segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Lua Branca




Contaram-me que a lua está linda.
Disseram-me que a lua está alva.
Não tive olhos para a lua branca.
Talvez as nuvens do meu céu,
quem sabe a tristeza dos meus olhos,
quiçá a própria lua se me negou a si.
As boas línguas deram conta
de uma lua fina, estreita, quase risco,
quase riso, quase foice.
Pode ser que a lua branca evitasse amar.
Ou cortar meu sonho com sua lâmina mulher,
ou negar-me o vinho para não quebrar a taça.
De qualquer jeito, a noite perdeu a graça.



Da clemência



Por que me negas o delírio
com a mesma coerência
-- ou clemência --
que me pingas o colírio:
meus olhos nublam
minhas mãos tremem
e a alma vaga
entre a insanidade de perder-te
e o ter a ti insanamente.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Motivos





Porque o sol cega
Porque a luz falta
Porque o mar vaza
Porque o amor mata

Qualquer dia




Qualquer dia, quem sabe, nos vemos.
Cruzamos na rua ou embarcados no mesmo voo.
Talvez sem percebermos, talvez sem tempo.
Qualquer dia nos cruzamos.
Na fila do banco ou na porta do paraíso.
Sem palavras e sem ação.
Nenhuma surpresa, nenhum desespero.
Qualquer dia nos perdemos.
E, sem querer, nos encontramos.
O que pensar, o que fazer, então?
Qualquer dia. Nem sabemos.

Na tua palavra




No teu colo.
Na tua mudez.
No teu espaço.
Na tua tez.
No teu leite.
Na tua mão.
No teu ventre.
Na tua frente.
No teu ocaso.
Na tua casa.
No teu cair.
Na tua palavra, morri.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

então são paulo




então a memória caminha pela xavier de toledo
então na paulista 900 lembrar da ditadura sem medo
então o coração acelera na praça da república
então reverenciar as meninas da augusta
então um sopro de esperança invade a rua da abolição
então sentir gosto da hóstia na igreja da consolação
então me comove olhar o pico do jaraguá
então no anhangabaú ouvir ecos de diretas já
então jogar poesias dos prédios feito confetes no carnaval
então cruzar o viaduto santa efigênia a cantarolar
então uma emoção deixar o araçá em lágrimas
então dizer que um dia eu volto, um dia eu volto


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Veleidade




As velas içadas.
Oceano de desejos.
Um dia inteiro pela frente.
E sua agonia.
Quando o querer não basta.
Quando o querer não vinga.
Quando o querer não passa.
As velas içadas.
Sem vento nem verdade.
Veleidade.


Poltronas




Era uma tela e havia um filme.
Fosse romance.
Fosse aventura.
Fosse suspense.
Uma poltrona ocupada.
Um desconhecido.
Uma poltrona vazia.
Uma ausência.
De pouca valia a possibilidade.
Nem final feliz.
Nem final.
Nem a poltrona ocupada.
O vazio é uma sinopse não escrita.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Haikai prometedor




Ano que vem, prometer-se-ão
Segurança, saúde, transporte e educação.
Só que não.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Amizade e virtudes



Há uma esquina em Havana, Cuba, onde se encontram as "calles" Amistad e Virtudes. Não foi nessa esquina que encontrei Daniel Brasil em minha primeira visita à cidade, mas bem que poderia ter sido. Era 2013 e há meses não nos víamos. As ruas de "Habana Vieja" foram curtas para nós. Do Café Paris ao Floridita e depois de volta ao Café Paris, onde topamos com Hemingway vivo e levemente embriagado. 

A amizade entre nós começou nos idos de 2002, quando cheguei a Brasília meio assustado com as mudanças vividas: trocar São Paulo pela Capital Federal, sair de um emprego de duas décadas para um contrato temporário de 36 meses, deixar a assessoria de imprensa para trabalhar com relações institucionais. Não foram apenas essas as mudanças, mas bem que poderiam ter sido. Daniel era o estagiário. Eu, o neófito. Foi o suficiente para começar uma amizade que cresceu em admiração, cumplicidade e respeito. Daniel era amigo, irmão, filho, exemplo.

Éramos parceiros no samba, na poesia, na dedicação ao trabalho -- que ninguém é perfeito -- na visão de um mundo melhor. Daniel era um especialista em sorrir. Eu, modéstia a parte, adorava vê-lo gargalhar com minhas histórias insanas e paixões quixotescas. Daniel sempre foi um homem íntegro. Um apaixonado. Podia ser em São Paulo, no Haiti, na Asa Norte ou em Cuba, Daniel era Daniel. Não que isso fosse importante, mas bem que poderia ser.

Nossas conversas eram memoráveis. Os dois se entusiasmavam até a salvação do mundo ou o escárnio. Eu crescia com Daniel e penso que a recíproca era verdadeira. Tem uma história nossa, acho que ninguém conhece. Certa vez, um conglomerado capitalista procurava um executivo de relações institucionais com tantos predicados que poucos seriam os candidatos. Entre as exigências, criatividade. Pois, caras-de-pau, mandamos juntos nossos currículos, nos oferecendo em dupla. Claro, nunca nos chamaram, mas bem que poderiam nos ter contratado. Perderam.

Nesta quarta-feira, Daniel aprontou das suas. Morreu. Quer saber? Na quinta, quando vi a lavagem do Bonfim, vislumbrei Daniel ali, com as baianas, reverenciando a vida. Não sei se vi demais, mas bem pode ter sido...



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Palavras fáceis



Tem dias que as palavras vêm fáceis.
Parceiras. Amigas. Amantes, algumas.
Vêm com disposição e motivadas.
Combinadas em versos, estrofes, poemas.
Arquitetas e obreiras nas crônicas.
Roteiristas e argumentos nos contos.
Vêm a cântaros. Aos borbotões. Aos montes.
Tragicômicas. Dramáticas. Documentaristas.
Inquietas. Pródigas. Generosas.
Palavras fáceis em dias difíceis.
Palavras irmãs em improváveis poesias.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Entre pesadelos



Nasci revisão.
Busquei erros.
Encontrei quases.
Desmenti talvez.
Entendi o conceito.
Enxerguei o espelho.
Revi os meus.
Revivi os teus.

Eternidade



dormi demais, eternidade:
o pesadelo era menos cruel
do que a realidade

sábado, 7 de janeiro de 2017

A noite dos mortos-vivos




A noite quente não me abandona.
Nem a agonia dos mortos-vivos.
Não há estrada.
Não há caminho.
Não  há.
Foram-se embora a humanidade,
a compaixão, a fraternidade.
Não somos irmãos.
Não somos dignos.
Não somos.
A noite é febre e minha consciência arde.
É tarde.
Melhor morrer.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O loteamento da razão



Do lado de dentro
Do rego do mundo
Do fundo do poço
Da poça de sangue
Do seio de fogo
Da fenda do falo
Do ralo do vaso
Do raso da razão

Haikai intestino



Estranhas
estradas
as entranhas

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Radicais




São profundas as raízes.
Do profundo se alimentam.
No calor do inferno.
Nas águas freáticas.
A planta do Mal e a semente do Bem.
Sugam da mesma seiva.
Bebem o leite das virgens.
Sentem as dores do caule.
Pranteiam lágrimas de látex.
E dão frutos que entregamos aos deuses.
Impunes e radicais.

Haikai moderninho




Esse Tinder, amigos, não é de nada:
Você procura uma alma gêmea,
Você encontra alma penada.


domingo, 1 de janeiro de 2017

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Primeiro. De janeiro.
Principia o ano. 
Pleno. Inteiro.
Planos.
Provas?
Possivelmente.
Pedidos.
Peço a humildade que traz tolerância.
Paciência -- comigo mesmo.
Peço luz e harmonia.
Poesia, poesia, poesia.
Peço integridade e igualdade.
Polidez, gentilezas.
Princípios e honestidade.
Paz na Terra.
Para todos os homens.
Pelo ano todo, por todas as horas.
Peço amor.