quarta-feira, 24 de maio de 2017

Manchester é aqui




Manchester é aqui.

Os terroristas do ataque à Arena Manchester são iguais aos terroristas do Estádio Nacional Mané Garrincha. O que os une é o princípio do terror: a covardia.

Há diferenças. 

Os terroristas de Manchester são alopatas. Atacam pelas consequências, em nome de uma causa. Não se importam com a auto-imolação e eliminam indefesos e inocentes sem se preocuparem se vão - e devem ir - para o inferno. Não têm um rosto, não têm personalidade.

Os terroristas do Mané Garrincha são homeopatas. Atacam as causas independentemente das consequências. Não se auto-imolam pois a covardia é extrema. Igual aos seus pares estrangeiros, matam inocentes sem se preocuparem se vão - e devem ir - para o inferno. Só que aos poucos, no dia-a-dia, ininterruptamente. Nas filas dos hospitais, por balas perdidas, na escola que não existe, na falência múltipla do Estado por corrupção, roubo, furto, assalto, prevaricação, cobiça, ignomínia. São presidentes, governadores, empresários, senadores, ministros, banqueiros, deputados, executivos, secretários, sindicalistas, "operadores", prefeitos, doutores, excelências, cambistas, ladrões, falsários, comandantes e comandados; terroristas, enfim. Têm RG, CPF, CNPJ, não têm limites.

Os terroristas da Arena Manchester e os terroristas do Mané Garrincha exterminam homens, mulheres, crianças, velhos, adolescentes, nascituros. Aniquilam famílias, vidas, sonhos, carreiras, esperanças, o presente e o futuro. Eles não podem vencer.


terça-feira, 16 de maio de 2017

Da noite sem graça



Noite de poucas palavras.
Noite de pouca poesia.
Pensamentos soltos.
Lembranças tristes.
Fáceis adjetivos e
poucos versos de ação.
Noite sem graça,
talvez até sem lua
-- tão perto a janela,
tão longo o salto.
Noite sem esperanças
-- noite desesperada? --,
com um frio que não congela 
e um suor incapaz de molhar.
Noite sem pecado nem solidão.
A porta trancada.
O cachorro quieto.
A vida sem óculos.



domingo, 14 de maio de 2017

Preto&Branco



Foi um amor antigo
Foi um amor preto&branco
Foi um amor analógico
Foi um amor revelado
Foi um amor de laboratório
Foi um amor provisório
Foi um amor tão passado
Foi um amor tão perdido



Bafo (haikai)




Tão vulgar, tão opaca, tão usada
que é figurinha fácil,
num álbum de carimbadas...



Ironia




Eu matei um presidente
Eu matei dois senadores
Eu matei três deputados
e me enforquei na covardia
de imaginar uma revolução
com poesia.
Com poesia.


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Seca




O lago secou tão profundo
que as lágrimas nem lhe chegaram à beira.
Asneira...




Firmamento




Em um cenário estático
gira o palco em elipse
e no centro dele,
Galileu em chamas
me chama satélite
enquanto fujo cometa.
Nosso céu tem mais estrelas
...



Do Esperança




Regou as plantas e foi dormir.
Eis um homem de poucas palavras
e muito Esperança.



A poesia não dorme




A poesia não dorme
comigo
E nem eu durmo
com ela
A poesia é o meu
abrigo
E sou eu que abrigo
nela
A poesia é a minha
insônia
E eu sou o sonho
dela
E nem assim ela dorme
comigo
E nem assim eu durmo
com ela




Gritos



Gatos malditos que aos miados
não deixam dormir,
sois piores que recordações.



domingo, 7 de maio de 2017

Fins



Morri hoje.
Morro amanhã.
E depois de amanhã.
O que são os dias, afinal,
Senão uma coleção de fins?