sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Amizade e virtudes



Há uma esquina em Havana, Cuba, onde se encontram as "calles" Amistad e Virtudes. Não foi nessa esquina que encontrei Daniel Brasil em minha primeira visita à cidade, mas bem que poderia ter sido. Era 2013 e há meses não nos víamos. As ruas de "Habana Vieja" foram curtas para nós. Do Café Paris ao Floridita e depois de volta ao Café Paris, onde topamos com Hemingway vivo e levemente embriagado. 

A amizade entre nós começou nos idos de 2002, quando cheguei a Brasília meio assustado com as mudanças vividas: trocar São Paulo pela Capital Federal, sair de um emprego de duas décadas para um contrato temporário de 36 meses, deixar a assessoria de imprensa para trabalhar com relações institucionais. Não foram apenas essas as mudanças, mas bem que poderiam ter sido. Daniel era o estagiário. Eu, o neófito. Foi o suficiente para começar uma amizade que cresceu em admiração, cumplicidade e respeito. Daniel era amigo, irmão, filho, exemplo.

Éramos parceiros no samba, na poesia, na dedicação ao trabalho -- que ninguém é perfeito -- na visão de um mundo melhor. Daniel era um especialista em sorrir. Eu, modéstia a parte, adorava vê-lo gargalhar com minhas histórias insanas e paixões quixotescas. Daniel sempre foi um homem íntegro. Um apaixonado. Podia ser em São Paulo, no Haiti, na Asa Norte ou em Cuba, Daniel era Daniel. Não que isso fosse importante, mas bem que poderia ser.

Nossas conversas eram memoráveis. Os dois se entusiasmavam até a salvação do mundo ou o escárnio. Eu crescia com Daniel e penso que a recíproca era verdadeira. Tem uma história nossa, acho que ninguém conhece. Certa vez, um conglomerado capitalista procurava um executivo de relações institucionais com tantos predicados que poucos seriam os candidatos. Entre as exigências, criatividade. Pois, caras-de-pau, mandamos juntos nossos currículos, nos oferecendo em dupla. Claro, nunca nos chamaram, mas bem que poderiam nos ter contratado. Perderam.

Nesta quarta-feira, Daniel aprontou das suas. Morreu. Quer saber? Na quinta, quando vi a lavagem do Bonfim, vislumbrei Daniel ali, com as baianas, reverenciando a vida. Não sei se vi demais, mas bem pode ter sido...



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