sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Urbi et orbi




na surdina,
passou pela porta.
na surdina,
a luz apagada.
na surdina, 
dedilhou a chave.
na surdina, 
ganhou a rua.
na surdina,
a garra do lobo sob a luva.
na surdina,
o instinto sangrou a cidade.
na surdina, 
ganhou o mundo.



segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Ecos




Pai é uma palavra que ecoa.
Pai é palavra que evoca.
Pai é uma palavra que convoca.
Pai. 
Assim é. 
Uma palavra tão boa 
que convoca, 
que evoca, 
que ecoa...



Sorriso




Havia uma boca inteira.
Onde havia um único dente.
Havia um sorriso inteiro.
Onde havia um único dente.
Havia mulher inteira.
Onde havia um único dente.
Só não havia poesia onde havia um único dente.
Havia fome onde havia um sorriso inteiro.



segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Leve




Não ocupa espaço a poesia,
feito vácuo
na balança dos seus dias.



quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Da morada no olhar




Aquilo que mora no olhar.
E nem sempre os olhos veem.
Abraço afeto antigo e rico.
E o poder não corrompe.
A fronte a estampa a marca.
E sem pudor nem memória atua.
A força que une verbo e homem.
E nem toda força do universo provê.
Aquilo que faz morada atrás dos olhos amigos.



domingo, 3 de dezembro de 2017

De lírio



Era lírio.
Era flor.
Era forte.
Era assim.
E tão assim que era toda.
Um jardim de flor única.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Da menina lisa




Quem é essa menina
que desfila impropérios
e propriamente refila
os mais exóticos papéis?
Quem é essa guria
que desliza lisa pela via
quando mostra o escondido
enquanto finge que escondia?
Quem é essa maria
santíssima do pau oco
que transtorna o quieto
e faz do são o tão louco?
Quem é essa rapariga
boa de cama, melhor de briga
que provoca vendavais
com a mesma força da brisa?
Quem é essa mulher 
perdida entre achados
que se perde quando quer
e quando não quer, não quer?
Quem é essa obra prima
prima-dona que desafia
como quem a todo encanta até que
"Cesse tudo o que a musa antiga canta"?
Ah, Camões, quem é essa catarina
que já foi menina, 
guria, maria, brisa
mulher e musa elísea?



domingo, 19 de novembro de 2017

Ao meio




Uma linha traçada a giz 
na terra de chão batido
é a fronteira ilusória do país.

Entre os bons costumes e a moral 
uma coordenada imaginária
divide a pátria do carnaval.

De crime e delito e corrupção
corta a faca sem justiça 
a fio de navalha ao meio a nação.



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Da oração e da esperança




Senhor, por onde andarei amanhã?
De que me valerão as letras, os números, os mapas,
se a História está perdida em mãos de ímpios e de infiéis?
O que eu farei com os verbos flácidos de advérbios tantos?
Por quais caminhos errarei,
eis que o certo deixou de ser e a dúvida é Lei?
Dai-me, Senhor, uma esperança.
De pó ou de barro, que seja assim.
De cores vivas ou cinzas ainda quentes, seja assim.
De um vento que não venta
ou de um oceano que não navega, seja assim.
Seca a tinta da minha pena, Senhor,
e faz com que da fonte morta brotem crianças puras.
Deixo o poema.
Deixo o palco.
Pela esperança, Senhor, pela esperança.
Quem sabe, assim, se queimem pecados e pecadores,
enquanto retornam do mar os pescadores reavivados.
Quem sabe.




quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Mãe-gentil




Lembrança de um ventre seco
Mãe-gentil de uma natimorta
Nação sem caráter e sem perdão
Falsos ídolos
Heróis de cera
Semi-homens vazios de verdades
Rebotalhos em solo morto
Cova rasa da moral
Um círculo vicioso sob todos os infernos
Pirâmide de faraós sempiternos
Campo nada santo sem tempo nem espaço
Nem caráter
Nem perdão



domingo, 12 de novembro de 2017

Do outro lado da rua




É como se olhasse um prédio com várias e muitas janelas.
Escuras.
Uma luz acende. E apaga.
Um vidro reflete um farol.
O carro passa.
Uma cortina deixa ver um casal.
Uma nesga. 
Quase a chama de uma vela.
Os olhos forçam.
Então tudo parece um imenso dominó.
Um jogo de pedras em busca de um par.
Um vermelho esgarça o vão.
Outra cortina parece acenar.
Um espelho quase escárnio.
Como se ver de um prédio com várias janelas.



Chuva nova




Que chuva nova, de água sabida
Que chuva é essa?
Que molha olhos, que corta vidas...



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Do tédio





O tédio define a régua da paciência perdida.
O tédio é rotina com as luzes acesas.
O tédio é repetição do carimbo 
nos papéis coloridos da repartição.
O tédio é redação de tema livre.
O tédio é frase finada em exclamação.
O tédio é indivisível.
O tédio não se divide em capitanias hereditárias.
O tédio, feito convite, 
é pessoal e intransferível.
O tédio RSVP.
O tédio para mim é você.



quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Ontem não choveu




Ontem não choveu.
Esperada, a chuva não veio.
Nem certezas pingaram.
Nem correnteza nasceu.
Ontem não choveu.
A vida seca na janela.



sábado, 21 de outubro de 2017

Fluidos




Corredeiras
por onde escorre 
vida inteira.
Quedas d´água
por onde cai
toda mágoa.
Oceanos
onde mergulham
tantos planos...





terça-feira, 17 de outubro de 2017

Geografias




Latitudes e longitudes.
Longe, longe.
O Sul. O Norte.
A linha do horizonte.
Os polos. As extremidades.
Pela janela um fio de luz.
Onde nasce o sol.
Onde o sol se põe.
A linha imaginária.
Na palma da tua mão.
De qual cavidade brotaste?
Qual útero rasgaste?
Paralelos e meridianos.
O planeta em fatias.
Geografias.



terça-feira, 10 de outubro de 2017

Primeiro canto




Canta na janela nova amiga.
Ela, cigarra.
Eu, formiga.


domingo, 8 de outubro de 2017

Ditadura




Não haverá teatro.
Não haverá escultura.
Haverá censura.
Não haverá dança.
Não haverá pintura.
Haverá censura.
Não haverá cinema.
Não haverá literatura.
Haverá censura.
Não haverá inteligência.
Não haverá escultura.
Haverá censura.
Não haverá educação.
Não haverá cultura.
Haverá censura.
Hão haverá liberdade.
Não haverá XxxXxxxxxXXXXxx
Haverá Xxxxxxx
Xxxxxx Xxxxxxxxxx
Xxxxxxxx...

Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.
— Os Lusíadas. Luís de Camões. Canto I, estrofes 4 e 5.



Receita de Creme de Abacate
INGREDIENTES:
  • 1 abacate maduro
  • 1 lata de leite condensado
  • 3 colheres(sopa) de suco de limão
  • Raspas de limão para decorar
MODO DE PREPARO:
1- Corte o abacate ao meio, exclua o caroço, e com o auxílio de uma colher retire toda a sua polpa. Reserve a casca.
2- Em um liquidificador bata a polpa do abacate, o leite condensado e o suco de limão.
3- Despeje o creme na casca do próprio abacate, e decore com raspas de limão.
4- Sirva a seguir,ou de preferir mais gelado deixe na geladeira por 3 horas (coberto com filme plástico) e decores com as raspas somente na hora de servir.


Visitar estrelas




Visitar estrelas.
Planar.
Voar.
Subir na fumaça e ganhar altura.
Fluir pelo imenso.
Intenso.
O concreto em vez do aéreo.
Etéreo.
Nada a levar.
Alcançar o incerto.
Tão certo, tão perto.
Deixar o chão.
Decolar.
Descolar.
Alar.
Alar-se.
Flutuar.
Levitar.
Visitar estrelas.
Estrelas visitar.



quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Missionários




Não fez diferença o caminho,
nem tampouco a jornada.
Um chamou destino,
outra disse nada,
um terceiro, talvez.
Eram troncos, eram raízes,
eram matas, florestas, planetas.
Terras de ninguéns,
céu de nuvens.
O arrepio foi Deus,
o Diabo foi a fome.
Uma chamou de lenda,
outro sentenciou: utopia,
dia ruim para alguns,
para muitos apenas mais um.
Peregrinos.
Viandantes.
Molambos.
Trilheiros.
Mamalucos.
Curruíras.
Mequetrefes.
Catinguentos.
Missionários.




quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Tarja preta




Você é muito careta.
Careta demais para ser gente.
Tem hábitos de serpente
E vestes de camaleão.
Minha paciência anda curta
Com ofídios, camuflados e mutretas.
Você é fácil de explicar.
Mas de difícil aceitação.
No fundo, não vale um tostão.
Você é muito careta.
Vende-se barato,
Mas devia ser tarja preta.




quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Faltam cruzes




Faltam cruzes na estrada.
Não há heróis.
Sobram fariseus e farsantes.
Hipócritas e dissimulados.
Medíocres e covardes.
Omissos e sacripantas.
Muito além de mortos-vivos.
Uma eternidade para cada um.



terça-feira, 12 de setembro de 2017

Da eternidade




A sentença sem piedade.
Não dormirás.
Não lamentarás.
Não chorarás.
Não invejarás.
Não duvidarás.
Não padecerás.
Não calarás.
Não temerás.
Não morrerás.
Condenaram-te à juventude.



Do enforcado





A nudez desenha o corpo.
Palidez da cor da alma.
Turvam os olhos a falta.
O escuro projeta luz e sombra.
Sordidez a granel.
Noite que a noite esconde.
Da corda pende o cadáver da honradez.
A forca das convicções pende.
O fio da faca tatua a derme.
O verme cumpre suas funções.
O ritual cumprido.
A garganta seca.
A vida vaza.
A voz cala.
A pena vale.
O fim.



sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A pétala




Era uma flor sobre a pele.
À flor da pele, era arrepio.
Gineceu de sonhares.
Ares de abelha rainha.
Voo curvo. Circular.
Rabiscos de aros em silhueta.
Cálice. Folha. Pólen. Filete.
Desenho no vapor condensado.
Teu leite condensado em vinho.
Divina embriaguez. Santos méis. 
Desvirgindades fluidas.
A delicadeza de finos pincéis.
Da pintura, a vida. Da vida, a flora.
A tela embebida em néctar.
Era uma pétala sobre a pele.
Uma pétala, à flor da pele.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

A boca




Um convite, uma fenda.
O vermelho. A magenta.
Um farol, uma onda.
O lábio. A sonda.
Um prazer, uma língua.
O escárnio. A lasciva.
Um delito, uma diva.
O delírio. A lambida.
Um morango, uma amora.
O sabor. A mordida.
Um desejo, uma seiva.
O beijo escarlate.
A boca diamante.


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Do outro lado da verdade




Do outro lado da verdade mora um homem.
O homem que mora do outro lado da verdade mente.
O homem que mora do outro lado da verdade mente porque mora do outro lado da verdade.
Do outro lado da verdade mora um homem que mente porque mora do outro lado da verdade.
Do outro lado da verdade morre um homem.
O homem que morava do outro lado da verdade.
Não é mentira.



Do pranto sintético




A poesia chora.
Lágrimas de corrupção.
Pranto de vergonha.
Choro de uma nação.


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Poema pirata





Nasceu poema pirata.
Embebido em rum.
Em vez de perna de pau,
um verso de pé quebrado.
Em vez de olho de vidro,
coloridas lentes de contato.
E nem assim a realidade luzia.
Eram absurdos e mudos.
Eram tolices em série.
Eram corsários e bucaneiros.
Flibusteiros. Malasartes.
A arte dos mentirosos.

Nasceu poema pirata.
Parido de sete meses.
Quantas vezes oceanos?
Perigo de sete faces.
Quantas vezes amores?
Pirata dos sete mares.
Quantas vezes estrofes?
Tremulante desatino.
De bandeiras e caveiras.
De pilhagens e pilhérias. 
De tesouros e histórias.

Nasceu poema pirata.



sábado, 12 de agosto de 2017

Viajeiro




Viajeiro, viajante
vem de longe, vem distante
cada légua uma cantiga,
cada cantiga um lamento
de estrada, de caminhos,
tanto só o viandante
quanto cavaleiro andante
este errante peregrino
vai pra longe, vai pra sempre
tão sem rumo, sem destino,
viajeiro, viajante.



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Da poesia




No último quartel do dia.
Quando onde nada existia.
Roubaram o que havia.
Tornaram oca e vazia.
A esperança vadia.
Da farsa democracia.
Apartada ousadia.
Vão encher o rabo de azia. 



Não sei



Tem um não sei não se sabe onde.
Tem um não sei não se sabe como.
Tem um não sei não se sabe quanto.
Tem um não sei não se sabe o que.
E assim, de quando em quando,
Ficamos não sei nem sabemos porque.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Fantoches



Sentada entre anjos e demônios.
Santa das noites madrasta insônia.
Com agulhas de crochê em par.
Com fios de teias em tear.
Em parte a arte da dor.
Em parte a dor da arte.
Madeira cortada a canivete.
Marionete talhada.
Ganha vida. Fala. Grita.
Grito solto. Presa. Algema.
Uns chamam destino.
Outros dizem sina.
A santa da morte corta a linha.
Desce fria forte e morta a guilhotina.


quarta-feira, 26 de julho de 2017

Da morte provisória




Era cicatriz cirúrgica.
Era linha imaginária.
Era espera nevrálgica.
Era tortura diária.
Era sílaba tônica.
Era toda refratária.
Era imagem fática.
Era fórmula precária.
Era ilusão mágica.
Era capitania hereditária.
Era verdade lúdica.
Era mártir voluntária.
Era a morte provisória
de uma vida trágica.



Poema torto




O relógio quebrado.
Minutos contados.
Segundos cortados a fio de navalha.
A vida arredondada.
Ceifada.
Feito verso rústico.
Poema torto.
Como tortos são os tempos.
Tempos de relógios quebrados,
minutos contados,
segundos cortados,
vidas ceifadas.


domingo, 23 de julho de 2017

Fumaças



Olhares esfumados.
Os riscos da imprecisão.
Tão pouco vemos.
Tão pouco sabemos.
O disfarce da opinião.
Democracia de repentes.
Tão pouco ouvimos.
Tão pouco falamos.
Entre espasmos e soluços.
A falácia. O engôdo.
Tão pouco somos.
Tão pouco restamos.



Marte




Teus heróis óxidos.
Teus mártires solitários.
Teus mares sólidos.
Teus sóis gélidos.
Teus dias mortos.
Teus mortos heróicos.
Teus mártires, Marte.



Salada completa




Hipocrisia com pipoca. 
Ética de supermercado.
Hipnose política.
Beringelas alho e óleo.
Hipopótamos na balança.
Estátuas vivas.
Hímen elástico.
Evidências on the rocks.
História sem geografia.
Meio mussarela meio calabresa.
Híbridos instintos.
Laranjas e farinhas a granel.
Hipérbole patriótica.
O último tango em Icó.
Hidrocefalia sem fronteira.



Verdade e mentira




Presença é a verdade
que a falta não compensa.
A ilusão é a uma figura
vaga como vagas são as sombras.
O contorno é perfil. Nem sonho,
nem imaginação.
Praticamente não é nada.
É tudo mentira.
Um vale rasgado em cânions,
profundeza de tantos abismos.



sábado, 22 de julho de 2017

Itinerário




Na Barra Funda o velho prédio caiu.
Um Bom Retiro.
Liberdade em festa. Freguesia quieta do Ó.
Madalena. Beatriz. Ida. Vilas vivas.
A Pompéia é o umbigo do mundo. 
Paulista. Não seria diferente a avenida.
Na Luz a fumaça empoa ilusões.
Cambuci de Lavapés e bondes parados.
A bela vista do Bexiga.
Santa Santa Cecília. 
Ceci. Peri. Piqueri.
Morros. Cidades. Jardins. 
Altos. Baixos. Campos. Vilas. 
Chácaras. Granjas. Rios. Parques.
Itinerário plural. Vida singular.
Nunca mais Consolação.
Novos templos tomaram a São João.
Novos tempos.



Tubaína




No balcão. 
Na mesa rodeada de banquetas.
Em frente ao prato fundo de torresmos.
Foram perdidas as ilusões.
Foi embora a juventude.
Passaram ao largo do destino.
Uma garrafa de tubaína.
Um ovo cozido cor-de-rosa.
Um sanduíche em pão duro.
Um decalque raspado no ladrilho.
Ame-o ou deixe-o.
Um país sem futuro.


Trópicos




Capricórnio, onde estão as esperanças?
Promessas, palavras, perdões.
Retas, curvas, tangentes.
São plurais as aflições.
Singular, o desespero.
Não engane a geografia.
Nada resta.
Nem o pão nosso, sequer cada dia.



quarta-feira, 14 de junho de 2017

Ladrão




Quisera roubar-te para minha noite.
Mas minha noite não é minha.
Nem eu sou ladrão.
O que resta é sonhar.
Mas nem a insônia é minha.
Nem eu, sonhador...


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Pane




O motor parou.
O relógio parou.
O coração parou.
A vida em pane.



Diagnóstico



Procuram-se almas.
A dor em radiografia.
Contrastes.
Positivo e negativo.
Pólos iguais se repelem.
Procuram-se palavras.
Não há explicação.
A dor em transparência.
Partida e abandono.
O cadeado e a memória.
Procuram-se caminhos.
A dor em diagnóstico.
Sístole e diástole.
O resgate sem sequestro.
O morto. A ida. O resto.