quinta-feira, 27 de julho de 2017

Fantoches



Sentada entre anjos e demônios.
Santa das noites madrasta insônia.
Com agulhas de crochê em par.
Com fios de teias em tear.
Em parte a arte da dor.
Em parte a dor da arte.
Madeira cortada a canivete.
Marionete talhada.
Ganha vida. Fala. Grita.
Grito solto. Presa. Algema.
Uns chamam destino.
Outros dizem sina.
A santa da morte corta a linha.
Desce fria forte e morta a guilhotina.


quarta-feira, 26 de julho de 2017

Da morte provisória




Era cicatriz cirúrgica.
Era linha imaginária.
Era espera nevrálgica.
Era tortura diária.
Era sílaba tônica.
Era toda refratária.
Era imagem fática.
Era fórmula precária.
Era ilusão mágica.
Era capitania hereditária.
Era verdade lúdica.
Era mártir voluntária.
Era a morte provisória
de uma vida trágica.



Poema torto




O relógio quebrado.
Minutos contados.
Segundos cortados a fio de navalha.
A vida arredondada.
Ceifada.
Feito verso rústico.
Poema torto.
Como tortos são os tempos.
Tempos de relógios quebrados,
minutos contados,
segundos cortados,
vidas ceifadas.


domingo, 23 de julho de 2017

Fumaças



Olhares esfumados.
Os riscos da imprecisão.
Tão pouco vemos.
Tão pouco sabemos.
O disfarce da opinião.
Democracia de repentes.
Tão pouco ouvimos.
Tão pouco falamos.
Entre espasmos e soluços.
A falácia. O engôdo.
Tão pouco somos.
Tão pouco restamos.



Marte




Teus heróis óxidos.
Teus mártires solitários.
Teus mares sólidos.
Teus sóis gélidos.
Teus dias mortos.
Teus mortos heróicos.
Teus mártires, Marte.



Salada completa




Hipocrisia com pipoca. 
Ética de supermercado.
Hipnose política.
Beringelas alho e óleo.
Hipopótamos na balança.
Estátuas vivas.
Hímen elástico.
Evidências on the rocks.
História sem geografia.
Meio mussarela meio calabresa.
Híbridos instintos.
Laranjas e farinhas a granel.
Hipérbole patriótica.
O último tango em Icó.
Hidrocefalia sem fronteira.



Verdade e mentira




Presença é a verdade
que a falta não compensa.
A ilusão é a uma figura
vaga como vagas são as sombras.
O contorno é perfil. Nem sonho,
nem imaginação.
Praticamente não é nada.
É tudo mentira.
Um vale rasgado em cânions,
profundeza de tantos abismos.



sábado, 22 de julho de 2017

Itinerário




Na Barra Funda o velho prédio caiu.
Um Bom Retiro.
Liberdade em festa. Freguesia quieta do Ó.
Madalena. Beatriz. Ida. Vilas vivas.
A Pompéia é o umbigo do mundo. 
Paulista. Não seria diferente a avenida.
Na Luz a fumaça empoa ilusões.
Cambuci de Lavapés e bondes parados.
A bela vista do Bexiga.
Santa Santa Cecília. 
Ceci. Peri. Piqueri.
Morros. Cidades. Jardins. 
Altos. Baixos. Campos. Vilas. 
Chácaras. Granjas. Rios. Parques.
Itinerário plural. Vida singular.
Nunca mais Consolação.
Novos templos tomaram a São João.
Novos tempos.



Tubaína




No balcão. 
Na mesa rodeada de banquetas.
Em frente ao prato fundo de torresmos.
Foram perdidas as ilusões.
Foi embora a juventude.
Passaram ao largo do destino.
Uma garrafa de tubaína.
Um ovo cozido cor-de-rosa.
Um sanduíche em pão duro.
Um decalque raspado no ladrilho.
Ame-o ou deixe-o.
Um país sem futuro.


Trópicos




Capricórnio, onde estão as esperanças?
Promessas, palavras, perdões.
Retas, curvas, tangentes.
São plurais as aflições.
Singular, o desespero.
Não engane a geografia.
Nada resta.
Nem o pão nosso, sequer cada dia.