domingo, 23 de abril de 2017

Notícias do outro lado




Vieram notícias do outro lado.
Do muro.
Olhos curiavam o outro lado.
Do outro.
Estranhezas e outros mitos.
Do lado.
Segredos e outras visões.
Dos outros.

Notícias do nunca



Nunca foi tão dura a História.
Nunca.
Nunca foi tão fria a indiferença.
Nunca.
Nunca foi tão próximo o vazio.
Nunca.
Nunca foi tão distante o próximo.
Nunca.


domingo, 16 de abril de 2017

Mandinga



Encruzilhada perfeita.
Uma cidra e um charuto.
Velas de cores vivas.
Prato de barro.
Farofa de ovo.
Pimenta malagueta.
Ladrão na nossa terra
vai arder com o capeta.



quinta-feira, 6 de abril de 2017

A poesia encravada




Feito unha.
A poesia encravou.
Rasgou a pele.
Transpassou a derme.
Alcançou o músculo.
Tocou os nervos.
Arrancou sangue.
E nem assim jorrou.




sábado, 1 de abril de 2017

quarta-feira, 29 de março de 2017

À francesa (haikai)




Não tenha dó, nem pena:
Ir embora
é da arte de sair de cena.

terça-feira, 28 de março de 2017

Eu, terceirizado




_Bom dia, sou novo aqui.
Onde fica o meu quadrado?
_Naquela mesa de pé quebrado...
_Sou eu, terceirizado.

_Quanto tenho de intervalo?
Meu almoço é congelado.
_E você precisa comer?
_Sou eu, terceirizado.

_Desculpe, acho que quebrou.
Deram-me instrumento errado.
_Você foi o grande culpado...
_Sou eu, terceirizado.

_Não entendi muito bem...
O salário veio minguado.
_Prefere ser dispensado?
_Sou eu, terceirizado.

_Posso ir ao banheiro?
Faz horas que estou apertado.
_Que sujeito enrolado...
_Sou eu, terceirizado.

_Não sei se eu consigo.
É pouco tempo e muito chamado.
_Tu te viras e um abraço.
_Sou eu, terceirizado.

_Hoje temos um curso?
Chegou minha vez de ser treinado?
_Pode tirar o cavalo da chuva...
_Sou eu, terceirizado.

_Vai mudar a empresa?
Terei que ser recontratado.
_Pode esquecer suas férias!
_Sou eu, terceirizado.

_Não entendi muito bem.
Esse não é meu trabalho.
_Não reclama e faz logo.
_Sou eu, terceirizado.

_Ninguém trabalha amanhã.
Finalmente, um feriado.
_Você ficará de plantão.
_Sou eu, terceirizado.

_Acho que tenho febre.
Eu me sinto adoentado.
_Nem pense em atestado.
_Sou eu, terceirizado.

_Desculpe, o trem atrasou.
Por isso cheguei atrasado.
_Cada minuto será descontado.
_Sou eu, terceirizado.

_Não depositaram a previdência .
O fêgêtêésse foi lesado.
_Não temos nada com isso.
_Sou eu, terceirizado.

_Sou eu, terceirizado.
O novo escravo do Brasil.
_Mas você tem o direito
de ir pra puta que o pariu...

quarta-feira, 22 de março de 2017

Discretamente




Pouparam-se de palavras.
E o silêncio
disse tudo quanto eu temia.


Menino no espelho




Olhei no espelho
e, por um instante,
vi o menino que fui.
Mais lépido e esperto,
ele se foi. Correu
antes mesmo 
que eu lhe chamasse a atenção.


domingo, 19 de março de 2017

Querias




queria ser teu fantoche
talvez teu fetiche
queria fazer das runas poesia
talvez paixão
queria beber teu leite
talvez vinho
queria sorver teu gosto
talvez sabor
queria o teu querer
talvez quisesses...


quarta-feira, 15 de março de 2017

Necropsia




As mães loucas.
Os pais órfãos.
Os mortos sem pena
de morte.
Os corpos ao sol.
A vela comum.
Acesa.
A vala comum.
A todos nós.
A cova rasa sem razão
social.
A causa fútil.
O motivo torpe.
Eu entorpecido.
Uma nação torta.
Uma nação morta.


Das unhas vermelhas




Que inveja eu tenho
das unhas vermelhas e afiadas
que sangram as costas
como riscam as almas
simplesmente por prazer.
Elas, esmalte.
Eu, epiderme.


sábado, 4 de março de 2017

Tão pouco



Tão pouco sei.
Não sei se você existe.
Nem sei se existiu.
Não sei se existiu você.
E se nem isso sei,
se tão pouco sei.
que dizer dos passos que vi na areia.
Não sei se eram seus.
Nem sei se eram passos.
Nem sei se foram. 
Foram-se.
Como se foram palavras, perfumes, presença.
Foram palavras?
Eram perfumes?
Houve presença?
E assim, 
sem saber do tão pouco que sei
-- ou não sei --,
que nem sei se perdi as palavras, 
se esqueci o perfume,
se não segui as passadas.
Tão pouco passado. 


sexta-feira, 3 de março de 2017

A quem possa interessar



a quem possa interessar,
a esta hora da noite um homem morre

a quem possa interessar,
há um caos e mil cacos no chão

a quem possa interessar,
as raízes subiram pelo caule em flor

a quem possa interessar,
a fome marca o caminho com migalhas

a quem possa interessar,
há brilho e mentira nos brilhantes

a quem possa interessar,
o desejo não tem tradução nem tradição

a quem possa interessar,
a musa nua mira a mortalha do pintor 

a quem possa interessar,
o poder desdenha da liberdade

a quem possa interessar,
há uma vaga na garagem

a quem possa interessar,
não há ordem nem progresso

a quem possa interessar,
acabaram as moedas do cofre

a quem possa interessar,
há um bom diabo no meio da gente

a quem possa interessar,
fechei a janela e apaguei a luz

a quem possa interessar,
jogamos fora as sementes



quinta-feira, 2 de março de 2017

Galo de fogo



Toma conta do dia o galo de fogo.
Abre os olhos, abre a mente.
Sincero, seu canto desperta.
Impulsivo, seu charme seduz.
Canta coragem aos heróis.
Canta honestidade aos quadrantes.
Canta confiança ao arrebol.
Empresta seu canto, galo irmão.
Galo de fogo, galo de luz.


quarta-feira, 1 de março de 2017

Dos guardados




Onde estão os guardados da emoção?
Qual escaninho preservo dias, deuses, domus.
Há pouco espaço à surpresa.
De encontros e de desejos.
De dívidas e de dúvidas.
De achados e de perdidos.
Há pouco tempo a respirar. 
Quis uma pneumonia nos absolver.
Ou absorver?
Absolutamente.
Há pouco café na xícara.
Era uma vez uma história.
Era uma vez um poema.
Era uma vez um amor.
Há pouca verdade na estante.
Entre prateleiras cheias e homens vazios,
resta a pergunta impoluta.
Onde estão os guardados da emoção?




terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Saudade




Permita-me a vida um dia de saudade.
Dia de lembranças, de recordações.
Horas de viver encontros impossíveis.
Nem espaço nem tempo nem dimensão.
Sem limites, desta vez a vida pode.
O abraço. O carinho. O perfume.
Sensações. Sentidos. Realidade.
Como se alinhavasse a minha história.
Em frases interrompidas.
Em palavras além do amor.
Em livros dedicados e velhos retratos.
Um sabor vivo que dá água na boca.
Estão tão perto os anjos.
Estou certo.
Estão tão junto os anjos...


domingo, 26 de fevereiro de 2017

Da esculhambação





Quando a poesia escorre dos olhos,
pode ser chamada lágrima?
Quando o dilema enruga a testa,
pode ser chamado sintoma?
Quando a comédia vasculha a mente,
pode ser chama realidade?
Quando a dúvida esculhamba a alma,
certamente se chama vida.


sábado, 25 de fevereiro de 2017

Haikai real




Pode parecer marmelada
mas o rei não está nu:
Está só fantasiado de nada...



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Fortuna




Era Fulano de Tal com 11 letras.
Tinha 38 anos e um metro e setenta e seis.
Pesava quase 100 quilos mas confessava 90.
Comprou uma tv digital de 55 polegadas.
O som quadrafônico era de 1.200 watts, reais.
Seu apartamento valia mais de um milhão:
cobertura no sétimo andar.
O uísque era doze anos, o vinho safra 2011.
O contracheque tinha cinco dígitos, sete com os centavos.
O carro zero de 4.300 cilindradas tinha 250 cavalos.
Custou uma fortuna, quase 300 mil.
Cursou três faculdades e duas especializações.
Teve dois filhos, uma mulher, dois cachorros e uma cacatua.
Nas últimas férias viajou quase 8.000 quilômetros.
E orgulhava-se das mil e uma habilidades.
Foi parar no lote 408 setor 3 quadra 702.
Mas o enterro foi de primeira, uma verdadeira fortuna.


Em se plantando, tudo dá



Da noite e do dia,
do ser ou não ser,
da cela ao escancarado portão,
do não e do consentir,
ao trocar os pés pelas mãos,
da matéria prima até reciclar,
do amor à indiferença,
por mal traçadas linhas,
nas quebradas do mundaréu,
céu, inferno, céu,
da zona cinzenta à luz vermelha, 
pelos desertos ou nas represas,
uma estrada, o hospício, a lanterna,
de momentos e sempiternos,
dos líquidos aos gases,
da solidificação até o éter,
da vida e da passagem,
da morte e das paragens,
do silêncio ou da melodia,
de todos os homens a todas mulheres,
tudo dá poesia.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Tatuagens



Minhas tatuagens são cicatrizes.
Marcas que vira e mexe sangram.
E a tinta vermelha que se faz corte
é da mesma matiz que censura o verbo.
Minhas tatuagens são corações e âncoras.
Profundas e rancorosas.
Rasgam a pele como singram mares,
riscam rumos tal qual emoções.
Minhas tatuagens imaginárias.
Linhas tropicais e meridianas.
Desenham poemas, rascunham sóis 
e dispensam maiores comentários.


domingo, 19 de fevereiro de 2017

Boa morte




Que medo
da folha em branco
Paúra
do meu vazio
Secura
no leito frio
Da morte
do velho rio
Brandura
de toda sorte
Medida
da boa morte.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Velhas promessas




novas palavras me encantam
tanto quanto
velhas promessas me enganam

Entreato




É quando eu me entrego ao chão
e encontro seus pés, mulher,
e beijo a pele que a liga à mãe-Terra.
É nesse entreato que se colam
a sua, a minha, toda a vida.
É no arrepio ou nas cócegas
onde moram o prazer e o riso.
É na procura ou no gesto
quando queimam o desejo e a fusão.
É no silêncio ou na música
que entoam o gemido e a palavra.
É no encanto ou no encontro
de quem faz amor com gosto de mel.

Medusa






(para Stéfani Garcia)

É meu o que não é meu
e em mim vive e vivifica.
Tua força, minha força.
Teu amor, meu amor.
Tua irmã, meu irmão.
É teu o que não é meu
e em mim vive e vivifica.
Meu amor, teu amor, meu irmão.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Quatro pães




Abaixo da linha da miséria.
Quatro pães.
Até a linha do Equador.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Sinal de alerta



Andam escuros os dias.
Medo, dúvidas, cruzadas vias .
Perigos e credos.
Caminhos sem trilhos.
Onde estão, onde estamos?
Como guardar nossos filhos?
Não se vê o horizonte.
A ponte rompeu cordões.
Perdemos os elos.
Das torres, gritos e mudez.
A vigilância dos torreões.
O outro lado do incerto.
A outra face do pesadelo.
Um discreto sinal de alerta.


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Eclipse



Quando a lua parece rir.
Quando o medo de cair.
Quando a vida sugere ir.
Quando o rumo decidir.
Quando a rima abolir.
Quando o amor partir.
Quando a flor não abrir.
Quando o poema explodir.


domingo, 5 de fevereiro de 2017

Poema preguiça




Meio Macunaíma, meio Jeca Tatu.
Meu poema espreguiçou.
E nem assim se livrou da lombeira.
Modorra, apatia, leseira.
Palavras não chegam. Nem saem.
Ideias passam de lado. Tangentes.
Sentimentos descansam incansavelmente.
Pululam adjetivos, sobram advérbios.
É mais fácil versejar com eles.
Verbos indicam ação e agir cansa.
Anda difícil viver, impossível conviver.
Anda difícil.
Malhar em ferro frio.
Esperar a água furar a pedra dura.
Tocar a mesma nota em sinfônica teimosia.
Um conforto magoa.
Uma mágoa conforta.
Acalento um feto em berço esplêndido.
Nosso céu tem mais estrelas. Vou contar.
Entrego um poema preguiça à vida.
Pode ser um jeca, pode ser um caapora.
Quando acordar pode ser um hino.
Como dantes, quem sabe faz a hora.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

Galáxia




Um poema em busca de espaço.
O espelho quebrou.
O planeta explodiu.
A galáxia pulsou.
Onde estão os caminhos trilhados?
Onde as flores foram viver?
Onde o silêncio guardou a verdade?
Um poema em si mesmo,
sem resposta nem destino.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Palavras




Sagradas são as palavras de amor.
Benditas são as palavras de consolação.
Inevitáveis são as palavras de pesar.
Inexplicáveis são as palavras eternas.
Tímidas são as palavras de carinho.
Inesquecíveis são as palavras dos amigos.
Hesitantes são as palavras de promessa.
Fortíssimas são as palavras de honra.
Divinas são as palavras de perdão.
Medidas são as palavras da poesia.
Molhadas são as palavras de tesão.
Remoídas são as palavras da ira.
Íntegras são as palavras da verdade.
Perdidas são as palavras da mentira.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Enquanto as palavras dormem




Enquanto as palavras dormem
a vida desfila sonhos.
São amigos. Personagens.
Ídolos. Santos e demônios.
Ladrões de verdades.
Desconhecidos. Androides.
Andróginos, reis e rainhas.
São cenários. Praças e avenidas.
Palco. Tela. Janela. Cortinas. Sóis.
Casas. Celas. Quartos. Muros e paredes.
Mares. Rios. Cachoeiras. Águas-furtadas.
Nuvens. Árvores. Floresta. Redes.
São amores. Toques. Desejos.
Mãos. Ventre. Coxas. Dedos. 
Beijos. Unhas. Língua. Carinho. 
Ritos e liturgias. Pés. Cócegas. Arrepios.
Seios. Orifícios. Gritos, gemidos e ais.
Enquanto as palavras dormem
uma vida de sonho brinca de ser. 



segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Lua Branca




Contaram-me que a lua está linda.
Disseram-me que a lua está alva.
Não tive olhos para a lua branca.
Talvez as nuvens do meu céu,
quem sabe a tristeza dos meus olhos,
quiçá a própria lua se me negou a si.
As boas línguas deram conta
de uma lua fina, estreita, quase risco,
quase riso, quase foice.
Pode ser que a lua branca evitasse amar.
Ou cortar meu sonho com sua lâmina mulher,
ou negar-me o vinho para não quebrar a taça.
De qualquer jeito, a noite perdeu a graça.



Da clemência



Por que me negas o delírio
com a mesma coerência
-- ou clemência --
que me pingas o colírio:
meus olhos nublam
minhas mãos tremem
e a alma vaga
entre a insanidade de perder-te
e o ter a ti insanamente.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Motivos





Porque o sol cega
Porque a luz falta
Porque o mar vaza
Porque o amor mata

Qualquer dia




Qualquer dia, quem sabe, nos vemos.
Cruzamos na rua ou embarcados no mesmo voo.
Talvez sem percebermos, talvez sem tempo.
Qualquer dia nos cruzamos.
Na fila do banco ou na porta do paraíso.
Sem palavras e sem ação.
Nenhuma surpresa, nenhum desespero.
Qualquer dia nos perdemos.
E, sem querer, nos encontramos.
O que pensar, o que fazer, então?
Qualquer dia. Nem sabemos.

Na tua palavra




No teu colo.
Na tua mudez.
No teu espaço.
Na tua tez.
No teu leite.
Na tua mão.
No teu ventre.
Na tua frente.
No teu ocaso.
Na tua casa.
No teu cair.
Na tua palavra, morri.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

então são paulo




então a memória caminha pela xavier de toledo
então na paulista 900 lembrar da ditadura sem medo
então o coração acelera na praça da república
então reverenciar as meninas da augusta
então um sopro de esperança invade a rua da abolição
então sentir gosto da hóstia na igreja da consolação
então me comove olhar o pico do jaraguá
então no anhangabaú ouvir ecos de diretas já
então jogar poesias dos prédios feito confetes no carnaval
então cruzar o viaduto santa efigênia a cantarolar
então uma emoção deixar o araçá em lágrimas
então dizer que um dia eu volto, um dia eu volto


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Veleidade




As velas içadas.
Oceano de desejos.
Um dia inteiro pela frente.
E sua agonia.
Quando o querer não basta.
Quando o querer não vinga.
Quando o querer não passa.
As velas içadas.
Sem vento nem verdade.
Veleidade.


Poltronas




Era uma tela e havia um filme.
Fosse romance.
Fosse aventura.
Fosse suspense.
Uma poltrona ocupada.
Um desconhecido.
Uma poltrona vazia.
Uma ausência.
De pouca valia a possibilidade.
Nem final feliz.
Nem final.
Nem a poltrona ocupada.
O vazio é uma sinopse não escrita.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Haikai prometedor




Ano que vem, prometer-se-ão
Segurança, saúde, transporte e educação.
Só que não.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Amizade e virtudes



Há uma esquina em Havana, Cuba, onde se encontram as "calles" Amistad e Virtudes. Não foi nessa esquina que encontrei Daniel Brasil em minha primeira visita à cidade, mas bem que poderia ter sido. Era 2013 e há meses não nos víamos. As ruas de "Habana Vieja" foram curtas para nós. Do Café Paris ao Floridita e depois de volta ao Café Paris, onde topamos com Hemingway vivo e levemente embriagado. 

A amizade entre nós começou nos idos de 2002, quando cheguei a Brasília meio assustado com as mudanças vividas: trocar São Paulo pela Capital Federal, sair de um emprego de duas décadas para um contrato temporário de 36 meses, deixar a assessoria de imprensa para trabalhar com relações institucionais. Não foram apenas essas as mudanças, mas bem que poderiam ter sido. Daniel era o estagiário. Eu, o neófito. Foi o suficiente para começar uma amizade que cresceu em admiração, cumplicidade e respeito. Daniel era amigo, irmão, filho, exemplo.

Éramos parceiros no samba, na poesia, na dedicação ao trabalho -- que ninguém é perfeito -- na visão de um mundo melhor. Daniel era um especialista em sorrir. Eu, modéstia a parte, adorava vê-lo gargalhar com minhas histórias insanas e paixões quixotescas. Daniel sempre foi um homem íntegro. Um apaixonado. Podia ser em São Paulo, no Haiti, na Asa Norte ou em Cuba, Daniel era Daniel. Não que isso fosse importante, mas bem que poderia ser.

Nossas conversas eram memoráveis. Os dois se entusiasmavam até a salvação do mundo ou o escárnio. Eu crescia com Daniel e penso que a recíproca era verdadeira. Tem uma história nossa, acho que ninguém conhece. Certa vez, um conglomerado capitalista procurava um executivo de relações institucionais com tantos predicados que poucos seriam os candidatos. Entre as exigências, criatividade. Pois, caras-de-pau, mandamos juntos nossos currículos, nos oferecendo em dupla. Claro, nunca nos chamaram, mas bem que poderiam nos ter contratado. Perderam.

Nesta quarta-feira, Daniel aprontou das suas. Morreu. Quer saber? Na quinta, quando vi a lavagem do Bonfim, vislumbrei Daniel ali, com as baianas, reverenciando a vida. Não sei se vi demais, mas bem pode ter sido...



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Palavras fáceis



Tem dias que as palavras vêm fáceis.
Parceiras. Amigas. Amantes, algumas.
Vêm com disposição e motivadas.
Combinadas em versos, estrofes, poemas.
Arquitetas e obreiras nas crônicas.
Roteiristas e argumentos nos contos.
Vêm a cântaros. Aos borbotões. Aos montes.
Tragicômicas. Dramáticas. Documentaristas.
Inquietas. Pródigas. Generosas.
Palavras fáceis em dias difíceis.
Palavras irmãs em improváveis poesias.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Entre pesadelos



Nasci revisão.
Busquei erros.
Encontrei quases.
Desmenti talvez.
Entendi o conceito.
Enxerguei o espelho.
Revi os meus.
Revivi os teus.

Eternidade



dormi demais, eternidade:
o pesadelo era menos cruel
do que a realidade

sábado, 7 de janeiro de 2017

A noite dos mortos-vivos




A noite quente não me abandona.
Nem a agonia dos mortos-vivos.
Não há estrada.
Não há caminho.
Não  há.
Foram-se embora a humanidade,
a compaixão, a fraternidade.
Não somos irmãos.
Não somos dignos.
Não somos.
A noite é febre e minha consciência arde.
É tarde.
Melhor morrer.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O loteamento da razão



Do lado de dentro
Do rego do mundo
Do fundo do poço
Da poça de sangue
Do seio de fogo
Da fenda do falo
Do ralo do vaso
Do raso da razão