terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Saudade




Permita-me a vida um dia de saudade.
Dia de lembranças, de recordações.
Horas de viver encontros impossíveis.
Nem espaço nem tempo nem dimensão.
Sem limites, desta vez a vida pode.
O abraço. O carinho. O perfume.
Sensações. Sentidos. Realidade.
Como se alinhavasse a minha história.
Em frases interrompidas.
Em palavras além do amor.
Em livros dedicados e velhos retratos.
Um sabor vivo que dá água na boca.
Estão tão perto os anjos.
Estou certo.
Estão tão junto os anjos...


domingo, 26 de fevereiro de 2017

Da esculhambação





Quando a poesia escorre dos olhos,
pode ser chamada lágrima?
Quando o dilema enruga a testa,
pode ser chamado sintoma?
Quando a comédia vasculha a mente,
pode ser chama realidade?
Quando a dúvida esculhamba a alma,
certamente se chama vida.


sábado, 25 de fevereiro de 2017

Haikai real




Pode parecer marmelada
mas o rei não está nu:
Está só fantasiado de nada...



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Fortuna




Era Fulano de Tal com 11 letras.
Tinha 38 anos e um metro e setenta e seis.
Pesava quase 100 quilos mas confessava 90.
Comprou uma tv digital de 55 polegadas.
O som quadrafônico era de 1.200 watts, reais.
Seu apartamento valia mais de um milhão:
cobertura no sétimo andar.
O uísque era doze anos, o vinho safra 2011.
O contracheque tinha cinco dígitos, sete com os centavos.
O carro zero de 4.300 cilindradas tinha 250 cavalos.
Custou uma fortuna, quase 300 mil.
Cursou três faculdades e duas especializações.
Teve dois filhos, uma mulher, dois cachorros e uma cacatua.
Nas últimas férias viajou quase 8.000 quilômetros.
E orgulhava-se das mil e uma habilidades.
Foi parar no lote 408 setor 3 quadra 702.
Mas o enterro foi de primeira, uma verdadeira fortuna.


Em se plantando, tudo dá



Da noite e do dia,
do ser ou não ser,
da cela ao escancarado portão,
do não e do consentir,
ao trocar os pés pelas mãos,
da matéria prima até reciclar,
do amor à indiferença,
por mal traçadas linhas,
nas quebradas do mundaréu,
céu, inferno, céu,
da zona cinzenta à luz vermelha, 
pelos desertos ou nas represas,
uma estrada, o hospício, a lanterna,
de momentos e sempiternos,
dos líquidos aos gases,
da solidificação até o éter,
da vida e da passagem,
da morte e das paragens,
do silêncio ou da melodia,
de todos os homens a todas mulheres,
tudo dá poesia.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Tatuagens



Minhas tatuagens são cicatrizes.
Marcas que vira e mexe sangram.
E a tinta vermelha que se faz corte
é da mesma matiz que censura o verbo.
Minhas tatuagens são corações e âncoras.
Profundas e rancorosas.
Rasgam a pele como singram mares,
riscam rumos tal qual emoções.
Minhas tatuagens imaginárias.
Linhas tropicais e meridianas.
Desenham poemas, rascunham sóis 
e dispensam maiores comentários.


domingo, 19 de fevereiro de 2017

Boa morte




Que medo
da folha em branco
Paúra
do meu vazio
Secura
no leito frio
Da morte
do velho rio
Brandura
de toda sorte
Medida
da boa morte.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Velhas promessas




novas palavras me encantam
tanto quanto
velhas promessas me enganam

Entreato




É quando eu me entrego ao chão
e encontro seus pés, mulher,
e beijo a pele que a liga à mãe-Terra.
É nesse entreato que se colam
a sua, a minha, toda a vida.
É no arrepio ou nas cócegas
onde moram o prazer e o riso.
É na procura ou no gesto
quando queimam o desejo e a fusão.
É no silêncio ou na música
que entoam o gemido e a palavra.
É no encanto ou no encontro
de quem faz amor com gosto de mel.

Medusa






(para Stéfani Garcia)

É meu o que não é meu
e em mim vive e vivifica.
Tua força, minha força.
Teu amor, meu amor.
Tua irmã, meu irmão.
É teu o que não é meu
e em mim vive e vivifica.
Meu amor, teu amor, meu irmão.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Quatro pães




Abaixo da linha da miséria.
Quatro pães.
Até a linha do Equador.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Sinal de alerta



Andam escuros os dias.
Medo, dúvidas, cruzadas vias .
Perigos e credos.
Caminhos sem trilhos.
Onde estão, onde estamos?
Como guardar nossos filhos?
Não se vê o horizonte.
A ponte rompeu cordões.
Perdemos os elos.
Das torres, gritos e mudez.
A vigilância dos torreões.
O outro lado do incerto.
A outra face do pesadelo.
Um discreto sinal de alerta.


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Eclipse



Quando a lua parece rir.
Quando o medo de cair.
Quando a vida sugere ir.
Quando o rumo decidir.
Quando a rima abolir.
Quando o amor partir.
Quando a flor não abrir.
Quando o poema explodir.


domingo, 5 de fevereiro de 2017

Poema preguiça




Meio Macunaíma, meio Jeca Tatu.
Meu poema espreguiçou.
E nem assim se livrou da lombeira.
Modorra, apatia, leseira.
Palavras não chegam. Nem saem.
Ideias passam de lado. Tangentes.
Sentimentos descansam incansavelmente.
Pululam adjetivos, sobram advérbios.
É mais fácil versejar com eles.
Verbos indicam ação e agir cansa.
Anda difícil viver, impossível conviver.
Anda difícil.
Malhar em ferro frio.
Esperar a água furar a pedra dura.
Tocar a mesma nota em sinfônica teimosia.
Um conforto magoa.
Uma mágoa conforta.
Acalento um feto em berço esplêndido.
Nosso céu tem mais estrelas. Vou contar.
Entrego um poema preguiça à vida.
Pode ser um jeca, pode ser um caapora.
Quando acordar pode ser um hino.
Como dantes, quem sabe faz a hora.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

Galáxia




Um poema em busca de espaço.
O espelho quebrou.
O planeta explodiu.
A galáxia pulsou.
Onde estão os caminhos trilhados?
Onde as flores foram viver?
Onde o silêncio guardou a verdade?
Um poema em si mesmo,
sem resposta nem destino.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Palavras




Sagradas são as palavras de amor.
Benditas são as palavras de consolação.
Inevitáveis são as palavras de pesar.
Inexplicáveis são as palavras eternas.
Tímidas são as palavras de carinho.
Inesquecíveis são as palavras dos amigos.
Hesitantes são as palavras de promessa.
Fortíssimas são as palavras de honra.
Divinas são as palavras de perdão.
Medidas são as palavras da poesia.
Molhadas são as palavras de tesão.
Remoídas são as palavras da ira.
Íntegras são as palavras da verdade.
Perdidas são as palavras da mentira.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Enquanto as palavras dormem




Enquanto as palavras dormem
a vida desfila sonhos.
São amigos. Personagens.
Ídolos. Santos e demônios.
Ladrões de verdades.
Desconhecidos. Androides.
Andróginos, reis e rainhas.
São cenários. Praças e avenidas.
Palco. Tela. Janela. Cortinas. Sóis.
Casas. Celas. Quartos. Muros e paredes.
Mares. Rios. Cachoeiras. Águas-furtadas.
Nuvens. Árvores. Floresta. Redes.
São amores. Toques. Desejos.
Mãos. Ventre. Coxas. Dedos. 
Beijos. Unhas. Língua. Carinho. 
Ritos e liturgias. Pés. Cócegas. Arrepios.
Seios. Orifícios. Gritos, gemidos e ais.
Enquanto as palavras dormem
uma vida de sonho brinca de ser.