sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Fluido





Por vezes, o poema passa ligeiro.
Fluido. Fácil. Aéreo.
Com tal velocidade frente à janela.
Corrido, apressado, fagueiro.
Que se perde do poeta numa brisa.
Num piscar de olhos.
No átimo de um lamento sincero.

O outro



Eu tenho medo de mim.
Eu tenho tanto medo de mim que me escondo no espelho.
Onde tudo é avesso eu tenho medo de mim.
O meu lado direito não saiba do meu lado esquerdo.
Que tem medo de mim.
O meu olho esquerdo não veja o meu olho direito.
Não encare.
Não repare.
Não escancare o medo de mim.
Eu tenho medo de mim.
Dos meus pedaços, dos meus cacos, dos meus retalhos.
De mim inteiro.
De mim intestino.
Eu tenho medo intestino de mim.
Do lado de dentro.
Da banda de fora.
Derme. Epiderme. 
Do estrato córneo. Do estrato lúcido.
E do louco.
Tamanho é o medo que eu tenho de mim.
Tamanho, que dá medo do medo.
De tal monta que se torna um arremedo.
De mim.
E assim, de medo em medo, eu me guardo.
De ti.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A conta-gotas



Os dias escorrem a conta-gotas.
Alguns, a fio de lágrima.
Uns tantos indiferentes.
Ontem se foi sem deixar aviso.
Nem risco de batom no espelho.
Sequer recado na porta da geladeira.
Hoje começou antes da aurora.
Os sonhos líquidos.
O amor líquido.
O sabonete líquido.
As contas chegaram.
O gás acabou.
A caravana passa.
Os cães ladram.
As notícias velhas.
O café frio.
O sorriso banguela.
Ramela nos olhos.
Ressaca na alma.
O almoço, o jantar.
Trabalhar, trabalhar, trabalhar.
Hora extra, ovo frito e sopa de feijão.
O avião que cai.
O amigo que vai.
O telejornal. 
A novela.
O filme ou o futebol.
O sono.
A chuva abre a madrugada.
O cheiro de terra.
A insônia.
A angústia.
A anemia de mais um dia.
O amanhã antes da hora da nossa morte.
Amém.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Do espaço da memória



Meu voo solo faz uma escala no vazio.
É o espaço da memória que não tortura.
Nossa inocência fatiada a lâmina fria.
Foi um sujeito oculto de predicados nulos.
Não é exatamente o culpado pela situação.
Mas a explicação é bastante aceitável.
Estamos a um palmo dos nossos limites.
A tolerância que não é.
O altruísmo que não veio.
O feio que é bonito, o bonito que é feio.
Ser contemporâneo é inevitável. E óbvio.
O óbvio distante da nossa felicidade.
Não fomos, não somos, nem seremos.
Poetas deitam profecias.
Profetas preferem poesias.
O lado humano não está ao seu lado.
O lado humano cedeu à barbárie.
Nunca fomos tantos nem tão sozinhos.
Quem guardou os comprovantes do malfeito?
As gavetas estão abarrotadas de limo.
O bolor acumula no pão nosso de cada dia.
A violência não rima com as nossas filhas.
E violentadas são as nossas meninas.
Sem paralelos, nem meridianos.
A coordenada do nosso medo é polar.
Temos medo do frio.
Temos medo da fome.
Temos medo da morte.
Temos medo da solidão.
Deixamos a esperança na caixa da realidade.
Fugimos feito pássaros da floresta.
Descobrimos o concreto da cidade.
E nos deixamos levar por promessas.
Liberdade, liberdade.
Livrai-nos das ilusões, da falta de razão.
Livrai-nos da execução sumária, da pena máxima.
Livrai-nos da pequenez, da conivência.
Livrai-nos do esmagamento da consciência.
Aterrizo minha nave-mãe no vazio da alma.
O espaço da memória que não machuca.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Compasso



Dança.
Baila.
Valsa.
Gira.
Roda.
No compasso.
Ao som da vitrola.
Perfídia.
Hipócrita.
Frenesi.
Alguém como tu.
Traça pontos cardeais no piso encerado do salão.
Então perca-se no pasodoble. 
Comigo.


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Palavras e gestos



Tão distantes nossas palavras dos nossos gestos.
Elas tão diretas. Eles, oblíquos.
E quando dizemos "te amo", quantas verdades incompletas.
Fossem nossas palavras galinhas, seriam mais cacarejos do que ovos.
Fossem nossas palavras moedas, teríamos mais lata do que dinheiro.
Tão distantes nossas palavras dos nossos gestos.
Coerência da boca pra fora, hipocrisia livre aos ventos.

sábado, 24 de dezembro de 2016

O poema invadido



Carlos Fácil e Marcos Fracasso
invadiram o meu poema.
Não que houvesse pendenga,
nem problema.
Poesia cabe personagens.
Poesia leva roteiro.
Poesia aceita cenário.
E nesse quase-teatro,
Carlos Fácil conta da vida as dificuldades.
Marcos Fracasso narra seus mal sucedidos passos.
A função do poeta se limita a ouvir.
E imaginar o quanto de verdade cada palavra revela.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Dias de frio



Eram dias de frio.
O calor cedia em  gelo cortante.
O espelho embaçava.
Eram dias de apreensão.
Filho enfrenta pai.
Irmão contra irmão.
Eram dias de perda.
Medos em todas as portas.
Temerária senda.
Eram dias ocos.
Procurávamos.
À toa, ao léu.
Eram dias de fuga.
Escorriam homens pelas fendas.
Ratos transbordavam aos ralos.
Eram dias para desintegração.
Do nada éramos talco.
Ao pó voltávamos.
Eram dias inéditos.
Às lembranças eram imunes.
Afrontavam a memória.
Eram dias impunes.
Não se sabiam as penas.
Não se contavam os dias.
E assim eram dias incontáveis.
Esses dias de morte sem sursis.
Sem apelação nem contraprova.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Equador de mim




Todos os alertas foram dados.
Havia sabores, havia toques.
As mãos ensinavam carinhos.
Ensaiavam as unhas romper a tecitura.
As peles de lobos e de cordeiros.
Gestos de integridade contraíam em sístoles ediástoles.
O acaso nascia com a manhã.
A verdade era sol, era lua, era estampa.
Flores eram flores.
A água jorrava em fonte.
O medo, esse desvio acidental.
Nem ele. Nem você.
A força batia no horizonte. 
Ia e voltava. E ia.
Repetições da vida.
Dança de criaturas.
Quadraturas interplanetárias.
No equador do meu planeta havia calores.
Como havia toques e sabores.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Da dor do poeta a dor da poesia



Pode parecer hipocrisia, abstinência doentia
Ou falso orgulho das peripécias e ousadias
Mas só o poeta sabe quanto dói a poesia


Haikai do negro vendedor de bombocado (para Ricardo Soares)





Vai passando a queijadinha
Olha a queijadinha, menina
É gostosa, está quentinha...



sábado, 17 de dezembro de 2016

três gaivotas




Como três versos de haikais
Três gaivotas rasgam o azul
Uma vai, outra vai, outra mais


Da prateleira do destino




Por onde anda? 
Perdi seus dias.
Com eles perdi suas noites.
Noites destacadas em negrito.
Noites de amor em caixa alta.
Noites de rimas pobres tão expressivas.
Por onde andam as virgens de porcelana das lendas que não vivemos?
Perdi-me delas.
Pediram, não ouvi, nem houve.
Por elas desisti da realidade.
Pelas virgens alvas de porcelana.
Pelas tintas das telas e das paredes da cela. 
Por onde anda a vida de antes?
Perdi meu tempo.
Perdi o tempo que não foi meu.
Perdi um relógio e suas horas.
Você, as virgens e o relógio estão juntos em alguma prateleira do destino?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Perto do fim do mundo




Perto do fim do mundo.
Onde moram desesperos.
Onde convivem perdas.
Onde o sol não vem nem lua.
Perto do fim do mundo.
Entre gelo e grotas.
Entre gritos sem ecos.
Entre o grave e o agudo.
Perto do fim do mundo.
O encontro de homens e mares.
Os desfiares de rotas, descaminhos.
O pergaminho, a rota do vazio.
Perto do fim do mundo.
Bem perto do fim do mundo.


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Do passado que insiste





Males funestos escondem-se no tempo.
O passado oprime.
O passado reprime.
O passado deprime.
O passado se faz de hoje.
O passado destoa.
O passado destila.
O passado desafia.
O passado desfila mentiras.
O passado minúsculo.
O passado mesquinho.
O passado mordaz.
O passado a morte traz.
O passado provoca.
O passado evoca.
O passado desfoca.
O passado choca feito cobra na toca.
O passado à revelia.
O passado fantasia.
O passado rebeldia.
O passado nosso de cada dia.


Das incessantes dores



A dor diagnóstica.
Ensina-me a sobreviver.
A dor agnóstica.
Lembra-me de crer.
Ou não crer.
A dor hipnótica.
Distrai-me da verdade.
A dor crônica.
Entrega-me ao sofrer.

domingo, 11 de dezembro de 2016

As nossas dores




Eu não quero que a minha dor doente
desperte a sua dor latente.
As dores não se compensam.
A dor da minha história crônica.
A dor da espera e do desespero.
A dor dos pecados e dos malfeitos.
A dor dos analgésicos espalhados no chão.
Toda essa é a minha dor.
Uma dor tão minha que não deve despertar a sua.
Uma dor que se esconde nas entranhas.
Uma dor que se camufla.
Uma dor que se resigna.
A minha dor.
E enquanto a sua dor descansa,
a minha dor se esforça em disfarçar.
Pois das dores, das nossas dores,
a minha não deve ser sua.
E a sua deve dormir até findar.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Escrever, fazer poesia




Escrever é resistir.
Fazer poesia é resistir sem temer.
Escrever é existir.
Fazer poesia é existir com emoção.
Escrever é redigir.
Fazer poesia é redigir com paixão.
Escrever é exigir.
Fazer poesia é exigir sem conceder.
Escrever é advertir.
Fazer poesia é advertir com razão.
Escrever é insurgir.
Fazer poesia é insurgir sem rachar.
Escrever é ferir.
Fazer poesia é ferir sem sangrar.
Escrever é abolir.
Fazer poesia é abolir sem escravidão.

Da manhã




A manhã é indiferente ao dia.
Vem de qualquer modo.
Vem com todas esperanças e aflições.
Vem a enfrentar o escuro.
Vem ponto a ponto de luz.
Vem de casaco e sem guarda-chuva.
Vem com verdades e mentiras.
Vem com cheiro de café e pão torrado.
Vem devagar e sempre.
Vem com a hipocrisia do ontem.
Vem com o descompromisso de amanhã.
Vem da lembrança dos pesadelos.
Vem a assombrar os covardes.
Vem com o poder divino do existir.
Vem com desdém e vai além.
A manhã é indiferente ao sofrer.
A noite nos abriga.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Estado de emergência



A vida destrilhou.
A janela à esquerda está fechada.
A janela à direita está trancada.
Somos passageiros de uma composição fantasma.
As portas estão emperradas.
A comunicação teve seus cabos rompidos.
A correspondência extraviou.
Estamos sem notícias do mundo.
Se é que o mundo ainda existe.
Trancafiaram nossas intimidades.
Junto à pouca inteligência que resiste.
O motorneiro morreu. 
O foguista escafedeu.
O estafeta virou pombo e voou.
Somos passageiros sem destinos.
De túneis e de passagens de nível o passado foi.
Chamou-se noite. 
Firmou-se breu.
Bebeu-se fel.
Na parede suspira o aviso.
Em caso de emergência quebre o vidro.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Coágulo




O sangue estanca.
O corte fecha.
A dor anestesia.
A verdade cala.
O exemplo cessa.
O medíocre cansa.
A voz descansa.
A vida escassa.
Lágrimas não coagulam.


Haikai do tempo perdido




Relógios sem ponteiros, ampulhetas vazias.
A dança das horas.
Que enorme perda de tempo a esperança.


Palavras quadradas




Algumas palavras quadradas,
líquidas, em suas celas
amoldam-se aos bons costumes
e misturam-se aos covardes
numa pasta de política e estrume.
Enquanto isso, no céu,
uma lua minguante segura as pontas
e procura palavras longevas
para renascer o poema
onde antes eram trevas.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Velhos camaradas




Companheiros, camaradas.
Amigos de todo tempo.
De um tempo ido e não findo.
Amigos de todas horas.
De um tempo que não passa.
Juntam-se histórias.
Contam-se casos.
Amontoam-se carinhos.
Risos, beijos, mais risos.
Mãos em corrente.
Abraço coletivo. 
A lembrança do passado.
A boa nova do dia.
Um pergunta: isso dá poesia?
A resposta mora em nós.
Companheiros, camaradas.
Não são soldados nem marinheiros.
Prováveis heróis do cotidiano.
Ano após ano. 
Sem muros nem máscaras.
Os cabelos embranquecem.
As rugas brincam com as faces.
Os olhos se armam de lentes.
Sorriem com ternura.
E pequenas lágrimas comovem.
Como se movem os planetas.
Como as horas passam pelo dia.
Um pergunta: isso dá poesia?
A resposta vive em nós.
Companheiros, camaradas.
Irmãos de tantas jornadas.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Cubo mágico




Um quadrado cerca a vida.
Um cubo mágico.
Viramos nossas convicções.
Movemos nossos ideais.
Giramos nossos pudores.
Reviramos nossas paixões.
Combinamos nossos corpos.
Desatamos nossas razões.
Retemos nossas palavras.
Ajustamos nossos padrões.
Um quadrado cerceia a vida.
Um cubo lógico.