite desnatado


Amor 3x4



Esse amor minúsculo
Não passou do primeiro ato
Não rendeu um trailer
Nem retrato três por quatro

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Recortes paulistanos



São Paulo em recortes.
Ruelas desaguam em avenidas.
Ladeiras, em memórias.
Os olhos miram as partes.
Admira-se em fatias.
De pizza inclusive.
O céu cortado pelos prédios
um dia chamados de arranha-céus.
Há paredes pichadas.
Moradores das ruas.
Cheiro de mijo.
Pastéis de queijo.
De vez em quando uma buzina
desata o transe.
O transeunte é paulistano inglório.
A letargia desafia as pálpebras.
Um sono que não dorme.
Dragões e bruxas e duendes cheiram cola.
Pilares da pauliceia desvairada e virada ao avesso.
Virado à Paulista.
Faixa de segurança.
Farol vermelho.
Um olho cego, outro no espelho.
O leque oriental enlaça o ocidente.
Travesso moleque anda descalço na São João.
São Paulo sem retoques.



quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Náutica




Não calam o lamento
mas levam os barcos
os ventos


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Delicados pormenores




Nem tudo é belo.
Nem tudo é tênue.
Delicados pormenores,
traços do perfil.
A lista de flagelos.
O engodo e a piedade.
O perfume inodoro.
O elevador parado no andar.
A porta trancada por fora.
O lado de cá da muralha.
A mortalha. 
O copo quebrado, o espelho ao lado.
Um prato raso no lugar do fundo.
A cor do fim do mundo.
Livrai-me, Senhor, do lembrar.
Principalmente dos pormenores.


Colecionar estrelas



Sentimentos opacos.
Veladas tristezas.
Amores obtusos.
Escuras lembranças.
Momentos distantes.
Instantes, lamentos.
As palavras pelo chão.
Tapete mágico.
Feiticeira paixão.
O pó do brilhante virou grafite.
Eu apenas colecionei estrelas.


domingo, 23 de outubro de 2016

Amor cerrado



O tronco tatuado 
Coração de musgo
Amor cerrado


sábado, 22 de outubro de 2016

TEATRO



São cavalheiros mascarados
São damas de adrenalina
Personagens desencantados
Cortina de papel crepom
Gotas de chuva de purpurina
Luz na ribalta das emoções
Tão falso sol tão fria lua
Estrela de pouco brilho
Cenários em labirinto
A vida estroboscópica
A morte cenográfica

Desde o começo




Desde o começo houve música.
Desde o começo houve cores.
Desde o começo houve credos.
Desde o começo houve medo.
Desde o começo houve juras.
Desde o começo houve rimas.
Desde o começo houve riso.
Desde o começo houve rímel.
Desde o começo houve mel.
Desde o começo houve sim.
Desde o começo houve não.
Desde o começo houve então.
Desde o começo houve fim.


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Pavio curto




Ando de pavio curto.
Pouca paciência.
Tolerância nula.
De mal com a sombra.
Sem condescendência comigo.
Auto-flagelo.
Humor estragado.
Cara de poucos amigos.
De tromba.
A pisar na própria sombra.
Bílis negra.
Inquieto, irritadiço, nervoso.
Ruim da cabeça.
Doente do pé.
Não me venham com sambas-canções.
Tragam-me boleros.


Repertório




Fazia parte do repertório
viver de arte sem luxos e
também aquém das misérias,
sem contar com precatório.

Marcar com manifesto o terrítório 
e fazer chuva de poesia
dos prédios altos de São Paulo
aumentava o repertório.

Que se preze o repertório
recheado de rimas pobres
e de riquíssimas narrativas
ao sabor do aleatório.

Transformar um relatório
da mais pura engenharia
em forma de versos bem humorados
enriquecia o repertório.

Como entrou para o repertório
admirar as putas e os travestis
na esquina da Regô Freitas
com a rua Major Sertório.

E sair feliz do ambulatório
depois de uma sessão de soro
e gligose providencial
para registro no repertório.

É tão denso o repertório
pois reconhecer hoje é fato
ao filho teu que encara a luta
Praticamente obrigatório.

É lembrança, é notório
que tudo o que foi feito
em nome da vida e do malfeito
ampliou, marcou, abençoou o repertório.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Meu tempo




Meus castelos de areia têm torres de palavras e portas gramaticais.
Meu sofá é minha praia, minha Tambaba virtual. 
Meus referenciais são humildes e sem contra-indicações.
Meu currículo não passa de uma folha.
Meu ideário não toma partido, toma cangibrina.
Meus mais sinceros votos de felicidades são reais.
Meu calor provoca suores, meus suores provocam.
Meu presente ri do passado e do futuro.
Meus pendores pendem da infinito.
Meus labores são insuficientes para a aposentadoria.
Meu humor, meu amor.
Meus humores, minhas dores.
Meus cantos não se ouvem impunemente.
Meu lamento é mudo e imutável.
Meus desejos são melhores à noite.
Meu abraço pode causar arrepios.
Meus arrepios, nem todos são controláveis.
Meu controle é difícil, remoto.
Meu samba não se aprendeu na escola.
Meu futebol é muito, muito ruim de bola.
Meu epitáfio jamais será autoral.
Meus vivos e meus mortos me amam infinitamente.
Meus dias têm a minha marca.
Meu resumo é impossível; minha síntese, interminável.
Meu poema é minha Ítaca, meu Portugal, meu torrão.
Meu tempo é inoxidável. 

Do intangível



O intangível veste a máscara do teatro.
Ganha a forma do sonho.
Disseca o desejo e o divide à mesa.
O intangível vive o drama e a comédia.
Traz a verdade na veia.
Transmuta em diversidade o finito.
O intangível vaza pelo proscênio.
Personagem do irreal.
Faz da fantasia nosso mais provável último ato.


sábado, 15 de outubro de 2016

Liberdade, liberdade




Liberdade, liberdade:
quão cara foi essa luta
para hoje contar moedas.
Chamar nostalgia à saudade,
fazer poesia sem medo e
dormir de janelas abertas.
Noves fora, os mimeógrafos
entraram para a história
sem lendas nem rituais.
Depois do trópico de Capricórnio,
a travessia do Atlântico e
Paris em cartões postais.
Liberdade, liberdade:
ontem foi mais um dia
na indiferença dos normais.


Haikai de um novo ditado




Quem parte
reparte
fico com minha arte

Da secura



São cordeiros e pastores.
Filhos pródigos e perdidos.
Pais de prantos secos.
Tantos, tantos.
São solitários e eremitas.
Fantásticos e fantasistas.
Retratos de vidas secas.
São medíocres e letrados.
Fábulas sem história nem moral.
Sementes de mentes secas.


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Metades




A divindade
rompida ao meio
gerou nossas metades



terça-feira, 11 de outubro de 2016

Singular e plurais



Sou um pouco do muito e não sou nada.
Quando sou multidão não sou ninguém.
Talvez seja surpresa e jamais rotina.
Tantas palavras e nenhuma definição.
Mais do que algo sou possibilidades.
Mais do que possível sou algo que pode ser.
Ou não ser.
Além das questões existenciais e aquém do existir.
Tantas palavra singulares e nunca seremos plurais.


domingo, 9 de outubro de 2016

O muro




Enquanto eu colecionava palavras,
você brincava com sentimentos.
Tão diferentes passatempos.

Enquanto eu escrevia roteiros,
você terminava uma história.
Tão opostas as nossas glórias.

Enquanto eu inventava dramas,
você tramava uma comédia.
Tão invisível a tragédia.

Enquanto eu criava raízes
você pisava em fuga o chão duro.
Tão impossível qualquer futuro...


Tuas unhas




Não, não fomos felizes.
Tuas unhas marcaram minhas costas,
menos que teus deslizes.



Linhas tortas



Era um caderno pautado.
Cada folha tinha linhas tênues. Retas.
Linhas que aceitam versos.
Linhas que recebem parágrafos.
Linhas que levam histórias.
Era um caderno de histórias.
A sua história. A minha história.
Uma história que nunca foi nossa,
nem seria em linhas retas.


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Do caráter anão



Homem de poucas palavras
e de caráter anão:
para ele, o não era sim
e o sim era não.


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Navegar



As lágrimas secam.
As mágoas demoram um pouco mais.
O oceano jamais.
Por isso navego.
E a nave vai...


Crônica de um poeta anunciado

Rabisco letras e junto fios e linhas em barbantes. Desenho palavras como quem tece histórias. Escolho imagens, fotografo com a córnea, resgato sonhos e me refastelo em pesadelos. De tanto fazer poemas saudades tenho do cronista. Aquele dos olhos fixos nos bondes que não mais existem. Nos trens idos. Em estradas que levam ao horizonte. Aquele cronista encantado pela música. Por canções esquecidas. Esquisitas algumas. Por acórdãos solitários e acordeons afinados. Letra e música, imagem e ação. O cinema toma as mãos do cantador de histórias e o leva à fantasia. Se a crônica é um instantâneo em forma de prosa, o cinema é o movimento inevitável do escritor envolvido por sua história. E o cronista escreve o roteiro do seu dia. Recorta um fato do jornal. Comenta com o balconista da padaria entre o pão na chapa e um pingado.Confere a tabela do campeonato. Olha a moça que passa. Reclama da carestia. Denuncia a corrupção. Brada pelos direitos sociais. Debate o desemprego. Derruba o governo e compra um maço de cigarros no caixa. É hora de trabalhar. A noite mal dormida, dividida entre folhas rabiscadas, poemas corrigidos, insônia movida a café amargo. O cartão de ponto. O dia dividido em horas, as horas em quartos, os quartos em terços.  Outros papéis. Outro cenário. A vaidosa burocracia recheada do medíocre. Cinco para meio-dia. Eu nunca fui um bom empregado. Bandeijão (assim, com i, arroz e feijão), café, cigarro, baralho, os quatro naipes dançarinos. Bati com a mesa. Bati o cartão. Mais quartos de horas a vencer. Imagino poesias onde não cabe o carimbo. Seria tudo imaginação se fosse eu um criativo. A realidade é uma dissertação. Passaram quartos, horas, dias, anos e décadas. Passaram bondes.Passaram papéis em branco. Fumei, parei. Bebi, parei.Escrevi, parei. Amei, parei. Brequei e não parei. Bati o carro. Bati com as dez. Bati na porta e o eu presente veio abrir. _Prazer, poeta. -- _Prazer, cronista. Se a cobra engole o seu próprio rabo, Deus me livre de serpente. É muito humano peidar. Desumano é cacarejar e botar ovo em pé. Amanhã de manhã, na padaria, o balconista vai dizer que o sonho acabou.Tudo bem. Um pingado e um pão na chapa. Na graxa, por favor. 






terça-feira, 4 de outubro de 2016

Velhas imagens




Parecem pinturas.
Retratos de família.
Cores pastéis. 
Desbotado passado.
Notícias velhas, velhas imagens.
Pálidas mandalas.
Litogravuras.
Cartões postais.
Saudades aquarelas.
Molduras artesanais.
Há tão pouco de novo nas paredes...

Haikai triste




São tristes as noites vazias.
Tão tristes quanto as ausências.
Mais tristes que as tardes frias.



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Mimos




Dois vinténs e nenhum dinheiro.
Quanto custa um carinho?
A flor na natureza é bela.
Selvagem e bela.
Pequenas demonstrações de afeto.
Imensidões.
Como são cruéis as gramáticas.
Dentro de mim ebule um deus.
Diferente do Deus maiúsculo, onipotente,
onipresente, onitudo.
Dentro de mim agita um deus mudo.
Mudo e carinhoso.
Meu deus mudo acolhe, acarinha, aceita.
Realiza mimos divinos.
De graça.
Dê graças, são belas as flores na natureza.
Dois vinténs e nenhum dinheiro.


Porta aberta



Quantos pronomes possessivos
para nenhum amor.
Pois quem ama, não tem.
Quem ama, é.
Quem ama, está.
Quem ama, vem.
E se vai com amor,
quem ama, volta.