domingo, 23 de julho de 2017

Fumaças



Olhares esfumados.
Os riscos da imprecisão.
Tão pouco vemos.
Tão pouco sabemos.
O disfarce da opinião.
Democracia de repentes.
Tão pouco ouvimos.
Tão pouco falamos.
Entre espasmos e soluços.
A falácia. O engôdo.
Tão pouco somos.
Tão pouco restamos.



Marte




Teus heróis óxidos.
Teus mártires solitários.
Teus mares sólidos.
Teus sóis gélidos.
Teus dias mortos.
Teus mortos heróicos.
Teus mártires, Marte.



Salada completa




Hipocrisia com pipoca. 
Ética de supermercado.
Hipnose política.
Beringelas alho e óleo.
Hipopótamos na balança.
Estátuas vivas.
Hímen elástico.
Evidências on the rocks.
História sem geografia.
Meio mussarela meio calabresa.
Híbridos instintos.
Laranjas e farinhas a granel.
Hipérbole patriótica.
O último tango em Icó.
Hidrocefalia sem fronteira.



Verdade e mentira




Presença é a verdade
que a falta não compensa.
A ilusão é a uma figura
vaga como vagas são as sombras.
O contorno é perfil. Nem sonho,
nem imaginação.
Praticamente não é nada.
É tudo mentira.
Um vale rasgado em cânions,
profundeza de tantos abismos.



sábado, 22 de julho de 2017

Itinerário




Na Barra Funda o velho prédio caiu.
Um Bom Retiro.
Liberdade em festa. Freguesia quieta do Ó.
Madalena. Beatriz. Ida. Vilas vivas.
A Pompéia é o umbigo do mundo. 
Paulista. Não seria diferente a avenida.
Na Luz a fumaça empoa ilusões.
Cambuci de Lavapés e bondes parados.
A bela vista do Bexiga.
Santa Santa Cecília. 
Ceci. Peri. Piqueri.
Morros. Cidades. Jardins. 
Altos. Baixos. Campos. Vilas. 
Chácaras. Granjas. Rios. Parques.
Itinerário plural. Vida singular.
Nunca mais Consolação.
Novos templos tomaram a São João.
Novos tempos.



Tubaína




No balcão. 
Na mesa rodeada de banquetas.
Em frente ao prato fundo de torresmos.
Foram perdidas as ilusões.
Foi embora a juventude.
Passaram ao largo do destino.
Uma garrafa de tubaína.
Um ovo cozido cor-de-rosa.
Um sanduíche em pão duro.
Um decalque raspado no ladrilho.
Ame-o ou deixe-o.
Um país sem futuro.


Trópicos




Capricórnio, onde estão as esperanças?
Promessas, palavras, perdões.
Retas, curvas, tangentes.
São plurais as aflições.
Singular, o desespero.
Não engane a geografia.
Nada resta.
Nem o pão nosso, sequer cada dia.



quarta-feira, 14 de junho de 2017

Ladrão




Quisera roubar-te para minha noite.
Mas minha noite não é minha.
Nem eu sou ladrão.
O que resta é sonhar.
Mas nem a insônia é minha.
Nem eu, sonhador...


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Pane




O motor parou.
O relógio parou.
O coração parou.
A vida em pane.



Diagnóstico



Procuram-se almas.
A dor em radiografia.
Contrastes.
Positivo e negativo.
Pólos iguais se repelem.
Procuram-se palavras.
Não há explicação.
A dor em transparência.
Partida e abandono.
O cadeado e a memória.
Procuram-se caminhos.
A dor em diagnóstico.
Sístole e diástole.
O resgate sem sequestro.
O morto. A ida. O resto.


Antes que maio acabe




O luto incansável.
O cansaço sem luta.
A vazão desmedida.
A canção intocável.




quarta-feira, 24 de maio de 2017

Manchester é aqui




Manchester é aqui.

Os terroristas do ataque à Arena Manchester são iguais aos terroristas do Estádio Nacional Mané Garrincha. O que os une é o princípio do terror: a covardia.

Há diferenças. 

Os terroristas de Manchester são alopatas. Atacam pelas consequências, em nome de uma causa. Não se importam com a auto-imolação e eliminam indefesos e inocentes sem se preocuparem se vão - e devem ir - para o inferno. Não têm um rosto, não têm personalidade.

Os terroristas do Mané Garrincha são homeopatas. Atacam as causas independentemente das consequências. Não se auto-imolam pois a covardia é extrema. Igual aos seus pares estrangeiros, matam inocentes sem se preocuparem se vão - e devem ir - para o inferno. Só que aos poucos, no dia-a-dia, ininterruptamente. Nas filas dos hospitais, por balas perdidas, na escola que não existe, na falência múltipla do Estado por corrupção, roubo, furto, assalto, prevaricação, cobiça, ignomínia. São presidentes, governadores, empresários, senadores, ministros, banqueiros, deputados, executivos, secretários, sindicalistas, "operadores", prefeitos, doutores, excelências, cambistas, ladrões, falsários, comandantes e comandados; terroristas, enfim. Têm RG, CPF, CNPJ, não têm limites.

Os terroristas da Arena Manchester e os terroristas do Mané Garrincha exterminam homens, mulheres, crianças, velhos, adolescentes, nascituros. Aniquilam famílias, vidas, sonhos, carreiras, esperanças, o presente e o futuro. Eles não podem vencer.


terça-feira, 16 de maio de 2017

Da noite sem graça



Noite de poucas palavras.
Noite de pouca poesia.
Pensamentos soltos.
Lembranças tristes.
Fáceis adjetivos e
poucos versos de ação.
Noite sem graça,
talvez até sem lua
-- tão perto a janela,
tão longo o salto.
Noite sem esperanças
-- noite desesperada? --,
com um frio que não congela 
e um suor incapaz de molhar.
Noite sem pecado nem solidão.
A porta trancada.
O cachorro quieto.
A vida sem óculos.



domingo, 14 de maio de 2017

Preto&Branco



Foi um amor antigo
Foi um amor preto&branco
Foi um amor analógico
Foi um amor revelado
Foi um amor de laboratório
Foi um amor provisório
Foi um amor tão passado
Foi um amor tão perdido



Bafo (haikai)




Tão vulgar, tão opaca, tão usada
que é figurinha fácil,
num álbum de carimbadas...



Ironia




Eu matei um presidente
Eu matei dois senadores
Eu matei três deputados
e me enforquei na covardia
de imaginar uma revolução
com poesia.
Com poesia.


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Seca




O lago secou tão profundo
que as lágrimas nem lhe chegaram à beira.
Asneira...




Firmamento




Em um cenário estático
gira o palco em elipse
e no centro dele,
Galileu em chamas
me chama satélite
enquanto fujo cometa.
Nosso céu tem mais estrelas
...



Do Esperança




Regou as plantas e foi dormir.
Eis um homem de poucas palavras
e muito Esperança.



A poesia não dorme




A poesia não dorme
comigo
E nem eu durmo
com ela
A poesia é o meu
abrigo
E sou eu que abrigo
nela
A poesia é a minha
insônia
E eu sou o sonho
dela
E nem assim ela dorme
comigo
E nem assim eu durmo
com ela




Gritos



Gatos malditos que aos miados
não deixam dormir,
sois piores que recordações.



domingo, 7 de maio de 2017

Fins



Morri hoje.
Morro amanhã.
E depois de amanhã.
O que são os dias, afinal,
Senão uma coleção de fins?



domingo, 30 de abril de 2017

Do poder



Se posso morrer, posso viver.
Pois um é certeza e outro, desejo.
Se posso colher flores, espalhar espinhos posso.
Pois se posso escolher, escolhido posso ser.
Posso dançar sem saber, eu posso.
Como posso escrever, penso que posso.
Minhas certezas cristais, posso.
Mentiras posso desobedecer.
Posso desobedecer verdades.
E tanto e tão certo e tudo é poder.
Pois posso viver certo de que posso morrer.


Último de Abril



Acabou abril.
Eu não vi.
Quem viu?

domingo, 23 de abril de 2017

Notícias do outro lado




Vieram notícias do outro lado.
Do muro.
Olhos curiavam o outro lado.
Do outro.
Estranhezas e outros mitos.
Do lado.
Segredos e outras visões.
Dos outros.

Notícias do nunca



Nunca foi tão dura a História.
Nunca.
Nunca foi tão fria a indiferença.
Nunca.
Nunca foi tão próximo o vazio.
Nunca.
Nunca foi tão distante o próximo.
Nunca.


domingo, 16 de abril de 2017

Mandinga



Encruzilhada perfeita.
Uma cidra e um charuto.
Velas de cores vivas.
Prato de barro.
Farofa de ovo.
Pimenta malagueta.
Ladrão na nossa terra
vai arder com o capeta.



quinta-feira, 6 de abril de 2017

A poesia encravada




Feito unha.
A poesia encravou.
Rasgou a pele.
Transpassou a derme.
Alcançou o músculo.
Tocou os nervos.
Arrancou sangue.
E nem assim jorrou.




sábado, 1 de abril de 2017

quarta-feira, 29 de março de 2017

À francesa (haikai)




Não tenha dó, nem pena:
Ir embora
é da arte de sair de cena.

terça-feira, 28 de março de 2017

Eu, terceirizado




_Bom dia, sou novo aqui.
Onde fica o meu quadrado?
_Naquela mesa de pé quebrado...
_Sou eu, terceirizado.

_Quanto tenho de intervalo?
Meu almoço é congelado.
_E você precisa comer?
_Sou eu, terceirizado.

_Desculpe, acho que quebrou.
Deram-me instrumento errado.
_Você foi o grande culpado...
_Sou eu, terceirizado.

_Não entendi muito bem...
O salário veio minguado.
_Prefere ser dispensado?
_Sou eu, terceirizado.

_Posso ir ao banheiro?
Faz horas que estou apertado.
_Que sujeito enrolado...
_Sou eu, terceirizado.

_Não sei se eu consigo.
É pouco tempo e muito chamado.
_Tu te viras e um abraço.
_Sou eu, terceirizado.

_Hoje temos um curso?
Chegou minha vez de ser treinado?
_Pode tirar o cavalo da chuva...
_Sou eu, terceirizado.

_Vai mudar a empresa?
Terei que ser recontratado.
_Pode esquecer suas férias!
_Sou eu, terceirizado.

_Não entendi muito bem.
Esse não é meu trabalho.
_Não reclama e faz logo.
_Sou eu, terceirizado.

_Ninguém trabalha amanhã.
Finalmente, um feriado.
_Você ficará de plantão.
_Sou eu, terceirizado.

_Acho que tenho febre.
Eu me sinto adoentado.
_Nem pense em atestado.
_Sou eu, terceirizado.

_Desculpe, o trem atrasou.
Por isso cheguei atrasado.
_Cada minuto será descontado.
_Sou eu, terceirizado.

_Não depositaram a previdência .
O fêgêtêésse foi lesado.
_Não temos nada com isso.
_Sou eu, terceirizado.

_Sou eu, terceirizado.
O novo escravo do Brasil.
_Mas você tem o direito
de ir pra puta que o pariu...

quarta-feira, 22 de março de 2017

Discretamente




Pouparam-se de palavras.
E o silêncio
disse tudo quanto eu temia.


Menino no espelho




Olhei no espelho
e, por um instante,
vi o menino que fui.
Mais lépido e esperto,
ele se foi. Correu
antes mesmo 
que eu lhe chamasse a atenção.


domingo, 19 de março de 2017

Querias




queria ser teu fantoche
talvez teu fetiche
queria fazer das runas poesia
talvez paixão
queria beber teu leite
talvez vinho
queria sorver teu gosto
talvez sabor
queria o teu querer
talvez quisesses...


quarta-feira, 15 de março de 2017

Necropsia




As mães loucas.
Os pais órfãos.
Os mortos sem pena
de morte.
Os corpos ao sol.
A vela comum.
Acesa.
A vala comum.
A todos nós.
A cova rasa sem razão
social.
A causa fútil.
O motivo torpe.
Eu entorpecido.
Uma nação torta.
Uma nação morta.


Das unhas vermelhas




Que inveja eu tenho
das unhas vermelhas e afiadas
que sangram as costas
como riscam as almas
simplesmente por prazer.
Elas, esmalte.
Eu, epiderme.


sábado, 4 de março de 2017

Tão pouco



Tão pouco sei.
Não sei se você existe.
Nem sei se existiu.
Não sei se existiu você.
E se nem isso sei,
se tão pouco sei.
que dizer dos passos que vi na areia.
Não sei se eram seus.
Nem sei se eram passos.
Nem sei se foram. 
Foram-se.
Como se foram palavras, perfumes, presença.
Foram palavras?
Eram perfumes?
Houve presença?
E assim, 
sem saber do tão pouco que sei
-- ou não sei --,
que nem sei se perdi as palavras, 
se esqueci o perfume,
se não segui as passadas.
Tão pouco passado. 


sexta-feira, 3 de março de 2017

A quem possa interessar



a quem possa interessar,
a esta hora da noite um homem morre

a quem possa interessar,
há um caos e mil cacos no chão

a quem possa interessar,
as raízes subiram pelo caule em flor

a quem possa interessar,
a fome marca o caminho com migalhas

a quem possa interessar,
há brilho e mentira nos brilhantes

a quem possa interessar,
o desejo não tem tradução nem tradição

a quem possa interessar,
a musa nua mira a mortalha do pintor 

a quem possa interessar,
o poder desdenha da liberdade

a quem possa interessar,
há uma vaga na garagem

a quem possa interessar,
não há ordem nem progresso

a quem possa interessar,
acabaram as moedas do cofre

a quem possa interessar,
há um bom diabo no meio da gente

a quem possa interessar,
fechei a janela e apaguei a luz

a quem possa interessar,
jogamos fora as sementes



quinta-feira, 2 de março de 2017

Galo de fogo



Toma conta do dia o galo de fogo.
Abre os olhos, abre a mente.
Sincero, seu canto desperta.
Impulsivo, seu charme seduz.
Canta coragem aos heróis.
Canta honestidade aos quadrantes.
Canta confiança ao arrebol.
Empresta seu canto, galo irmão.
Galo de fogo, galo de luz.


quarta-feira, 1 de março de 2017

Dos guardados




Onde estão os guardados da emoção?
Qual escaninho preservo dias, deuses, domus.
Há pouco espaço à surpresa.
De encontros e de desejos.
De dívidas e de dúvidas.
De achados e de perdidos.
Há pouco tempo a respirar. 
Quis uma pneumonia nos absolver.
Ou absorver?
Absolutamente.
Há pouco café na xícara.
Era uma vez uma história.
Era uma vez um poema.
Era uma vez um amor.
Há pouca verdade na estante.
Entre prateleiras cheias e homens vazios,
resta a pergunta impoluta.
Onde estão os guardados da emoção?




terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Saudade




Permita-me a vida um dia de saudade.
Dia de lembranças, de recordações.
Horas de viver encontros impossíveis.
Nem espaço nem tempo nem dimensão.
Sem limites, desta vez a vida pode.
O abraço. O carinho. O perfume.
Sensações. Sentidos. Realidade.
Como se alinhavasse a minha história.
Em frases interrompidas.
Em palavras além do amor.
Em livros dedicados e velhos retratos.
Um sabor vivo que dá água na boca.
Estão tão perto os anjos.
Estou certo.
Estão tão junto os anjos...


domingo, 26 de fevereiro de 2017

Da esculhambação





Quando a poesia escorre dos olhos,
pode ser chamada lágrima?
Quando o dilema enruga a testa,
pode ser chamado sintoma?
Quando a comédia vasculha a mente,
pode ser chama realidade?
Quando a dúvida esculhamba a alma,
certamente se chama vida.


sábado, 25 de fevereiro de 2017

Haikai real




Pode parecer marmelada
mas o rei não está nu:
Está só fantasiado de nada...



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Fortuna




Era Fulano de Tal com 11 letras.
Tinha 38 anos e um metro e setenta e seis.
Pesava quase 100 quilos mas confessava 90.
Comprou uma tv digital de 55 polegadas.
O som quadrafônico era de 1.200 watts, reais.
Seu apartamento valia mais de um milhão:
cobertura no sétimo andar.
O uísque era doze anos, o vinho safra 2011.
O contracheque tinha cinco dígitos, sete com os centavos.
O carro zero de 4.300 cilindradas tinha 250 cavalos.
Custou uma fortuna, quase 300 mil.
Cursou três faculdades e duas especializações.
Teve dois filhos, uma mulher, dois cachorros e uma cacatua.
Nas últimas férias viajou quase 8.000 quilômetros.
E orgulhava-se das mil e uma habilidades.
Foi parar no lote 408 setor 3 quadra 702.
Mas o enterro foi de primeira, uma verdadeira fortuna.


Em se plantando, tudo dá



Da noite e do dia,
do ser ou não ser,
da cela ao escancarado portão,
do não e do consentir,
ao trocar os pés pelas mãos,
da matéria prima até reciclar,
do amor à indiferença,
por mal traçadas linhas,
nas quebradas do mundaréu,
céu, inferno, céu,
da zona cinzenta à luz vermelha, 
pelos desertos ou nas represas,
uma estrada, o hospício, a lanterna,
de momentos e sempiternos,
dos líquidos aos gases,
da solidificação até o éter,
da vida e da passagem,
da morte e das paragens,
do silêncio ou da melodia,
de todos os homens a todas mulheres,
tudo dá poesia.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Tatuagens



Minhas tatuagens são cicatrizes.
Marcas que vira e mexe sangram.
E a tinta vermelha que se faz corte
é da mesma matiz que censura o verbo.
Minhas tatuagens são corações e âncoras.
Profundas e rancorosas.
Rasgam a pele como singram mares,
riscam rumos tal qual emoções.
Minhas tatuagens imaginárias.
Linhas tropicais e meridianas.
Desenham poemas, rascunham sóis 
e dispensam maiores comentários.


domingo, 19 de fevereiro de 2017

Boa morte




Que medo
da folha em branco
Paúra
do meu vazio
Secura
no leito frio
Da morte
do velho rio
Brandura
de toda sorte
Medida
da boa morte.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Velhas promessas




novas palavras me encantam
tanto quanto
velhas promessas me enganam