quarta-feira, 29 de março de 2017

À francesa (haikai)




Não tenha dó, nem pena:
Ir embora
é da arte de sair de cena.

terça-feira, 28 de março de 2017

Eu, terceirizado




_Bom dia, sou novo aqui.
Onde fica o meu quadrado?
_Naquela mesa de pé quebrado...
_Sou eu, terceirizado.

_Quanto tenho de intervalo?
Meu almoço é congelado.
_E você precisa comer?
_Sou eu, terceirizado.

_Desculpe, acho que quebrou.
Deram-me instrumento errado.
_Você foi o grande culpado...
_Sou eu, terceirizado.

_Não entendi muito bem...
O salário veio minguado.
_Prefere ser dispensado?
_Sou eu, terceirizado.

_Posso ir ao banheiro?
Faz horas que estou apertado.
_Que sujeito enrolado...
_Sou eu, terceirizado.

_Não sei se eu consigo.
É pouco tempo e muito chamado.
_Tu te viras e um abraço.
_Sou eu, terceirizado.

_Hoje temos um curso?
Chegou minha vez de ser treinado?
_Pode tirar o cavalo da chuva...
_Sou eu, terceirizado.

_Vai mudar a empresa?
Terei que ser recontratado.
_Pode esquecer suas férias!
_Sou eu, terceirizado.

_Não entendi muito bem.
Esse não é meu trabalho.
_Não reclama e faz logo.
_Sou eu, terceirizado.

_Ninguém trabalha amanhã.
Finalmente, um feriado.
_Você ficará de plantão.
_Sou eu, terceirizado.

_Acho que tenho febre.
Eu me sinto adoentado.
_Nem pense em atestado.
_Sou eu, terceirizado.

_Desculpe, o trem atrasou.
Por isso cheguei atrasado.
_Cada minuto será descontado.
_Sou eu, terceirizado.

_Não depositaram a previdência .
O fêgêtêésse foi lesado.
_Não temos nada com isso.
_Sou eu, terceirizado.

_Sou eu, terceirizado.
O novo escravo do Brasil.
_Mas você tem o direito
de ir pra puta que o pariu...

quarta-feira, 22 de março de 2017

Discretamente




Pouparam-se de palavras.
E o silêncio
disse tudo quanto eu temia.


Menino no espelho




Olhei no espelho
e, por um instante,
vi o menino que fui.
Mais lépido e esperto,
ele se foi. Correu
antes mesmo 
que eu lhe chamasse a atenção.


domingo, 19 de março de 2017

Querias




queria ser teu fantoche
talvez teu fetiche
queria fazer das runas poesia
talvez paixão
queria beber teu leite
talvez vinho
queria sorver teu gosto
talvez sabor
queria o teu querer
talvez quisesses...


quarta-feira, 15 de março de 2017

Necropsia




As mães loucas.
Os pais órfãos.
Os mortos sem pena
de morte.
Os corpos ao sol.
A vela comum.
Acesa.
A vala comum.
A todos nós.
A cova rasa sem razão
social.
A causa fútil.
O motivo torpe.
Eu entorpecido.
Uma nação torta.
Uma nação morta.


Das unhas vermelhas




Que inveja eu tenho
das unhas vermelhas e afiadas
que sangram as costas
como riscam as almas
simplesmente por prazer.
Elas, esmalte.
Eu, epiderme.


sábado, 4 de março de 2017

Tão pouco



Tão pouco sei.
Não sei se você existe.
Nem sei se existiu.
Não sei se existiu você.
E se nem isso sei,
se tão pouco sei.
que dizer dos passos que vi na areia.
Não sei se eram seus.
Nem sei se eram passos.
Nem sei se foram. 
Foram-se.
Como se foram palavras, perfumes, presença.
Foram palavras?
Eram perfumes?
Houve presença?
E assim, 
sem saber do tão pouco que sei
-- ou não sei --,
que nem sei se perdi as palavras, 
se esqueci o perfume,
se não segui as passadas.
Tão pouco passado. 


sexta-feira, 3 de março de 2017

A quem possa interessar



a quem possa interessar,
a esta hora da noite um homem morre

a quem possa interessar,
há um caos e mil cacos no chão

a quem possa interessar,
as raízes subiram pelo caule em flor

a quem possa interessar,
a fome marca o caminho com migalhas

a quem possa interessar,
há brilho e mentira nos brilhantes

a quem possa interessar,
o desejo não tem tradução nem tradição

a quem possa interessar,
a musa nua mira a mortalha do pintor 

a quem possa interessar,
o poder desdenha da liberdade

a quem possa interessar,
há uma vaga na garagem

a quem possa interessar,
não há ordem nem progresso

a quem possa interessar,
acabaram as moedas do cofre

a quem possa interessar,
há um bom diabo no meio da gente

a quem possa interessar,
fechei a janela e apaguei a luz

a quem possa interessar,
jogamos fora as sementes



quinta-feira, 2 de março de 2017

Galo de fogo



Toma conta do dia o galo de fogo.
Abre os olhos, abre a mente.
Sincero, seu canto desperta.
Impulsivo, seu charme seduz.
Canta coragem aos heróis.
Canta honestidade aos quadrantes.
Canta confiança ao arrebol.
Empresta seu canto, galo irmão.
Galo de fogo, galo de luz.


quarta-feira, 1 de março de 2017

Dos guardados




Onde estão os guardados da emoção?
Qual escaninho preservo dias, deuses, domus.
Há pouco espaço à surpresa.
De encontros e de desejos.
De dívidas e de dúvidas.
De achados e de perdidos.
Há pouco tempo a respirar. 
Quis uma pneumonia nos absolver.
Ou absorver?
Absolutamente.
Há pouco café na xícara.
Era uma vez uma história.
Era uma vez um poema.
Era uma vez um amor.
Há pouca verdade na estante.
Entre prateleiras cheias e homens vazios,
resta a pergunta impoluta.
Onde estão os guardados da emoção?